A razão pela qual Bordallo Pinheiro não entra em Serralves

O museu não tem de apresentar nem defender qualquer tipo de código de bons costumes. Deve abster-se de posições moralistas sobre "a pureza e a sujidade".

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Nelson Garrido

A decisão foi manifestamente censuradora e a reacção pública foi um misto de espanto e revolta. A efeméride assim o determinou. A administração do Museu de Serralves decidiu retirar um conjunto de obras do artista norte-americano Robert Mapplethorpe pelo seu teor explicitamente pornográfico. Não augura nada de bom.

O juízo de valor que a administração de Serralves decidiu fazer às obras do artista que a própria instituição decidiu acolher entre as suas quatro paredes não revelam apenas um laivo autoritário. Por trás dessa decisão, premeditada, permanece a ideia de que os códigos, os valores, os símbolos que atribuímos a uma obra de arte devem continuar a ser uma produção do museu enquanto instituição que conserva valores, como escreveram Pierre Bordieu e Alain Darbel em O Amor Pela Arte: os Museus de Arte na Europa e o seu Público:

“O museu fornece a todos, como se tratasse de uma herança pública, os monumentos de um esplendor passado, instrumentos da glorificação suntuária dos grandes de outrora: liberalidade factícia, já que a entrada franca é também entrada facultativa, reservada àqueles que, dotados da faculdade de se apropriarem das obras, têm o privilégio de usar dessa liberdade e que, por conseguinte, se encontram legitimados em seu privilégio, ou seja, na propriedade dos meios de se apropriarem dos bens culturais ou, para falar como Max Weber, no monopólio da manipulação dos bens de cultura e dos signos institucionais da salvação cultural.”

Tal como muitos dos museus históricos produzem narrativas que favorecem as elites, os museus de arte/centros de arte contemporânea não constituem uma excepção a essa regra. Apesar da sua apresentação ao exterior como vanguardistas, não deixaram de ser reprodutores do status quo de uma elite (ou elites). Por isso é que a democratização cultural não passa somente por abrir as portas do museu a públicos plurais. O museu como instituição conservadora (que ainda é) também precisa de se democratizar — até para cumprir o seu papel de acesso à fruição cultural. Um desses passos é desistir da ideia de que é da sua responsabilidade limitar liberdades, nomeadamente, as que dizem respeito ao acesso e fruição culturais.

Num período histórico como o que vivemos hoje, com a ascensão dos discursos protofascistas e ultraconservadores, se não são instituições culturais como Serralves a encabeçar esse confronto em nome da Liberdade, quem o fará?

O museu não tem de apresentar nem defender qualquer tipo de código de bons costumes. Deve abster-se de posições moralistas sobre "a pureza e a sujidade", nomeadamente sobre a obra artística, objecto de trabalho por excelência. Isto não significa que deva utilizar a máscara da neutralidade, ao invés, é de todo positivo que se apresente aos cidadãos com uma praxis de compromisso activista. Se existem patrimónios a serem defendidos, talvez o da liberdade artística deva merecer mais atenção.

Esta é a razão pela qual Bordallo Pinheiro não entra em Serralves. Os seus pornográficos falos cerâmicos constituem um pedaço do nosso património artístico. Mas precisamos de saber se a administração de Serralves permitiria que continuassem a sê-lo.

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