Nadia não se deixou calar pelo sofrimento

Há quatro anos, Nadia Murad foi raptada pelo Daesh e tornada escrava sexual. Conseguiu escapar e tem corrido o mundo para contar a sua história.

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Nadia Murad vive hoje na Alemanha Reuters/Lucas Jackson

A juventude de Nadia Murad foi interrompida no Verão de 2014, quando um grupo de combatentes do Daesh invadiu a sua aldeia no Norte do Iraque durante a violenta expansão que levou o grupo extremista e jihadista a controlar grande parte do país. A sua mãe e seis dos seus irmãos foram executados por se recusarem a converter ao islão. Para Nadia, os fanáticos tinham outros planos.

Com outras mulheres jovens, a yazidi Nadia foi levada para Mossul, a capital do “califado” governado pelo Daesh e entrou no mercado de escravas sexuais, tornando-se num despojo de guerra. Passou três meses enjaulada, forçada a ter sexo de forma contínua, a ser torturada e agredida. Calcula-se que mais de três mil mulheres e crianças yazidis tenham sido sujeitas a algo semelhante.

“A partir de certa altura, há a violação e nada mais, isto torna-se o teu dia normal”, escreveu Nadia em Eu Serei a Última, o seu livro de memórias publicado no ano passado.

Em Novembro, conseguiu fugir ao “califado”, após várias tentativas falhadas. Ao lado de Lamiya Aji Bashar, que foi raptada na mesma aldeia, Nadia tornou-se um rosto e uma voz para denunciar a violência quotidiana perpetrada pelos extremistas.

Apesar dos incontáveis traumas de que ainda padecem, percorreram o mundo para contar na primeira pessoa o drama que viveram, mostrando as cicatrizes e partilhando a sua dor. Em troca pediam justiça. Milhares de outras mulheres viviam ainda subjugadas pelo Daesh e Nadia e Lamiya apenas queriam que o mundo não esquecesse. Ainda hoje, quando o grupo terrorista é uma sombra do que já foi, permanece por apurar o paradeiro de muitas destas mulheres.

Outra das suas batalhas é que a perseguição sofrida pelos yazidis, um dos grupos religiosos mais antigos do Iraque, seja definida como genocídio.

Em 2016 as duas receberam o Prémio Sakharov, atribuído pelo Parlamento Europeu, e o Prémio Vaclav Havel de Direitos Humanos do Conselho da Europa. Nadia também tinha sido nomeada a primeira embaixadora da boa vontade das Nações Unidas para representar as vítimas de tráfico de seres humanos. Aos 25 anos tornou-se na segunda mais jovem a receber o Nobel da Paz, depois da paquistanesa Malala Yousafzai, em 2014.

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