Câmara do Barreiro manda abaixo moinho de maré para... preservar património moageiro

Obra em curso será o primeiro passo para um percurso interpretativo da história do Barreiro ligado à moagem. Câmara assegura ter parecer técnico em mãos que sustenta a inviabilidade de manter o edifício

O moinho está localizado junto à Rua Miguel Pais
Fotogaleria
O moinho está localizado junto à Rua Miguel Pais Andreia Patriarca
A obra prevê a construção de um centro interpretativo
Fotogaleria
A obra prevê a construção de um centro interpretativo Andreia Patriarca

A história remonta a 2016, ano em que se iniciou um processo sobre a requalificação do Moinho de Maré Pequeno, no esteiro de Coina. O executivo da autarquia decidiu avançar com obras de requalificação, que são descritas pela Associação Barreiro — Património, Memória e Futuro como sendo “um arrasamento” e “um atentado gravíssimo à cultura e ao turismo” do concelho. O moinho foi intervencionado por estar “em ruínas” e por constituir “um risco para a via pública”, contrapõe a câmara. O moinho foi deitado abaixo, mas a autarquia rejeita a palavra “demolição”. Dessa obra, só restaram três bocas de água, onde irá assentar a base do novo edifício — um centro interpretativo ligado à moagem.

“Este é um projecto que nada tem a ver com a nossa memória, com a nossa história e com aquilo que existia antes”, diz Carla Santos, membro da associação que contesta a obra levada a cabo pelo executivo camarário do Barreiro. Apontando o local onde será erguido o edifício em betão armado e com fachadas envidraçadas, a activista afirma que não foi feita nenhuma consulta aos cidadãos sobre este projecto e que “toda a gente ficou surpreendida”. Para a associação, não é respeitada nenhuma arquitectura existente e, por isso, há que suspender o projecto.

A associação alega que por várias vezes pediu reuniões à câmara para discutir a viabilidade do projecto, mas que tardaram em dar respostas às solicitações. Carla Santos refere ao PÚBLICO que o executivo não respeitou nenhumas das normas nacionais e internacionais no que diz respeito à conservação de património e que a reconstrução do edifício como está agora pensada deve ser evitada.

Apesar de a memória descritiva elaborada pela câmara demonstrar “a investigação realizada” sobre a manutenção da antiga estrutura, a associação considera que os estudos levados a cabo “foram feitos apenas como uma possibilidade” e que as actuais dimensões do moinho definidas para a reconstrução poderão não ser as originais.

O Largo do Moinho Pequeno, como é conhecido pelos locais, fica junto ao rio, abrindo vistas para a bacia na qual se inserem os terrenos do antigo moinho. De lá contempla-se parte do sítio de Alburrica-Mexilhoeiro — duas pequenas penínsulas no Tejo constituídas por aluviões que, devido à formação de caldeiras, são fundamentais para a indústria da moagem. 

Com mais de 300 anos

O moinho intervencionado, cujo primeiro registo data de 1652, localiza-se numa área classificada como Sítio de Interesse Municipal, mas o executivo assegura que foi solicitado um parecer jurídico que confirmou não existir “nenhum problema entre a execução da obra e a classificação do sítio de Alburrica”. Em Fevereiro de 2017, foi anulada uma deliberação referente à classificação dos edifícios do moinho de maré e de vento enquanto Conjunto de Interesse Municipal. A obra a ser erguida permitirá “recuperar a volumetria do edifício original”, mantendo apenas o seu embasamento. Em respostas enviadas por email, a câmara afirma que “esta abordagem permite recuperar a memória do edifício que esteve na génese da actividade económica moageira, possibilitando acolher o centro interpretativo que fará a ligação à indústria da cortiça”.

Quando questionada sobre o porquê de o actual executivo, em Abril deste ano, ter decidido levantar um auto de suspensão para repensar o projecto de requalificação do moinho, que era iniciativa do anterior executivo, a câmara responde que a obra esteve parada apenas por razões ligadas à estabilidade da base em pedra, e “não para ponderação do projecto”.

Em relação à apresentação do projecto à população, a câmara diz que não pode “responder pelas razões que estiveram subjacentes à eventual não consulta pública aos cidadãos”, remetendo responsabilidades para o anterior executivo.

Outra das preocupações do grupo de cidadãos é a possível existência de materiais pertencentes ao moinho no lodo do rio, questionando como se fará a sua recuperação. O município considera que esse trabalho deve ser feito em parceria com a entidade que tem jurisdição na área — a Administração do Porto de Lisboa.

Estes moinhos eram os principais fabricantes do “biscoito” levado para as viagens de expansão marítima como forma de alimento. O moinho em questão laborou até meados do século XX como armazém para produtos que chegavam através de fragatas.

Texto editado por Ana Fernandes