Nobel da Física para uma mulher pela primeira vez em 55 anos

Distinguidos trabalhos de três cientistas sobre física dos lasers. As aplicações das tecnologias dos lasers agora premiadas passam por ajudar a desvendar os mistérios de vírus e células e pelo uso em cirurgias oftalmológicas.

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Arthur Ashkin vai dividir o prémio com a dupla formada por Gérard Mourou e Donna Strickland DR
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Gérard Mourou Jérémy Barande/Escola Politécnica
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Donna Strickland Universidade de Waterloo

O Prémio Nobel da Física de 2018 vai para três investigadores sobre os seus trabalhos na física dos lasers – anunciou esta terça-feira de manhã a Real Academia Sueca das Ciências em Estocolmo. Metade do prémio, no valor monetário de nove milhões de coroas suecas, ou 866 mil euros, vai para o norte-americano Arthur Ashkin e a outra metade para o francês Gérard Mourou e a canadiana Donna Strickland. No anúncio, o comité resumiu que o prémio vai para “as ferramentas feitas de luz” ou, na justificação mais formal, para “invenções revolucionárias no campo da física dos lasers”. 

Até agora, em toda a história dos Prémios Nobel, criados em 1901, apenas duas mulheres tinham recebido o Nobel da Física: Marie Curie em 1903 (também distinguida com o Nobel da Química em 1911) e Maria Goeppert-Mayer em 1963. Portanto, há 55 anos que uma mulher não fazia parte do rol de laureados desta prestigiada distinção. Donna Strickland junta-se agora a este clube muitíssimo restrito.

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Donna Strickland na sua casa em Waterloo (Canadá) esta terça-feira Peter Power/Reuters

Arthur Ashkin, dos Laboratórios Bell (em Holmdel, nos EUA), desenvolveu uma técnica de laser descrita como “pinças ópticas”, que é usada para estudar sistemas biológicos e para controlar minúsculos organismos vivos. Já Gérard Mourou, da Escola Politécnica (em Palaiseau, França) e da Universidade do Michigan (EUA), e Donna Strickland, da Universidade de Waterloo (Canadá), desenvolveram novas formas de produzir impulsos de laser de alta intensidade e muito curtos a partir de uma técnica que inventaram chamada chirped pulse amplification (CPA), que em português poderá designar-se como “amplificação de impulsos com dispersão temporal”, ou ainda “amplificação de impulsos com trinado”.

Os avanços dos três laureados ocorreram nos anos 80. Nascido em 1922 em Nova Iorque, Arthur Ashkin inventou as tais pinças ópticas, utilizando luz laser para movimentar pequenas partículas para o centro do feixe de luz e mantê-las aí, explica-se num comunicado da Real Academia Sueca das Ciências – ou seja, utilizando a pressão de um feixe de luz poderiam empurrar-se objectos microscópicos e aprisioná-los numa certa posição. Conseguia assim tornar realidade o que a ficção científica já tinha inventado há muito, acrescenta o comunicado: fazer mexer objectos físicos usando a luz.

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Arthur Ashkin na sua casa em Rumson (New Jersey, EUA) esta terça-feira Brendan McDermid/Reuters

As pinças ópticas são capazes de apanhar partículas, átomos, vírus e células vivas. Foi em 1987 que Arthur Ashkin conseguiu um grande avanço científico, ao utilizar as pinças ópticas para capturar bactérias vivas sem que elas ficassem danificadas, como explica o comunicado: “Começou imediatamente a estudar sistemas biológicos e as pinças ópticas são agora largamente utilizadas para investigar a maquinaria da vida.” Pela invenção das “pinças ópticas e a sua aplicação aos sistemas biológicos”, como justifica o comité do Nobel, metade do prémio vai para Arthur Ashkin.

Um primeiro artigo valioso

Quanto a Gérard Mourou e Donna Strickland, trabalharam juntos, tendo lançado as bases para o desenvolvimento dos lasers de menor duração e mais intensos alguma vez criados pela humanidade. Na verdade, Mourou (nascido em 1944 em Albertville) foi o orientador da tese de doutoramento de Donna Strickland (nascida em 1959 em Guelph), como ela destacou na conversa telefónica durante a cerimónia de anúncio do Nobel deste ano. “Gérard foi o meu mentor. Ele fez tantas descobertas anteriores. É fantástico.”

O artigo científico considerado revolucionário de Donna Strickland foi publicado em 1985, vindo a ser o cerne da sua tese de doutoramento. Publicado na revista Optics Communications, Gérard Mourou era o outro autor, ambos então na Universidade de Rochester, nos Estados Unidos. Incrível ainda nesta história científica é que esse artigo científico foi o primeiro que Donna Strickland publicou na vida e que, ao fim de 33 anos, viria a dar-lhe visibilidade mediática mundial com a atribuição do Nobel.

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Gérard Mourou esta terça-feira numa conferência de imprensa na Escola Politécnica em Palaiseau, perto de Paris Charles Platiau/Reuters

A técnica de CPA consiste na criação de impulsos de laser de duração ultracurta e grande intensidade sem que o material óptico sofra danos. Primeiro, usa-se um impulso de laser de curta duração, depois aumenta-se a sua duração, a seguir esse impulso alargado temporalmente é amplificado e, por fim, é comprimido para uma duração próxima da original. “Se um impulso é comprimido temporalmente e fica com menor duração, então mais luz é empacotada no mesmo espaço minúsculo – a intensidade do impulso aumenta de forma drástica”, nota o comunicado.

A técnica CPA é hoje utilizada, por exemplo, de forma rotineira por todo o mundo em cirurgias oftalmológicas que utilizam lasers.

Na conversa telefónica de Donna Strickland para a Real Academia Sueca das Ciências, onde os jornalistas presentes puderam fazer-lhe algumas perguntas, pediram-lhe um comentário ao facto de ser a terceira mulher desde sempre a receber o Nobel da Física. “Pensei que haveria mais”, começou por responder. “Tenho a honra de ser uma dessas mulheres.” Mais tarde, a falar com Adam Smith, do site do Nobel, disse ainda: “Nunca olhei para estes prémios a perguntar-me por que não havia mulheres. As coisas estão a mudar e vão mudar mais ainda.”

E quando recebeu o tradicional telefonema da academia sueca, pouco tempo antes do anúncio ao mundo do nome dos três premiados, para lhe comunicar a grande novidade? “Pensei que era uma loucura e se seria real”, respondeu. “Primeiro, pensei que podia ser uma partida, mas como era o dia do Nobel seria uma partida cruel”, diria depois a Adam Smith, que também quis saber se ela estaria preparada para ser muito requisitada agora com o prémio Nobel. “Tenho muito medo disso. Há pouco tempo estava a falar com uma pessoa que ganhou um Nobel e ela disse-me que tinha viajado 100 mil quilómetros num ano. Tenho medo disso. Ainda por cima, os cientistas nem sequer podem viajar em primeira classe”, ironizou.

A Göran K. Hansson, secretário-geral da academia sueca, os jornalistas perguntaram ainda se tinha uma ideia da percentagem de mulheres nomeadas para o Nobel da Física (os nomes dos nomeados não são revelados). “Não tenho as estatísticas. Mas é uma percentagem pequena. Por isso, tomámos medidas para encorajar mais nomeações. Não queremos deixar de fora ninguém.” Olga Botner, do comité do Nobel da Física e especialista na área de investigação agora distinguida, acrescentou que o número de nomeadas tem aumentado e que isso reflecte o trabalho que iniciaram há cerca de 30 anos.

Em relação a este assunto, Göran K. Hansson quis deixar claro que o que está em questão não é o facto de os premiados serem homens ou mulheres. “O importante é que o Prémio Nobel é por descobertas e invenções. Aqueles que o receberam fizeram grandes contribuições para a humanidade.” Ainda assim, as estatísticas da história do Nobel da Física mostram que, até agora, só Marie Curie, Maria Goeppert-Mayer e Donna Strickland foram reconhecidas pelos seus feitos em prol da humanidade.

O laureado mais velho

Göran K. Hansson conseguiu contactar os três premiados antes do anúncio. “O dr. Ashkin não podia dar entrevistas porque estava muito ocupado com um artigo científico”, começou por dizer. E na sala ouviram-se risos. Talvez haja uma justificação para usar muito bem o seu tempo. Com 96 anos, Arthur Ashkin é, a partir de agora, o mais velho laureado com o Nobel.

Mas, depois, acabou por dar uma pequena entrevista para o site do Nobel, tendo-lhe sido perguntado se ainda trabalha em casa. “Sim, estou a fazer um artigo que espero que seja aceite para publicação”, referiu, denotando a sua modéstia. Sobre as pinças ópticas, disse ainda: “Previ que seria uma coisa muito importante, com muitas aplicações. Porém, a luz era algo que supostamente devia matar os tecidos. Foi uma grande surpresa ver que era usada para curar e tratar.” E pretende ir a Estocolmo em Dezembro, à cerimónia de entrega do prémio? “Se puder. Estou a escrever um artigo. Acho que tenho aqui uma coisa importante sobre energia solar. E o mundo precisa de alguma coisa para as alterações climáticas.”