O Setembro mais quente de sempre? Foi este ano

Dados provisórios do IPMA mostram que não havia um Setembro tão quente desde que há registos. E que “muito provavelmente” nunca houve outro assim.

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Miguel Manso

“Extremamente quente e seco.” É assim que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) define este Setembro. Com recurso aos dados até dia 27, o instituto prevê que este será, “muito provavelmente”, o Setembro mais quente desde que há registos, com uma temperatura média de 23,1ºC. Deste universo que vai até 1931, o Setembro de 1985 é o segundo mais quente, com uma média de 22,89ºC.

“À partida deverá ser [o Setembro mais quente] porque a diferença para o que vem a seguir, que foi em 1985, ainda é razoável”, explicou Vanda Pires, meteorologista da divisão de clima e alterações climáticas do IPMA, sobre os dados fornecidos ao PÚBLICO a 28 de Setembro. A especialista em clima só não é taxativa na afirmação porque quando falou ao PÚBLICO, na sexta-feira à tarde, ainda faltavam dois dias para o mês acabar — sábado e domingo, dias em que as temperaturas máximas acabaram por rondar os 30 graus em grande parte do continente. Dias de Verão.

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Não é anormal ter-se dias quentes em Setembro, o que é pouco comum é que sejam tantos e tão constantes. As temperaturas (médias, máximas e mínimas) estiveram quase sempre acima dos valores médios de 1971 a 2000 (a partir dos quais o IPMA avalia o quão distante um determinado período está daquilo que se considera ser normal).

O mês que passou, entre 1 e 27 de Setembro, “caracterizou-se por valores médios da temperatura do ar muito altos e muito superiores aos respectivos valores normais”. Especial destaque por parte do IPMA merece a “anomalia” da temperatura máxima: 4ºC acima do que é considerado normal. Os valores da temperatura média foram 2,8ºC superiores ao esperado para esta altura do ano e a mínima ficou 1,6ºC acima.

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O primeiro dia do mês de Setembro foi o mais quente. A temperatura máxima chegou aos 36ºC, a média aos 27,2ºC e a mínima aos 18,3ºC. Nesse dia, em cinco estações meteorológicas em Coimbra, Figueira da Foz e Porto, os máximos históricos foram ultrapassados. Os maiores valores da temperatura máxima registaram-se também nesse dia na Lousã (41,6ºC), Mora (41,5ºC), Alvega (41,4ºC), Tomar (41,3ºC), Coimbra (40,8ºC), Fonte Boa/Santarém (40,4ºC), Avis (40,2ºC) e Reguengos (40ºC). Em Pinhão (40,4ºC) e Coruche (40,5ºC), os máximos foram atingidos no dia 2 e 24, respectivamente.

Durante o mês, o IPMA registou duas ondas de calor — pelo menos seis dias consecutivos com uma temperatura máxima diária superior a 5ºC ao valor médio do período de referência. Uma, que foi de 10 a 17 de Setembro, e afectou as regiões de Trás-os-Montes, Viseu e Santarém, e outra, de 19 a 27, que só não abrangeu as regiões costeiras acima do Cabo da Roca e Algarve e o Nordeste Transmontano.

Em relação à precipitação, foi um mês “extremamente seco”. A 27 de Setembro, “verificou-se um aumento da área em seca meteorológica em todo o território” — 91.6% estava em seca fraca e 6,8% em seca moderada.

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A responsabilidade do fenómeno pode ser imputada ao anticiclone dos Açores que está posicionado de uma forma que está a “bloquear as massas de ar mais frias e as depressões que trazem alguma precipitação e descida da temperatura”, explicou Vanda Pires.

Nesta altura do ano, “é normal já termos um ou outro dia com valores um pouco mais baixos e alguma precipitação. Sobretudo à medida que nos aproximamos do final de Setembro temos cada vez uma maior frequência desses dias”. Mesmo assim, Vanda Pires desdramatiza. “No ano passado, tivemos valores de temperatura muito altas até final de Outubro. Até foi dos anos mais quentes.”

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Verão tardio, mas escaldante

O começo do Verão não fazia adivinhar condições excepcionalmente agradáveis para idas à praia e banhos de mar e de sol. Apesar de o IPMA assinalar uma onda de calor entre 15 e 25 de Junho, em alguns locais do Norte e Centro, este foi o segundo Junho mais chuvoso desde 2000. O IPMA considera que os meses de Verão são Junho, Julho e Agosto.

Depois, em Julho, o mais frio desde 2000, voltaram a bater-se recordes. Para Vanda Pires, do IPMA, esse até foi o “mês mais atípico”, por causa das temperaturas mais baixas. Em nenhum local se verificaram temperaturas superiores a 40ºC, quando, por essa altura, “já é normal que isso aconteça em algumas zonas, sobretudo do Alentejo”.

No mês seguinte, em Agosto, a situação mudou (talvez mais do que o desejado) e foram ultrapassadas temperaturas máximas históricas em vários locais. Foi o segundo Agosto mais quente em 88 anos — a temperatura média do ar foi 2,35ºC superior ao normal.

Graças a uma massa de ar quente e seco vinda de leste, a primeira semana de Agosto (entre os dias 1 e 6) foi “excepcionalmente quente”, relembrava o IPMA no boletim relativo a esse mês. Foram registados valores de temperatura média do ar superiores a 30ºC, máximas de mais de 40ºC e as mínimas quase não baixaram dos 20ºC. O dia 4 de Agosto foi mesmo o mais quente do século XXI. E mais: dos cinco dias mais quentes do século, quatro registaram-se neste mês.

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O fenómeno foi generalizado a todo o território continental. Tanto que “foram excedidos os extremos absolutos da temperatura máxima em mais de 40% das estações e em cerca de 25% das estações foram ultrapassados (ou igualados) os maiores valores da temperatura mínima”, lê-se no relatório do IPMA.

As disparidades destes meses são perceptíveis ao olhar para os desvios da temperatura e precipitação em relação aos valores do período entre 1971 e 2000. Quanto à temperatura, Julho ficou 1,5ºC abaixo do Normal, já Agosto posicionou-se 3,6ºC acima. No que diz respeito à precipitação, em Junho, o mês mais díspar, choveram cerca de 15 milímetros a mais do que seria esperado.

Apesar do cenário, o Verão de 2018 foi, em média, considerado normal. Ou seja, quando se somam as temperaturas e precipitação registada e se divide pelo total de dias, o ano posiciona-se em valores muito “próximos do normal”.

Fora do comum foram 2005, 2016 e 2017, por terem sido os mais quentes e secos. Do lado oposto, destacam-se 1971 e 1988 por causa do frio e da chuva registados nesses Verões.

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