Análise

Dancing May e outras notícias que podiam ter sido piores

Por enquanto, o conservadorismo moderado de Theresa May é o melhor com que a Europa pode contar.

1. Um amigo, certamente com vontade de me tirar o sono, enviou-me já tarde na noite de quinta-feira as previsões das casas de apostas para o vencedor do Nobel da Paz, porventura o prémio que melhor reflecte o estado do mundo em cada ano, por esta altura. As apostas eram assustadoras. A dupla Trump-Kim Jong-un, por causa da Coreia do Norte; o anterior presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, ainda no alegado exílio. Claro que não há equivalência entre os nomes desta lista impensável. Trump não é igual a Kim. Puigdemont não é igual nem a Trump nem a Kim. Mas a lógica de qualquer das escolhas seria profundamente negativa. Trump entretém-se a destruir a ordem internacional liberal construída pelos Estados Unidos e a impor a sua vontade na escolha de um novo juiz do Supremo Tribunal, Brett Kavanaugh, cuja idoneidade moral e política está definitivamente manchada por suspeitas de carácter e por factos políticos, independentemente de se virem a comprovar ou não as acusações de violação. Politicamente não há dúvidas: a forma como argumentou em sua defesa mostra que o seu distanciamento político é inexistente, o que não é nada recomendável para quem vai assumir um cargo vitalício no Supremo Tribunal americano, que interpreta com carácter definitivo a Constituição. É uma mancha desnecessária que o próprio, se tivesse a dimensão moral para o cargo, deveria ter entendido, retirando-se de cena. Mas, a um mês das eleições de meio de mandato, vale tudo para tentar travar uma derrota anunciada dos Republicanos na Câmara dos Representantes e uma ainda possível derrota no Senado. No meio disto tudo, uma boa notícia: as sondagens indicam que uma maioria está do lado da mulher corajosa que aceitou testemunhar publicamente no Congresso sobre o comportamento de Kavanaugh. Sobre Kim não há nada a acrescentar. Puigdemont não é mais do que um dos protagonistas do independentismo catalão, que alguns sectores de esquerda erigiram em nova luta de libertação, mas que não passa de nacionalismo. Mau à esquerda e mau à direita.

2. Felizmente, as duas figuras escolhidas para o Nobel, por mais desconhecidas que sejam para uma grande maioria de pessoas, são totalmente merecedoras. Uma porque denunciou o mal. Outra, porque praticou o bem. Nadia Murad, membro da minoria yazidi, pela sua denúncia pública da violência sexual contra as mulheres como arma de guerra. Feita prisioneira do Daesh no Norte do Iraque, foi escrava sexual durante dois anos, depois de ter assistido ao massacre da sua aldeia e até conseguir escapar para a Alemanha. Denis Mukwege, o médico que queria ser obstetra para ajudar a dar vida, dedicou a sua própria vida a ajudar as mulheres vítimas da mesma violência sexual, transformada em arma de guerra, nesse buraco negro da humanidade que é a República Democrática do Congo. “O médio que repara as mulheres” vitimas do horror das violações em massa. A sua história é de tal modo extraordinária que já foi contemplado com o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu (Nadia Murad também) e com o Prémio Gulbenkian. Dois heróis quase anónimos, à espera que o mundo nos ofereça de novo as figuras políticas que se mostrem dignas de receber um prémio com esta carga humana. Merkel chegou a ser falada. De todas as figuras de projecção mundial que me passam de repente pela cabeça é, talvez, a mais próxima de merecer o galardão. O seu acto generoso de 2015, abrindo as portas sem restrições aos que fugiam da guerra, ou os seus esforços, muitas vezes sinceros e decisivos, para manter vivo o grande projecto de paz que é a Europa, seriam duas boas razões num mundo em que imperam cada vez mais figuras que ofendem a consciência humana, como Putin ou Xi ou Duterte ou Bolsonaro. Não são todos iguais, convém repetir mais uma vez. Mas não deixam de nos deixar profundamente inquietos com os destinos do mundo.

3. Em Birmingham, nem tudo foram más notícias. Poder-se-ia argumentar que já nos contentamos com pouco. Mas quando o que poderia correr muito mal não corre, já é sinal para algum alívio. Theresa May aguentou. Não apenas aguentou a investida nacionalista dos furiosos do "Brexit", como ofereceu dois bónus inesperados. O primeiro foi a sua entrada em palco, que não teve nada de ridículo, como alguns querem fazer querer, pelo contrário. A “Dancing May” dançou ao som dos Abba com elegância e sem exageros, calçando como sempre sapatos elegantes e exibindo um colar e as pulseiras a que qualquer mulher tem direito. Tentou fazer humor e teve graça, quando disse que, desta vez, as letras do painel do fundo do palco não cairiam porque eram uma imagem virtual, e que a sua garganta estava bem afinada. No ano passado, ficou sem voz, as letras do painel caíram enquanto falava. Mostrou segurança e boa disposição, perante a rajada de ataques que lhe foram desferidos pelos defensores do "Brexit" puro e duro, que adorariam ver a sua cabeça numa bandeja mas têm medo de assumir responsabilidades na pior altura. Se passou pela cabeça de alguns líderes europeus que a melhor solução para fechar as negociações do "Brexit" seria a derrota de May para abrir caminho a eventuais eleições e a um governo Corbyn, ainda bem que os seus desejos não se realizaram. Corbyn, como é fácil de entender, não arriscaria a sua ambição pelo poder por uma causa na qual, no fundo, não acredita. 

O segundo bónus de May foram as palavras. É quase unânime na imprensa britânica que Theresa May terá feito um dos seus melhores discursos de sempre. Em suma, partiu reforçada para a fase final das negociações de saída, que entram na sua fase crucial nas próximas semanas. E a experiência mostra que um líder fortalecido pode ceder mais do que um líder enfraquecido. Há ainda problemas muito complicados a resolver mas, pelo menos, há melhores condições para que o Reino Unido e a Europa comecem a pensar estrategicamente sobre o futuro. Philip Stephens, numa análise demolidora dos “nacionalistas ingleses” que querem fazer do seu país uma Singapura às portas da Europa e ainda se orgulham disso, lembra que Boris Johnson só no último minuto se passou para o lado do “Leave” no referendo que David Cameron se lembrou de convocar para eliminar a oposição interna quando era primeiro-ministro. “A reviravolta e a sua reinvenção como o mais duro entre os duros foram essencialmente sobre a sua ambição pessoal.” Quem conhece a figura não tem grandes dúvidas sobre isso. Mesmo assim, conseguiu animar as hostes. A demagogia sem responsabilidade consegue quase sempre maravilhas. Até um certo momento. Ou se evapora ou se transforma em tragédia. Boris já traiu outros líderes conservadores. Não se coibiu de lembrar as “origens quenianas” do Presidente Obama ou de demonizar os imigrantes turcos durante a campanha pela saída, lembra Stephens. No congresso de Birmingham, perante as advertências sobre as consequências para a economia de um "Brexit" sem acordo, respondeu: “Os negócios que se lixem.” É um Trump mais despenteado que passou por Eton, bebendo a displicência da aristocracia mas não as boas maneiras. Concluindo, com Stephens, “ao mesmo tempo que os conservadores escorregaram para a direita, Corbyn arrastou o Labour para a esquerda populista. (...) Johnson fez de Bruxelas o inimigo; para Corbyn é o capitalismo”. Não é o cenário ideal para futuras escolhas do eleitorado britânico. Por enquanto, o conservadorismo moderado de May é o melhor com que a Europa pode contar.

4. Mas a doença persiste. No mesmo jornal, Martin Wolf escreveu um longo artigo sobre a frase mais absurda e mais perigosa que se ouviu de um membro do governo de May durante a conferência, ainda por cima na boca do chefe do Foreign Office, Jeremy Hunt. Comparar a União Europeia à União Soviética foi uma piada de muito mau gosto. “Num país a sério, um ministro dos Negócios Estrangeiros que pronunciasse essa declaração, num tal momento e sobre países amigos e tão importantes, seria despedido.” “Num partido de governo que se levasse a sério seria vaiado. Mas Hunt disse-o porque acredita que este tipo de estupidez maléfica é popular no Partido Conservador. É aterrorizador.”