Crítica

No cerne de Henry James, com Duras pelo meio

Um espectáculo admirável, mais uma confirmação da singularidade criativa de Miguel Loureiro, que propicia também uma chamada de atenção para as qualidades de dois actores, Margarida Marinho e Filipe Duarte.

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Margarida Marinho e Filipe Duarte dr

Além de ser um sólido actor, Miguel Loureiro é um criador sui generis no teatro português, sobretudo como encenador e dramaturgista, com espectáculos tão singulares como Juanita Castro, baseado no filme de Andy Warhol, ou Estudos, Notas e Apontamentos Gregos de Simone Weil (que ousadia esta, a de se inspirar em Simone Weil para um espectáculo teatral!).

Embora por vezes abordando também o reportório estabelecido (de resto não sem “tropeções” – nunca consegui perceber porque raio Tiago Rodrigues, director do D. Maria II, o programou para dirigir O Impromptu de Versalhes, de Molière, e porque aceitou ele fazê-lo, o que redundou num consumado disparate), Loureiro tem uma manifesta predilecção por construir espectáculos a partir de material não teatral, fazendo-o ele directamente ou indo buscar adaptações cénicas já feitas por outros. É este agora o caso de A Fera na Selva, adaptação por Marguerite Duras da novela de Henry James – James e Duras, que dois magníficos autores!

Sendo ela sobretudo (re)conhecida como escritora e também cineasta da maior importância, Duras é muito menos considerada como autora dramática. E no entanto ela escreveu várias peças, em que destacaria — sendo de resto um caso à parte, porque marcadamente autobiográfica — Dias Inteiros nas Árvores (editada nos Livrinhos de Teatro dos Artistas Unidos). Mas também fez adaptações de textos de outros, caso concreto de Henry James, e no caso de A Fera na Selva e The  Aspern  Papers alguma afinidade sentiria.

Entra-se no Pequeno Auditório do CCB e deparamo-nos com uma espantosa cenografia de Tomás Colaço – dir-se-á que, desde logo, já entrámos em pleno universo de Henry James!

Ainda antes de entrarem em palco, conhecemos John (Filipe Duarte) e Catherine (Margarida Marinho) por um diálogo em “voz off”. É talvez o prenúncio de algo que ficará “fora de campo”. Sim, vamos seguindo ao longo das cenas e dos anos os diálogos e encontros do par, nas idas de John à mansão de Catherine, mas numa relação nunca consumada. Quem é, o que é afinal “a fera”? Os fantasmas do atormentado John? A iminência de consumar a relação, hipótese latente mas também não admitida pelo par, sobretudo pelo individualista John?

Para dar corpo às personagens, Miguel Loureiro fez apelo a dois notáveis actores, todavia insuficientemente reconhecidos, Margarida Marinho e Filipe Duarte.

Marinho é outro caso de alguém cuja actividade televisiva a tornou rara em cena. Ainda por cima teve o azar de aquele projecto pelo qual mais tempo se afastou da indústria de ficções televisivas, o Frei Luís de Sousa que José Wallenstein encenou no São João em 2001, ter redundado num descalabro. De então para cá, desde 2001, Margarida Marinho fez-se muito rara em cena, mas não foi fortuito, e devia ter sido mais assinalado, que Solveig Nordlund a tenha escolhido quando apresentou no D. Maria uma versão teatral das Cenas da Vida Conjugal de Bergman.

Quanto a Filipe Duarte é de uma desatenção inaceitável não se ter em conta que, para além de séries televisivas (aliás portuguesas e espanholas), ele se vem afirmando como um considerável actor cinematográfico: A Vida Invisível de Vítor Gonçalves assenta também sobremaneira na solidez da sua presença, e já tinha corrido o risco do papel de um travesti em A Outra Margem de Luís Filipe Rocha, para além de vários mais filmes.

Um dos romances que trouxe nomeada a Duras foi Moderato Cantabile, título musical, que mais tarde ela própria adaptaria para o filme realizado por Peter Brook. Uma das suas peças chama-se La Musica. E, claro, o mais célebre dos seus filmes é India Song. São exemplos da recorrência ao longo da sua obra de uma insinuante musicalidade, que ela própria tinha ao ler os seus textos. E a reserva que se pode colocar a este A Fera na Selva é a de serem insuficientes nas falas do par as modulações musicais.

Mas Miguel Loureiro teve três ideias magistrais: incluiu uma gravação da própria Duras, com os seus tons insinuantes; pôs Filipe Duarte a tocar ao piano (sim, é ele mesmo que toca!) o célebre tema musical de Carlos d’Alessio para India Song; e, numa escolha aparentemente arbitrária mas afinal plena de sentido, dá também a ouvir “Non mi dir, bell’idolo mio”, uma ária de Donna Anna no Don Giovanni de Mozart.

Mas não deixa de haver, e como!, um crescendo dramático, até à agonia de Catherine, numa cena final de estarrecer.

Infelizmente há duas notas que não se podem deixar de acrescentar: é incompreensível que, para um objecto tão singular, o programa se limite às biografias do encenador e dos actores; esta prática agora de espectáculos com uma curta, curtíssima carreira, no caso apenas três dias (!!!), é inaceitável, uma enorme falta de respeito para os que se esforçam no labor cénico mas também para com o público. É imperioso vir a haver uma reposição deste admirável A Fera na Selva!