Carta perdida de Galileu mostra como tentou fugir às mãos da Inquisição

A missiva nunca esteve verdadeiramente perdida: estava guardada na Royal Society de Londres, num arquivo com a data errada. A descoberta, relatada agora pela revista Nature, ajuda a perceber a forma como Galileu encobriu as suas crenças científicas perante a Igreja Católica.

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Pormenor da carta original enviada por Galileu Galilei ROYAL SOCIETY

A descoberta de uma carta datada de 1613 e assinada com as iniciais de Galileu Galilei mostra como o cientista italiano tentou escapar à Igreja, que o acusava de heresia por acreditar na teoria heliocêntrica e por dizer que os fenómenos astronómicos descritos na Bíblia não deveriam ser lidos de forma literal. A (re)descoberta deste documento é contada na revista científica Nature e torna claro que Galileu escreveu, afinal, duas cartas na mesma data: uma inicial num discurso inflamado e outra, mais tarde, editada para dar a entender que a primeira não tinha sido escrita por si – deixando a Inquisição (e, mais tarde, os investigadores) num impasse, sem saber se a carta “herege” era da sua autoria ou não.

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Retrato de Galileu Galilei, pintado por Justus Sustermans em 1635 REUTERS/Marco Bucco

Depois das descobertas que fez ao telescópio que aperfeiçoara, Galileu escreveu uma carta ao seu amigo matemático Benedetto Castelli (da Universidade de Pisa), em que argumentava que a investigação científica deveria estar desligada das crenças religiosas. E mais: defendia que a teoria heliocêntrica (em que a Terra gira em torno do Sol e não o Sol em torno da Terra, como postulado na teoria geocêntrica então defendida pela Igreja) não era incompatível com a Bíblia. Essa carta original, agora encontrada, datava de 21 de Dezembro de 1613 e estava assinada “G.G.”.

Numa altura em que ainda não havia fotocopiadoras nem máquinas fotográficas, Galileu pôde invocar que as cópias desta primeira carta, reencaminhada para a Inquisição pela sua natureza controversa, tinham sido alteradas para que o seu conteúdo tivesse um tom mais “herético”. Depois, suavizou o conteúdo dessa carta e garantiu que se tratava da original e da única que escrevera.

Existem, portanto, duas versões da carta: uma escrita inicialmente por Galileu com uma narrativa mais revolucionária e acusatória e outra escrita posteriormente, com um discurso mais suave e prudente. Antes da redescoberta desta carta, a existência de duas versões confundiu os investigadores: não se sabia se a carta com a linguagem mais forte tinha sido forjada pela Igreja Católica para sustentar as acusações de heresia ou se teria sido Galileu a escrever as duas, com uma segunda missiva num tom mais cuidado.

Para tirar teimas, foi feita uma análise caligráfica que indica que foi Galileu quem escreveu a carta mais possante – e que editou, ele próprio, a sua carta. Depois de editada, partilhou uma cópia com um amigo, dizendo-lhe que se tratava da carta original e pedindo-lhe que a enviasse para o Vaticano. Essa carta permanece guardada nos arquivos secretos do Vaticano; a original fora devolvida por Castelli a Galileu.

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Duas das páginas da carta original agora encontrada, com a assinatura "G.G." de Galileu ROYAL SOCIETY

Perdida à vista de todos

A carta de sete páginas estava escondida em plena Royal Society de Londres – e lá estava há pelo menos 250 anos, longe da atenção dos historiadores. Foi encontrada num catálogo de biblioteca com a data errada. A sua redescoberta traz alguma luz ao desenrolar de eventos que conduziram à condenação de Galileu por heresia, em 1633.

Quem localizou a carta – por acaso e num catálogo online – foi o investigador e historiador Salvatore Ricciardo, da Universidade de Bergamo (Itália), que visitou a Royal Society a 2 de Agosto deste ano para uma outra investigação. “Pensei: ‘Não acredito que descobri a carta que praticamente todos os especialistas de Galileu pensavam estar irremediavelmente perdida’”, contou Ricciardo, citado pela Nature. “Parecia ainda mais inacreditável porque a carta não estava numa qualquer biblioteca desconhecida, estava na biblioteca da Royal Society”, acrescentou. “A carta de Galileu a Castelli é um dos primeiros manifestos seculares sobre a liberdade da ciência”, argumentou ainda o orientador de Ricciardo, Franco Giudice, que também analisou o documento.

Além destas cartas e de muitos registos dos achados de Galileu, existe um pergaminho com uma página em que o cientista aceita a sua sentença, pronunciada pelo cardeal Roberto Bellarmino, presidente do Tribunal do Santo Ofício. Nessa página, conta-se que, em Roma, a 22 de Julho de 1633, Galileu segurou uma vela na sua mão esquerda enquanto punha a direita sobre a Bíblia, ajoelhando-se e acabando por refutar as suas afirmações científicas.

Nascido em Pisa no ano de 1564, Galileu Galilei foi astrónomo, matemático e físico. Descobriu quatro luas de Júpiter em 1610 a partir de um telescópio feito por si – o telescópio já tinha sido inventado na Holanda dois anos antes. Depois de saber como fora fabricado o original, Galileu criou o seu e foi aperfeiçoando-o através do polimento das lentes.

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Esboços da Lua desenhados por Galileu Galilei REUTERS/Lucas Jackson

Foi com este instrumento baseado em princípios ópticos que o italiano começou a perscrutar os céus. Começou pela nossa Lua, depois pelas luas de Júpiter, mas foi quando apontou para Vénus que se apercebeu de que as fases do planeta só poderiam ser explicadas através da teoria heliocêntrica proposta por Nicolau Copérnico no século XVI, uma crença herética aos olhos do clero.

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