Algarve tem 75 áreas empresariais, incluindo stands de automóveis e lojas de chineses

A pedreira do Escarpão - um baldio em Albufeira, com 356 hectares - é também considerada uma Área de Acolhimento Empresarial

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A Estrada Nacional (EN) 125 funciona como se fosse uma montra da oferta dos espaços empresariais Vasco Celio ( colaborador)

A região algarvia tem registadas 75 Áreas de Acolhimento Empresarial (AAE) mas só três quartos é que têm condições, em termos de avaliação qualitativa. A Comunidade Intermunicipal do Algarve — Amal apresentou ontem um estudo que dá a conhecer os “factores críticos” para atrair investimento. O desordenamento e falta de profissionalização estão na base do conjunto dos constrangimentos de uma região amarrada ao conhecido modelo turístico — virado para o mar e a olhar para os interesses de curto e médio prazo.

A Estrada Nacional (EN) 125 funciona como se fosse uma montra da oferta dos espaços empresariais, instalados numa fila quase contínua nas bermas desta via. Desde os stands de venda de automóveis aos armazéns das lojas de venda de material chinês, passando pelos ginásios ou empresas de animação, instalados nos antigos loteamentos industriais, tudo isto entra no Plano Regional de Ordenamento do Território — PROT/Algarve como se fossem zonas de acolhimento empresarial. No total, são mais de mil hectares de áreas empresariais, distribuídas pelos 16 concelhos.

“Cada município interpreta à sua maneira as orientações do PROT/Algarve”, observa Oliveira das Neves, coordenador do estudo que faz o ponto da situação do ordenamento territorial, sistematizando e analisando vários documentos, vindos desde a década de 1980. O caso mais insólito das AAE é a pedreira do Escarpão, com 356 hectares. No Plano Director Municipal (PDM) de Albufeira, este terreno de baldio a exigir requalificação surge como sendo uma zona empresarial.

A criação de zonas empresariais foi orientada por interesses autárquicos conjunturais, sem que tivesse existido uma matriz regional. Por isso, o PROT/Algarve, publicado em 1991, já referia a necessidade de um “reequilíbrio territorial” tendo em conta o espaço urbano e a oferta de áreas para instalações empresariais. Mudou a lei, mas as práticas continuaram. O Centro de Empresas e de Serviços de Vilamoura, com 17,14 hectares, é um dos exemplos da manta de retalhas do (des)ordenamento da região. Neste espaço estão instaladas 79 empresas, com diversas funções. Desde lavandarias a oficinas de automóveis e ginásio, encontra-se de tudo um pouco. A câmara de Loulé anunciou, recentemente, que vai investir 1,5 milhões de euros na requalificação da zona.

Do conjunto das 75 áreas empresariais existentes no Algarve, o estudo focou-se apenas em 34 zonas tendo em vista a necessidade de reequacionar a estratégia de desenvolvimento inserida no próximo quadro de fundos comunitários (Portugal 2020). As câmaras, em resposta às dinâmicas económicas, criaram gabinetes de apoio empresarial, mas a informação sobre o que se passa em cada concelho não é divulgada. A actualização da informação “chega num registo semiclandestino”, queixou-se Alexandre Domingues, da Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional (CCDR), na apresentação pública do estudo, encomendado pela Amal. O responsável pela plataforma “Algarve Acolhe” lamentou a opacidade nos circuitos de comunicação entre as empresas e as entidades públicas. “Falta uma visão supramunicipal”, observou Carolina Travassos, do IAPMEI, referindo-se à proliferação dos espaços ditos empresariais que não passam de armazéns desqualificados.

A acessibilidade proporcionada pela EN 125, na década de 80, transformou esta via longitudinal num quase contínuo de casas comerciais, o que tornou a mobilidade caótica nos dias de hoje. No entanto, Oliveira das Neves salienta que, nalgumas áreas, foi feito “um bom esforço de agregação” empresarial, procurando reorganizar o espaço. Como exemplo positivo apontou a Área Industrial, Comercial e de Serviços de Loulé, onde estão instaladas 124 empresas, num espaço de 56,18 hectares, junto à Via do Infante. No sector das pescas, acrescentou, Olhão e Vila Real de Stº António são considerados casos “interessantes do ponto de vista de dinamismo económico, de ordenamento e qualificação ambiental”.