Crítica

Ser bruto é uma arte

Ao segundo disco os Idles mostram-nos que ser bruto é uma arte.

Foto
Quando o disco chega ao fim, já tivemos punk, rockabilly e soul-blues — o que nunca acaba é a imensa e brilhante fúria dos Idles

Estamos em Television, a oitava canção de Joy As An Act of Resistance, quando por entre ondas sucessivas de graves (do bombo, do baixo) uma guitarra desata a estrebuchar, aguda e punjente — por sua vez, Joe Talbot, vocalista e letrista, desata a berrar “Love yourself, love yourself”, talvez a mais inesperada das frases passíveis de serem gritadas em tal cenário sónico, antes de descrever a sua alegria em ir para a rua e partir montras; na frase seguinte deseja que esse conceito chamado televisão procrie consigo mesmo.

Se até aqui ainda colocávamos a hipótese de tudo no segundo álbum dos Idles ser acerca de uma descarga infernal de porrada eléctrica, nesse momento torna-se claro que existe arte na brutalidade, que produzir tamanha enxurrada implica uma encenação que crie as condições ideias para que cada riff nos queixos do ouvinte tenha o impacto desejado — aquela guitarra não desata a estrebuchar nos agudos naquele instante por mero acaso; Joe Talbot não grita “Love yourself” por mero acaso. Os Idles, ocorre-nos nesse instante, não são apenas brutos que aprenderam três acordes — os Idles são a resistência.

Talvez a melhor imagem para descrever Joy As An Act of Resistance seja a de um boxeur, dotado pela natureza de extensos e brutais músculos, mas que depois possui não só uma rara capacidade de dançar à nossa frente e esgueirar-se quando pensamos que já lhe percebemos os truques como também um dom imenso para a trash talk — no caso, um imenso rezingar contra o estado do mundo, seja o Brexit, dependências de substâncias, a imigração (como em Danny Nedelko, em que Talbot canta “My blood brother is an emmigrant”) ou a herança que cabe a cada um em sorte — como em Colossus, a violentíssima e admirável faixa que abre o disco, riff pesadão lado a lado com uma segunda guitarra numa chinfrineira diabólica, que recorda os Birthday Party — Talbot canta: “I am my father’s son/ his shadow weighs a ton”. As guitarras explodem, há um ataque danado aos timbalões: é soco atrás de soco atrás de soco atrás de soco — e ainda estamos na primeira faixa.

Os socos vêm de todo o lado: das guitarras, da secção rítmica, da voz (do timbre em si), das palavras — ainda mal Colossus acabou de vez e já o riff infernal de Don’t fight a man with a perm nos ataca e pouco depois, em Scum, Talbot está a cantar “I put homophobes in coffins”, em Scum. Canção atrás de canção, vai-se tornando claro que em Joy As An Act of Resistance os Idles criam aquilo a que podemos chamar zona de desconforto, em que o absurdo de um mundo violento, homofóbico, racista e irracional tem relação directa com a história pessoal de cada indivíduo e única resposta possível que um sujeito saudável pode dar perante tanta agressão é exsudar a raiva que esse mundo lhe cria.

Em alguns momentos surge como como um óptimo cronista da pequena vida — como na mencionada Don’t fight a man with a perm, cujo personagem principal é um bully pacóvio; mas em geral ele está demasiado zangado para se limitar a observar — na tristíssima June o tema é a morte da sua filha à nascença, e de novo vem-nos à memória o som dos Birthday Party. Há mais um momento assim, de alguma acalmia, na versão de Cry to me, original de Solomon Burke, a penúltima canção do disco. Quando a canção final, Rottweiller, chega já tivemos direito a puro punk, rockabilly, e até soul-blues, sempre sob um fundo quase gótico — o que parece nunca acabar é a imensa e brilhante fúria dos Idles.