O crepúsculo de Abbas

A incerteza quanto à próxima liderança palestiniana ocorre quando Israel assume uma política cada vez mais dura e os EUA a apoiam. Certo é que os palestinianos estão agora pior do que quando o líder sucedeu a Arafat.

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Na Cisjordânia, celebrou-se o discurso de Abbas na ONU ,Na Cisjordânia, celebrou-se o discurso de Abbas na ONU Reuters,Reuters
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Protesto contra Abbas na Faixa de Gaza depois do discurso na ONU Reuters

Quando Mahmoud Abbas, o líder palestiniano de 82 anos, foi submetido a uma intervenção cirúrgica ao ouvido, em Maio, não tardaram a surgir piadas vindas de palestinianos. “É para Israel lhe implantar um auricular para lhe dar directamente as instruções”, dizia-se nas redes sociais.

Abbas é alvo de troça dos seus compatriotas pela articulação das suas forças (na Cisjordânia) e as israelitas; apesar de tudo, os grupos armados palestinianos ligados à Fatah activos na segunda Intifada (revolta) desistiram de ataques e da ideia da luta armada como caminho para a instauração de um Estado palestiniano.

Mas também tem sido alvo da ira dos políticos israelitas. Muitos vêem como “imperdoável” que Abbas “se atreva a confrontar Israel na frente diplomática”, diz o jornalista israelita Ben Caspit.

Foi precisamente isso que fez, em visitas à Irlanda e França antes de aterrar em Nova Iorque para apresentar à Assembleia-geral da ONU um plano de paz alternativo ao anunciado “acordo do século” prometido pelo Presidente norte-americano, Donald Trump. Este acordo provoca mais temor do que entusiasmo entre os palestinianos – há rumores de propostas de integração da Cisjordânia numa federação com a Jordânia, por exemplo, ou a recusa à partida de direitos, como os dos refugiados palestinianos.

O declínio de Abbas acontece quando os palestinianos acumulam perdas. Algumas são pesadas, fruto de decisões dos Estados Unidos, como o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, sem qualquer menção à pretensão palestiniana à parte oriental da cidade para capital de um futuro Estado; o corte no financiamento da agência da ONU para os refugiados palestinianos (UNRWA), ou a saída da representação diplomática palestiniana em Washington.

Outras são fruto da menor importância do conflito israelo-palestiniano entre os problemas da região. Em Israel, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, eleito após prometer que não permitiria um Estado palestiniano, virou a sua atenção (e preocupação) para o Irão. E na Faixa de Gaza, o isolamento e as condições draconianas impostas ao território — quer por Israel quer pela Fatah, facção de Abbas — não conseguiram ditar o fim do grupo islamista Hamas mas, em vez disso, apenas provocar o desespero de quase dois milhões de palestinianos.

Quando é claro que a era Abbas está a terminar, não é claro quem lhe poderá suceder — o sistema irá ditar que seja um burocrata que perpetue o ciclo?; um perito em economia para que o crescimento compense a falta de um Estado?; ou alguém com ideias diferentes? E assim sendo, não é clara que direcção seguirá a estratégia palestiniana.

O menos popular

Mahmoud Abbas foi escolhido por Yasser Arafat para seu número dois precisamente pela sua impopularidade, porque era claro que não seria nunca alguém que o desafiasse. Depois de ter sido brevemente primeiro-ministro de Arafat, este afastou-o por causa das reformas que Abbas pretendia fazer na Autoridade Palestiniana, dando a Israel e EUA a ideia de que poderia ser um reformador.

Depois da morte do histórico líder palestiniano, conseguiu ser eleito presidente em 2005 com o beneplácito dos grupos armados da Fatah que levaram a cabo a segunda Intifada (revolta entre 2000 e 2005 marcada por atentados suicidas), numa plataforma de defesa, precisamente, do fim da luta armada.

A imagem de reformador do tempo em que foi primeiro-ministro, e o facto de ser visto como um defensor de meios pacíficos e não da luta armada, como Arafat, deixou-o com uma janela de optimismo. Parecia que o processo de paz com Israel poderia avançar, Abbas tinha já sido uma figura importante nas negociações dos Acordos de Oslo e esta poderia ser a sua hipótese de continuar o trabalho.

No plano interno, no entanto, os palestinianos estavam fartos de ver o seu governo marcado por compadrio e corrupção, e a sua situação a manter-se ou piorar.

Abbas foi ultrapassado pelas eleições legislativas de 2006, vencidas pelo movimento islamista Hamas. Seguiu-se uma tentativa de governo de unidade Fatah-Hamas, e com o seu fracasso, uma luta entre as duas facções que terminou com a divisão dos dois territórios entre a sua Fatah, na Cisjordânia, e o Hamas, na Faixa de Gaza (de onde o então primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, tinha retirado unilateralmente pouco antes). Esta divisão entre os dois territórios dominou o seu mandato, e várias tentativas de a resolver falharam sempre, esbarrando na questão do desarmamento do Hamas na Faixa de Gaza.

Eleito para quatro anos

Na impossibilidade de se organizarem eleições em todo o território, Abbas é agora um líder eleito para um mandato de quatro anos que está no poder há treze. Numa sondagem recente, 62% dos palestinianos queriam que se demitisse.

No plano internacional é ainda suspeito de desvalorizar o Holocausto, tanto na sua tese de doutoramento que fez em Moscovo sobre “a relação secreta entre o nazismo e o sionismo”, tanto com a sua afirmação de que os judeus foram perseguidos não pela sua religião mas sim pela sua “função social relacionada com os bancos e juros”.

Independentemente disso, a era Abbas que começou numa promessa de viragem, tem na sua sucessão uma incógnita. Há quem tenha esperança de que o “sistema” palestiniano (os diversos organismos que dividem competências) possa sobreviver à partida de Abbas: quando esteve hospitalizado, tudo decorreu normalmente. Mas nada garante que assim continue quando desaparecer mesmo.

Esta incógnita não está, no entanto, a provocar grande inquietação entre os políticos israelitas.

O jornalista Ben Caspit conta que perguntou a cinco ministros israelitas quem pensavam que poderia suceder a Abbas e quais as consequências da mudança. E “nem um tinha uma avaliação bem-pensada.” Ou seja, “que se saiba, o Governo israelita não teve nenhuma discussão séria sobre quem será o próximo parceiro para a paz”, critica o jornalista. “Talvez porque a maioria dos ministros não estão interessados num parceiro destes.”