Joana Linda

Um bilhete de ida e volta aos filmes cantados de Márcia

Vai e Vem, quarto álbum da cantora, é feito de canções que não precisam de munir-se de grandes efeitos para nos conquistar em pleno enquanto projectam inseguranças e medos.

Não é no momento em que acaba de derramar uma letra por cima de uma progressão de acordes ou no segundo a seguir a registar um tema em estúdio que Márcia tem uma ideia absolutamente clara daquilo que transporta em cada canção. Essa certeza costuma chegar, mais tarde, no instante em que fecha a mistura e, com todos os elementos em equilíbrio, as palavras ganham uma correspondência visual. “Quando a mistura está boa”, diz a cantora ao Ípsilon, “vejo a canção.” E “ver a canção” significa que na sua cabeça se organiza uma sequência de imagens, um videoclip privado, um pequeno filme que conta uma história ou estabelece um ambiente. Em Amor conforme, um dos temas finais do seu quarto álbum, Vai e Vem, essa imagem é a de uma mulher, algures no seu reduto doméstico, a lamentar a sensação de abandono que a corrói, enquanto fecha os olhos e se imagina a evadir-se daquele espaço de intimidade castigador e sufocante.

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Vai e Vem não é um álbum de ruminação terapêutica, de sarar feridas conjugais ou de maldizer amores presentes ou idos; é mais um disco que caminha sobre o fantasma da perda, do medo, da insegurança Joana Linda

É por isso que a voz em Amor conforme começa seca, sem qualquer reverb, como se estivesse abafada por quatro paredes à sua volta, os dias como duas mãos à volta do pescoço; depois o botão do reverb roda para a direita e conquista espaço como se o seu corpo se abrisse ao mundo. E foi assim mesmo quando estas opções, contrárias ao tratamento mais convencional do seu principal instrumento, lhe valeram suficientes braços-de-ferro com Nelson Carvalho, técnico da Valentim de Carvalho – que, em jeito de brincadeira, avisou que o álbum deveria incluir uma nota no livreto a explicar que estas e outras soluções menos ortodoxas são resultantes da teimosia da cantora, contra a sua opinião avisada.

Amor conforme – que, por uma nesga, não se tornou também título do álbum – é o exemplo flagrante de uma temática que terá “contaminado” Márcia durante o período de composição de Vai e Vem: “a ideia de separação”. Ao ver ruir à sua volta várias relações, não conseguiu evitar que nas suas novas canções repetisse esse exercício de se ver numa pele que, em rigor, a “aterroriza bastante”. Ou seja, Vai e Vem não é um álbum de ruminação terapêutica, de sarar feridas conjugais ou de maldizer amores presentes ou idos; é muito mais um disco que caminha sobre o fantasma da perda, do medo, da insegurança. E é, por isso, bem mais universal do que essa contaminação possa fazer querer. Uma universalidade que a faz pensar também no cúmulo da violência doméstica que pode abater-se sobre uma história a dois fundada numa noção (mais ou menos enviesada) de amor.

Essa mestria de Márcia em não se esconder atrás das palavras, em atirar-nos versos sem nos atirar areia para os olhos, persiste como uma das mais envolventes marcas da sua escrita – sem fazer um strip integral da sua intimidade, não afunda as canções numa abstracção que se limitaria a erguer barreiras sucessivas à compreensão. Nem, no extremo oposto, junta rimas que fazem pouco mais do que combinar fonemas e soar minimamente musicais. Vai e Vem é, portanto, um álbum que se escuta com frequência como um rumor de projecções – mais do que relações a descambar, ouvimos a projecção dessas ruínas e o medo de que aquilo que começa bem esteja fatalmente destinado a quebrar-se, irreparável.

Não só doce, também sarcástica

Há também um filme que se desenrola na cabeça de Márcia desde que ficou fechada a mistura de Vai e vem, o tema que dá nome ao seu quarto longa-duração. É a certeza que vai e vem, a descrença num futuro a dois contrabalançada pela fé reencontrada após uma noite de sono. E é uma canção por demais charmosa, apresentada em dueto com António Zambujo, tiro em cheio no alvo de uma languidez sedutora, com andamento de bossa nova e atravessada pelas cordas de Luís Figueiredo – exímias a atirar a voz de um para os braços da voz do outro.

Mais ou menos ensopado em declinações amorosas, Vai e Vem vinca também uma escrita que serpenteia por entre histórias menos felizes, mas cujo desfecho implica quase sempre uma superação. Ou não fosse esta a autora que, em 2013, durante a vigência das políticas de austeridade implementadas pelo governo de Passos Coelho sob a alçada da troika, nos falava da felicidade como acto de resistência, uma forma de não deixar que os descretos-lei entrassem pela casa e pelo quarto dentro e arrasassem com a vida no seu domínio mais íntimo. Ser feliz, apesar de tudo que então se vivia, era desinvestir governantes e tecnocratas do poder de esmagar presentes e terraplanar futuros mais radiosos.

Mal se extingue essa milagrosa troca de versos doridos entre Márcia e Zambujo, arranca Corredor: “Disseste isso de cor / Já te tinhas bem pensado / Antes de seres quem és”. Aqui é Márcia a contrariar o cognome com que foi informalmente presenteada – “a doce” – que, não a ofendendo, a reduz a uma dimensão que amputa muito daquilo que encontramos em canções muitas vezes caídas erradamente na categoria da candura. “Não sou só doce, sou bastante sarcástica e não desisto de uma discussão”, contrapõe. Daí que lhe oiçamos a voz num registo de troça, alvorada em “pose de pavão”, a bicar nas manias e vanglórias de terceiros.

É um Corredor que leva pouco mais de dois minutos a ser percorrido – uma contagem pouco extensa que partilha com quase toda a primeira metade de Vai e Vem, pouco se permitindo ultrapassar a marca dos três minutos. Ao invés de cair num comum pecado da complexificação e de avançar pelos discos cedendo à tentação barroca de se legitimar e valorizar por meio de algum espalhafato instrumental, Márcia espreme cada vez mais os seus discos até ao osso. Vai e Vem reduz as canções ao essencial, dispensa repetições de refrães que podem apressar a familiaridade com os temas mas também lhe mostram a porta de saída com menos cerimónias, trata o seu material como pequenas preciosidades a que é preciso estar atento. “Não suporto muito barulho, gosto de ouvir as coisas com clareza, em ensaios ou numa conversa”, diz. “Não gosto de multidões, não gosto de conversas de Whatsapp em grupo – saio logo –, gosto de falar com clareza.”

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Em sentido contrário às inseguranças que povoam as letras, este é, por isso, um álbum de uma enorme confiança nestas onze canções. Não só pela sua duração, mas também porque a instrumentação se faz de recursos mínimos, num exercício que se diria ser o de carregar o menos possível cada tema – como se, para não atrapalhar a viagem, a bagagem contivesse apenas o absolutamente necessário ao caminho. No limite, e talvez por aí se perceba a mão subtil de Kid Gomeza dividir os créditos de produção com Filipe Cunha Monteiro (também conhecido por Tomara), quase se pode imaginar a voz de Márcia a ser acompanhada apenas por um padrão rítmico, acrescido de um par de elementos pouco impositivos.

Kid Gomez (teclista e fazedor de beats que conhecemos como colaborador de Sara Tavares e Tiago Bettencourt) há muito que andava a namorar a possibilidade de produzir um álbum de Márcia. E foi, finalmente, no lançamento do mais recente longa-duração de Sara Tavares, Fitxadu, em que Kid também assina um par de temas, que o acordo entre os dois se deu. Com a pegada de Gomez inscrita sobretudo em Tempestade, Corredor e Daquilo que sou capaz, Márcia confessa não saber se “ele terá ficado saciado”. “Não é possível comigo”, admite, sabendo que qualquer ajuda exterior terá sempre de se haver com a visão muito determinada que tem para as suas próprias criações. Responsável por uns quantos sintetizadores espalhados sem alarde pelo disco, Kid foi fundamental também a garantir que o tema de abertura, Tempestade, encontrava um lugar em Vai e Vem e não numa discografia alheia. “Eu tinha pensado dar essa canção e achei que, tal como a tinha feito, era mesmo boa para a Mayra Andrade”, conta a cantora. Foi Kid Gomez a reclamar essa canção e a justificar que era necessária para o disco.

Uma questão de empatia

Tempestade descerra a cortina de Vai e Vem com uma letra que, recorda Márcia ao Ípsilon, foi cuspida nos dez minutos que tinha no estúdio antes de sair para ir buscar os miúdos à escola. E, talvez pela expulsão assim com contagem decrescente implacável, saiu de jacto e sem grande peneiração, não resistindo a passar – de forma pouco explícita – pela questão omnipresente destes tempos que é a situação dramática dos refugiados que tentam pisar firme solo europeu em busca de um novo começo.

Márcia hesita em mencionar a origem dos versos “Espera sempre dos momentos / alguma coisa que ao passar / te leve mais além. / A mais algum conhecimento / mas não queiras salvamento / se faltar a alguém”. “Sou sempre criticada se fizer posts políticos, já sei como é”, desabafa. “Mas não mexo com estas temáticas por querer algum tipo de exposição. Isto mexe mesmo muito comigo, faz-me muita confusão e aterroriza-me de uma forma semelhante semelhante ao que acontece com as separações. Ponho-me muito no lugar dos outros. E isso às vezes destrói-me, porque não posso viver a vida de outra pessoa, não posso sofrer pelos outros. Tenho de aprender que aquela não é a minha vida e que não posso sentir-me culpada por estar a viver num país livre. Tenho de estar grata pela vida que tenho aqui – temos paz todos os dias, dormimos num lugar sossegado e isso é muito valioso.” E, ligando A a B sem qualquer paragem pelo meio, cita a Hyperballad de Björk, descrição de uma idílica vida no cimo de uma montanha. “Ela vai até ao penhasco para se confrontar com a realidade dura e se lembrar do bom que é estar onde está.” “So I can feel happier / to be safe up here with you”, canta a islandesa. Mais uma vez, a segurança.

Tempestade é, pois, uma canção empática. E escrita na segunda pessoa, como tipicamente Márcia o faz, tanto se dirigindo a alguém em concreto quanto a um ouvinte anónimo. Ou a si mesma, usando-se como espelho. Porque mesmo no sopesar de questões morais e éticas que, com frequência, atravessam as suas canções, não há uma atitude moralista, condescendente ou doutrinária. Não canta do cimo de um poleiro. Há sobretudo alguém que, dentro de cada tema, se vê a braços com as responsabilidades, as inquietações, as dúvidas e os dilemas da vida adulta, tenta encontrar-lhes um sentido e, quem sabe, respostas; alguém a tentar avançar à força de versos e de acordes para um mundo melhor – mesmo que esse mundo seja o de uma escala íntima, familiar – ou de se capacitar para lidar com as imperfeições que o olhar alcança um pouco por todo o lado.

Por vezes, esse confronto com o mundo precisa de um apoio. A presença de Samuel Úria como sombra em Emudeci, com a voz colada à sua, como se garantisse que não lhe falta coragem para entregar cada verso, torna-o claro, num tema que fecha a porta de casa de casa a daninhas influências exteriores. Úria ouve-se num quase sussurro, como se nos dissesse que está lá para não ser notado, somente para garantir que a mensagem não fraqueza e desiste a meio. Bem diferente do muito identificável, embora também sóbrio, Salvador Sobral, com quem Márcia partilha a revisitação ao tempo da infância que se pode ler em Pega em mim.

É mais um tema de um álbum muitíssimo inspirado de Márcia, que apenas em dois momentos desce um pouco a fasquia colocada bem alto – no rasto de rock-folk norte-americano em Do que eu sou capaz ou na menor assertividade (não por culpa de ser mais longo) do tema final Ao chegar, composto no carro, a caminho do supermercado, e informado em parte pela escuta dos War on Drugs. Vai e Vem é mais imaginativo e atraento sempre que soa mais directo e não tem medo de expor as canções nas suas aparentes fragilidades. E é encantador quando, de um jeito muito pessoal, Márcia deixa que o seu registo acolha um travo soul de quem andou a ouvir com insistência Sade durante a preparação das maquetas (e, em doses mais moderadas, Otis Redding, Aretha Franklin e Prince) e se deixa também infiltrar pela marca soul-pop frequente em Feist, audível em Mil anos ou Manilha.

Manilha é um caso singular: Márcia traz para uma só canção os seus anteriores produtores (Dadi Carvalho e Luís “Benjamim” Nunes), alargando um círculo que cresce de disco para disco. Um pouco como o filme mental que lhe surgiu com Ao chegar, quando imagina alguém a conduzir pela Ponte 25 de Abril, em fuga de mágoas e de vozes terceiras que precisam ser esquecidas, para então começar de novo. Começar de novo com tudo o que ficou para trás.

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