Editorial

Brasil, uma semana para pensar a democracia

O Brasil abriu uma caixa de Pandora e vê-se forçado a escolher hoje entre o mau e o horrível. Fica a lição.

O cenário das eleições presidenciais brasileiras do próximo fim-de-semana faz parte da lista dos acontecimentos impossíveis de todos os que tentaram adivinhar o futuro nos (apesar de tudo e da destituição de Collor de Mello) esperançosos anos de 1990. Quando os dois candidatos que lideram as sondagens representam: um, o passado traumático, e, outro, o futuro baseado na intimidação e na violência, é difícil falar num novo ciclo e na possibilidade de o gigante de língua portuguesa renascer dos seus desencantos. Fernando Haddad e Jair Bolsonaro representam mais um ajuste de contas com o passado do que qualquer projecto capaz de resgatar o Brasil dos seus dilemas. Mas representam também uma oportunidade única para se analisarem as fragilidades da democracia. E para se aprender com elas.

O Brasil que vai eleger Bolsonaro e Haddad para a segunda volta das eleições é o reflexo da corrupção e de uma desesperada estratégia de subversão da democracia para a combater. Quando os brasileiros reelegeram Dilma Rousseff em 2014, já a operação Lava-Jato, uma colossal colecção de actos de corrupção em torno da estatal Petrobras, estava em curso. Para agravar o cenário, a economia afundava-se e as classes médias perceberam que o PT no poder era incapaz de responder aos seus anseios e aos dilemas do país. Perdida a possibilidade de mudar a ordem das coisas nas urnas, a maioria dos membros do Congresso associada à imprensa e à pressão da população urbana das grandes cidades destituiu Dilma com facilidade — bastou procurar um delito menor, as “pedaladas fiscais”, para o conseguir.

A ferida aberta no consenso democrático com essa manobra jamais curou e permanece aberta com o drama da escolha entre Bolsonaro e Haddad. Um e outro representam o extremo da fractura social e política do Brasil. Ganhe quem ganhar, nenhum terá a protecção do consenso nem do compromisso: terá de sobreviver ao ódio e ao ressentimento. Ao libertar o fantasma do golpe, mesmo que um golpe com cobertura constitucional, o Brasil abriu uma caixa de Pandora e vê-se forçado a escolher hoje entre o mau e o horrível. Fica a lição. A democracia fundada na soberania popular ainda é o melhor meio de solucionar os problemas. Mesmo num país devastado pela corrupção e pela incompetência.