Torne-se perito

Temperaturas altas estão a afectar a qualidade do ar e da água

Os valores que indicam os níveis de qualidade do ar não estão em níveis tão alarmantes como aqueles registados em Agosto. Mesmo assim, podem ser prejudiciais à saúde humana, dos animais e plantas. Até a qualidade da água sofre com o calor.

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rita rodrigues

Níveis de ozono acima do desejável, poeiras no ar e pouco oxigénio na água são alguns dos danos que as temperaturas fora do normal para a época estão causar, diz Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero. Setembro de 2018 foi "muito provavelmente" o mês mais quente desde 1931, segundo informação disponibilizado ao PÚBLICO pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Ao PÚBLICO, o especialista da Zero explica que “apesar não haver uma ultrapassagem dos limiares que exigem informação ou alerta à população, há concentrações elevadas de ozono no ar”. Na quinta-feira, nas horas de mais calor, os níveis de ozono respirável correspondiam a 120 microgramas por metro cúbico (µg/m3) — em Agosto, nos dias mais quentes, esse valor chegou aos 240 µg/m3. “São números bastante elevados para a época do ano.”

O impacto do ozono na saúde humana verifica-se quando há uma concentração de ozono que ultrapassa precisamente os 240 microgramas por metro cúbico. A vegetação também dá sinais do excesso de ozono, mas só quando a situação se prolonga no tempo. O resultado na agricultura pode ser de perda de produtividade.

Mas não é só o ozono que está a comprometer a qualidade do ar. O vento quente e o calor têm trazido partículas do Norte de África, aponta o especialista. Também não são valores como os que se registaram nos primeiros dias de Agosto, mas estão presentes em concentrações “elevadas”.

Na maioria dos dias de Setembro, a concentração de oxigénio dissolvido no Rio Tejo, na zona da estação de Perais, próxima de Vila Velha de Ródão, era inferior a três miligramas por litro (mg/l) — idealmente, os níveis não devem baixar das 5 mg/l). Isto significa que há oportunidade para se desenvolverem algas. “Quanto mais quente a água, menor a quantidade de oxigénio que consegue reter” e dá-se um boom de algas, explica Francisco Ferreira. “A temperatura da água até foi mais quente na segunda quinzena.”

A juntar a tudo isto, a falta de chuva “também é prejudicial”. Há “muitos bivalves e peixes em pequenas ribeiras que podem não conseguir sobreviver”. Este tempo “prejudica muito a fauna de água doce”.

Pelo menos até domingo, esteve activo o Plano de Contingência de Verão e Saúde. O PÚBLICO contactou a Direcção-Geral da Saúde (DGS), que afirma que o seu prolongamento deve ser avaliado por “cada uma das Administrações Regionais de Saúde de acordo com a evolução das condições meteorológicas”.

Em Agosto, nos dias mais quentes, as estimativas da DGS apontavam para mais 500 mortes do que o considerado normal para o mesmo período. Ainda assim, não é possível ter a certeza que o fenómeno foi um resultado directo do calor sentido durante esse período. Dados da plataforma de vigilância electrónica de mortalidade em tempo real (SICO/EVM), consultados às 20h de 28 de Setembro, mostram valores para o mês semelhantes aos registados nos mesmos períodos de anos passados.

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