We Bless This Mess no Waves Vienna

A música portuguesa exibiu desejo de mundo em Viena

Uma embaixada de agentes, músicos e bandas portuguesas, de Rodrigo Leão a Surma, estiveram no Waves Vienna da Áustria para convencerem os europeus: a música portuguesa vale mesmo a pena.

Um país com um panorama musical fervilhante, ao nível da qualidade artística, da capacidade de realização de festivais, com estruturas profissionalizadas e também com singularidades culturais pelo intercâmbio transatlântico: eis o Portugal da música popular dos nossos dias que foi apresentado há dias no Waves Vienna da Áustria.

O evento pertence a uma rede europeia de mais de uma centena de conferências-festivais (como o gigante Eurosonic holandês ou o Westway Lab de Guimarães) pensados para serem espaço de encontro entre profissionais e também montra para projectos emergentes e alguns já estabelecidos. Na edição deste ano, Portugal, ao lado da Estónia, foi o país em destaque, fazendo deslocar até Viena uma embaixada, coordenada pela estrutura Why Portugal, entre agentes, editores, produtores, comunicadores ou promotores, e também actuações ao vivo de Rodrigo Leão, Surma, :Papercutz, Holy Nothing, We Bless This Mess ou Noiserv.

No fim de contas tratou-se de replicar o modelo ensaiado em Janeiro de 2017 no Eurosonic da Holanda, embora a escala e ressonância sejam mais comedidas. Uma coisa parece certa: o caminho iniciado em 2016 pela Why Portugal, que se tem vindo a assumir como plataforma para a exportação da música portuguesa, parece correcto. Falta consolidar uma estratégia que passa por congregar esforços públicos e privados, saber comunicar o que nos identifica e, se existir esse entendimento, conciliar investimento com aquilo que deveria ser uma prioridade: a educação.

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Noiserv é cada vez mais uma presença assídua em eventos europeus semelhantes ao que ocorreu em Viena

Talento e capacidade organizativa há. Não somos apenas nós a dizê-lo. Franz Hergovich, do gabinete de exportação de música austríaca (Music Austria), diz-nos que o nível organizativo que encontrou em Portugal (no Westway Lab) e a qualidade média artística o impressionaram. “Percebe-se que Portugal está a passar por uma boa fase a esse nível”, afirma, para acrescentar de seguida que a exportação não deve ser encarada como excepção mas sim como a condição de qualquer projecto artístico na Europa de hoje. Não se trata de criar cenários artificiais, mas sim de potenciar o que existe. “Nos anos 1990 os Kruder & Dorfmeister, Sofa Surfers, Patrick Pulsinger ou Fennesz fizeram com que se falasse da Áustria, mas estávamos dependentes da Alemanha em termos estruturais. Os sucessos dos K&D, por exemplo, foram lançados pela alemã K7! Agora estamos mais profissionalizados”, diz, acrescentando que há vinte anos dizia-se que a música popular não merecia ser estimulada. Isso mudou.

“Os programas estatais só contemplavam a clássica, contemporânea ou jazz. O rock, pop ou electrónicas eram vistas como negócio, mas foi-se percebendo que a indústria se transformara, ao mesmo tempo que o valor cultural dessa música foi sendo enaltecido. Hoje temos fundos para apoiar na produção, digressões ou exportação. E prestamos também orientação gratuita, com advogados e não só, aos agentes do sector.”

O Waves Vienna decorreu numa espécie de centro cultural de arquitectura industrial, e em todo o seu perímetro, recebendo aí conferências, encontros e inúmeros concertos. Rodrigo Leão fez valer a sua experiência. We Bless This Mess, Noiserv e :Papercutz mostraram que já conseguem congregar atenção. E Surma, Grandfather’s House, Holy Nothing, Mister Teaser, The Miami Flu ou Vaarwell tiveram experiências diversas, algumas delas marcadas pelas condições sonoras imperfeitas. Mas neste tipo de eventos por vezes nem é isso que é crucial. Pode ser o contacto encetado que determina o sucesso ou não de toda a operação.

O que se percebe é que a curiosidade em relação a Portugal existe. Não é apenas a música. Sim, claro, existem perguntas sobre a cena afro-lisboeta pós-Buraka Som Sistema. Graceja-se com a vitória de Salvador Sobral na Eurovisão. Mas existe curiosidade com o momento de Lisboa, Porto ou Alentejo. E percebe-se que, depois da operação Eurosonic, a actuação da Why Portugal se consolidou. “Já conseguimos quantificar os resultados do ano passado”, revela Nuno Saraiva, “e o investimento feito pelos parceiros [AICEP, DGartes, Fundação GDA, Audiogest e AMEI], que rondou os 100 mil euros, foi largamente suplantado. O retorno, avaliado a partir dos questionários aos participantes no Eurosonic, atingiu os 900 mil euros. E quando fizermos nova avaliação – no final do ano – ultrapassaremos com facilidade o milhão de euros, porque os concertos, digressões, contratos de publishing, etc, em consequência dessa acção, tiveram impacto também este ano.”

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Imagem do espaço de características industriais onde se desenrolaram conferências, encontros e concertos durante o Waves Vienna

Entre os parceiros da Why Portugal, como a Fundação GDA, representada por Pedro Oliveira, o balanço é muito positivo: “Começa a haver resultados muito relevantes, os lucros começam a sentir-se, mas é preciso ter também paciência. Não se pode ter um mundo novo já àmanhã, mas é inegável que estamos no caminho certo”, reconhece, adiantando que a GDA tem vindo a apoiar as bandas que são convidadas – pelas organizações locais – a irem aos festivais. “Algumas delas depois não têm orçamento para as deslocações e é aí que temos vindo a ajudar”, revela.

Entre os projectos portugueses que têm vindo a beneficiar com este tipo de programas, Nuno Saraiva destaca nomes como We Bless This Mess, Noiserv, Throes + Shine, Surma ou :Papercutz. “Todos se têm vindo a destacar na circulação internacional dos dois últimos anos, não apenas no circuito da rede de festivais, mas alguns deles também já fora dele.” É o caso dos :Papercutz de Bruno Miguel, que se encontram em digressão europeia. “Neste momento existem programas europeus e não só – tivemos também o apoio do Shuttle da câmara do Porto para a internacionalização de artistas de várias áreas – que apostam na deslocalização e na troca.” Algo que produz resultados, “não só do ponto de vista comercial, mas também artístico”, reflecte, focando que proximamente se irá deslocar aos EUA para trabalhar com a cantora Vita que conheceu numa residência artística no Westway Lab de Guimarães.

A realidade comercial portuguesa é exígua. A procura de novos mercados não é de hoje. Ao longo dos anos, Amália, Madredeus, Mísia, Rodrigo Leão, Buraka Som Sistema, The Gift, Legendary Tigerman, Moonspell, Ana Moura, Mariza, Dead Combo, Batida, Príncipe DJs, entre muitos outros exemplos, têm encetado inúmeras iniciativas que os têm conduzido a muitas partes do mundo. A diferença é que nunca foram alvo de investimento estratégico. António Cunha, da produtora e gestora de carreiras Uguru, que acompanhou o transpor de fronteiras dos Madredeus, recorda as diferenças entre os anos 90 e a realidade actual.

“Não havia um organismo de apoio à exportação como o Why Portugal e o único suporte institucional que tivemos, quando Santana Lopes foi secretário de Estado da Cultura, foram 900 contos que investimos numas caixas bonitas, com disco e vídeo do grupo, que enviámos para o mundo inteiro, e que acabou por gerar retorno.” O que havia na altura – e hoje é residual – era o auxílio das editoras. “Pelo menos no caso dos Madredeus apoiaram-nos em diversas situações na gestão internacional da carreira”, lembra, dizendo que o interesse de eventos como o Waves Vienna é servir de montra, embora ressalve que é necessário seleccionar. “Agora existem muitos eventos similares, por isso é preciso escolher os que fazem sentido para o que se tem para oferecer. Quando se tem um bom produto e se consegue comunica-lo com eficácia é natural que os agentes internacionais se interessem. Os Madredeus acabaram por iniciar o seu percurso internacional numa mostra também – a Europália na Bélgica em 1991. Estavam lá uns promotores belgas, adoraram-nos e foi aí que se começou a desenrolar todo o percurso pelo mundo dos Madredeus.”

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Débora Umbelino, ou seja Surma, na sua actuação em Viena, antes de rumar, no dia seguinte até Linz

Foi na segunda metade da década de 1990 que começaram a proliferar os gabinetes de exportação de música na Europa. Há quase uma década, em Portugal, falou-se que poderia surgir um, mas não se efectivou. Há dois anos o Why Portugal foi para o terreno. Hoje é um parceiro credível da maior parte das redes europeias. E no início deste ano, de forma surpreendente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, comunicou que havia sido criada uma estrutura, a Portugal Maior, dirigida pelo músico João Gil, com encargos orçamentais a serem suportados por verbas (não quantificadas) do Instituto Camões, com o objectivo de “pôr em prática novos modos de ligação dos criadores e intérpretes que se exprimem em português, entre si e com os diversos públicos.” Nuno Saraiva não crê que exista sobreposição de actuação, mas sim complementaridade. “Somos um gabinete de exportação no âmbito da indústria, tal como o Bureau Export francês. O Portugal Maior tem outra missão: visa promover a música de expressão portuguesa através do Instituto Camões às comunidades portuguesas. É um projecto de promoção cultural.”

Seja lá o que for é mais um sinal de que em Portugal já se percebeu que é essencial planear, organizar e ter uma estratégia. Não se trata de operar milagres na exportação, mas de exceder uma realidade mercantil limitada e tentar competir com europeus em condições mínimas de igualdade.

O Ípsilon viajou a convite do Waves Vienna

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