Opinião

Ensino Superior e Investigação: há estratégia?

Será realmente um erro aumentar as vagas do Ensino Superior no Interior? Não!

A estratégia para o Ensino Superior e Investigação não se compadece com quem concorda com quê a cada momento, deve antes obedecer a uma estratégia nacional refletida, por oposição a uma estratégia pessoal ou institucional. Um país que tem uma estratégia nacional não pode, não deve, mudá-la ao som de quem mais grita. Qual a estratégia dos últimos anos?

1. Reforço do emprego científico. Abriu-se a possibilidade para que pessoas (há muito tempo no sistema), sem segurança de emprego, subsídio de férias, de Natal ou de desemprego, alterassem a sua situação. Saliente-se que, em cada instituição, as áreas científicas com mais bolseiros são as que têm maior produtividade e mais capacidade de atrair financiamento competitivo. Os concursos são para contratos a termo? São! Precisamente porque têm sido pagos por projetos; a avaliação ao fim de seis anos é da responsabilidade de cada instituição e deve ser exigente, assim como a abertura dos concursos o deve ser. Tudo o resto é ruído!

É difícil para os diretores dos centros de investigação, ou para os responsáveis dos órgãos científicos, serem muito exigentes com quem com eles tem trabalhado? Eventualmente! Mas é uma oportunidade para contratar os melhores, reforçar o corpo científico/docente e é uma medida socialmente justa!

A FCT assume, com estes concursos, com o apoio ao emprego institucional e ao emprego individual, grandes responsabilidades. Os valores a inscrever em OE, comunicados às IES foram, como sempre, os valores do OE da FCT que serão transferidos, não os que a FCT pagará através dos fundos europeus. Os investigadores, não abrangidos, continuarão a ser pagos, como até agora, por financiamento competitivo a que as instituições/centros de investigação têm, como até agora, de se candidatar!

Esta questão foi, por quem quis, totalmente esclarecida. Estamos num sufoco? Estamos, de subfinanciamento! Temos dúvidas? Sempre! Os reitores, o presidente da FCT, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e até o primeiro-ministro.

A situação do país, não nos iludamos, não está fácil, mas há questões de justiça social que não devem ser prolongadas indefinidamente. E é um esforço que temos que fazer e estamos a fazer!

É estratégia nacional: reforçar o emprego científico! E está certa!

2. Número de vagas do Ensino Superior. Será realmente um erro aumentar as vagas do Ensino Superior no Interior? Não!

O estudo feito (houve um estudo), base para a tomada de decisão, mostra o desequilíbrio dos últimos anos entre variação de vagas em Lisboa e Porto e alterações demográficas. Foi um erro! Estamos a pagar com uma desocupação de cerca de 2/3 do território nacional, que tende a aumentar!

É estratégia nacional ocupar o território, e não é, nem pode ser, centrada nos “filhos de CEO do PSI-20” que irão (ou não) estudar para o interior; é centrada nos futuros CEO que sairão de IES no interior (e saem!), ou que podem vir a levar empresas do PSI-20 (e outras) a fixar-se no interior (e acontece!). É esta a estratégia para o país; deve ser mantida e apoiada!

Uma mentira não se torna verdade se a repetirmos muitas vezes e uma estratégia só terá resultados se aplicada/avaliada de forma ponderada ao longo de anos! Não se altera uma decisão estratégica com base em dados anuais! Nenhum CEO de uma empresa do PSI-20 faria isto!

Todas as IES em Portugal estão sujeitas à avaliação institucional! Todos os cursos, em funcionamento, estão acreditados pela A3ES. Todas oferecem qualidade, com base em padrões internacionais.

A qualidade não se mede por rankings, por n.º de publicações, notas de licenciatura ou de entrada (muitas vezes pouco têm a ver com empregabilidade) e, muito menos, pela qualidade de uma Unidade Orgânica de uma universidade, em particular.

Qualidade é um todo, a relação aluno/professor, a vivência da cidade, a ligação entre diferentes classes sociais e culturas, a capacidade de aprender a “viver”, enfim... pelo que se ensina mas também, no final do dia, é tão complexo que não saberemos nunca quem é o melhor.

Uma coisa é certa: para mim, pesando tudo, a Universidade de Évora é a melhor! Não escamoteando que há subfinanciamento (para cumprir o “compromisso com a ciência", a proposta orçamental é muito curta!), é justo reconhecer que há uma estratégia que não é pessoal, nem institucional, mas sim nacional! E é inovadora, é arrojada e é corajosa!

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico