Editorial

O Conselho da Europa quer que recontemos a História

Sejamos francos: o que está em causa não é a factualidade da História mas a criação de um novo historicismo baseado na maldade intrínseca do homem branco ou no horrível modelo civilizacional que a mobilizou para desgraça dos outros povos.

E sem nada que o fizesse supor, o Conselho da Europa decidiu alinhar-se com as franjas mais radicais do politicamente correcto para intimar as autoridades portuguesas a “repensar o ensino da História e, em particular, a História das ex-colónias”. Como é hábito acontecer neste género de debates – e o caso do museu dos Descobrimentos é a propósito exemplar -, o que está em causa não é um diálogo destinado a melhorar o conhecimento que temos sobre o nosso passado colectivo: seja pelos métodos, seja pela linguagem utilizada ou até pela invocação de uma pretensa superioridade moral, o que as ideologias como a que o Conselho da Europa veiculou pretendem em primeiro e último lugar impor a sua visão da história sobre a que hoje existe e se cristaliza nos nomes das ruas, dos museus ou das páginas dos livros de História.

Quem tem filhos no ensino básico tem condições mais do que suficientes para constatar que nos últimos anos houve um esforço sério por parte dos autores, das editoras e do Ministério da Educação em abolir o bafio da historiografia tradicional para abarcar o lado mais sinistro do racismo colonialista dos portugueses. Episódios como os de 1961 no Norte de Angola são assim descritos: “Um sentimento generalizado de medo entre os colonos levou-os a matar muitos indígenas enquanto outros fugiram, indo juntar-se aos guerrilheiros. Posteriormente, tribos do Norte de Angola assassinaram centenas de colonos.” Ou seja, reconhece-se a matança dos portugueses e enquadra-se a matança que se seguiu perpetrada pelos angolanos. Mas são exemplos como estes que levam os fundamentalistas que redigiram o capítulo português do relatório do Conselho da Europa a pedir mudanças. Como? Omitindo a morte de “centenas de colonos”?

Sejamos francos: o que está em causa nesta ofensiva não é a factualidade da História mas a criação de um novo historicismo baseado na maldade intrínseca do homem branco ou no horrível modelo civilizacional que a mobilizou para desgraça dos outros povos. É por isso uma posição que ergue barricadas, que alimenta facções e proíbe um esforço sensato de se perceber a natureza profunda do colonialismo português e dos seus imensos horrores – mas também das suas virtudes. É uma posição que merece combate, venha da academia minada pelo politicamente correcto ou do Conselho da Europa.