Opinião

Se se riram, foi talvez do nervoso

O discurso de Trump foi o mais completo ataque à ordem multilateral e a mais clara negação das orientações da política externa americana nos últimos 100 anos.

1. Alguns dos presentes na Assembleia Geral da ONU, em reunião plenária desde o dia 25 até hoje, ter-se-ão rido abertamente em alguns momentos do discurso do Presidente norte-americano, proferido na passada terça-feira. A incivilidade está, no geral, afastada destas missas solenes em que o mundo se reúne em Nova Iorque. Rir do Presidente dos EUA é uma prática inédita. Protestos de algumas delegações, é habitual. O incidente, que ainda hoje faz manchetes, (quase) apagou o conteúdo da intervenção de Donald Trump. Não é uma boa notícia, sobretudo para quem ainda presa o multilateralismo e os valores universais que a Carta das Nações Unidas consagra. Há que admitir que pelo menos numa passagem, logo no início, teria sido difícil conter um sorriso. Foi quando o Presidente anunciou que “em menos de dois anos (…) tinha conseguido mais do que quase todas as administração da História” do seu país. Ficamos sem saber se o “quase” se referia a Lincoln ou Roosevelt, os dois mais fortes candidatos que nos vêem à cabeça, para além de George Washington. Depois, passou em revistas todas as suas extraordinárias realizações, desde o maior corte de impostos da história da América até à construção do muro na fronteira com o México. Mais tarde, explicou aos jornalistas que se tratava de “fake news”, que a Assembleia riu com ele e não dele. Para encerrar a questão vale a pena recordar o que disse em 2014, referindo-se a Obama: “Precisamos de um Presidente que não seja motivo para riso no mundo inteiro.” “O riso figurativo de 2014 tornou-se no riso literal de 2018”, escreve a Atlantic. “O soft power americano está no seu nível mais baixo desde a II Guerra”. Não é um conceito pelo qual Trump tenha qualquer interesse.

2. O conteúdo da sua intervenção, lida em tom monocórdico, sem qualquer capacidade de entusiasmar ou emocionar, foi o mais completo resumo de uma visão do mundo que estava anunciada em quase todas as suas decisões de política externa, transmitidas na maioria da vezes em meia dúzia de palavras, mas agora transformadas numa longa peça escrita que constituiu o mais completo ataque à ordem multilateral e a mais clara negação das orientações da política externa americana nos últimos 100 anos. Fosse qual fosse a cor política do seu Presidente. Trump rejeita o “globalismo” e uma “burocracia global, não eleita nem susceptível de ser responsabilizada”, como descreveu, por exemplo, a Comissão dos Direitos Humanos da ONU, da qual anunciou que se retirava. Quase no final, deu a sua visão da ordem que defende: “Nações soberanas e independentes são o único veículo onde a liberdade sempre sobreviveu, a democracia sempre foi garantida ou a paz sempre prosperou. Por isso devemos proteger a nossa soberania e a nossa adorada independência acima de tudo”. À cooperação internacional assente em regras, Trump contrapõe a soberania nacional, que todas e as nações têm o direito de defender por todos os meios. Faltou-lhe apenas acrescentar que as soberanias não são todas iguais e que, como foi demonstrando ao longo da sua intervenção, a relação de forças acaba por ser o critério fundamental. “Ele é um activista da frente soberanista Xi-Putin-Orbán, essa impossível internacional dos nacionalismos e um inimigo jurado da ordem liberal”, escreve sem meias palavras Timothy Garton Ash no Guardian. Elegeu o Irão como o novo “inimigo número um” dos EUA, ameaçando veladamente a sua soberania, apontando-o como o único responsável pelas calamidades cometidas pelo regime de Damasco (a Rússia nunca existiu), incentivando o seu povo à revolta contra um regime “sangrento” que rouba o povo e que o oprime. A decisão de aplicar sanções secundárias a todas as empresas que mantenham negócios com o Irão, depois de ter retirado o seu apoio ao acordo nuclear de 2015 e ter reposto uma primeira leva de sanções, interfere directamente com as decisões “soberanas” dos países europeus subscritores do acordo. Pode fazê-lo porque o mercado americano é suficientemente forte e o dólar suficientemente omnipresente para não lhes deixar outra alternativa senão saírem. “Foi um momento excepcional nos hábitos dos 73 anos da ONU”, escreve o Financial Times em editorial. “A Europa, incluindo o Reino Unido, normalmente um fiel aliado dos EUA, alinhar publicamente com Moscovo e com Pequim contra Washington numa questão que está no centro da política externa americana”. Tratou dois ditadores como amigos, mesmo que lhes tenha lembrado que os negócios ficam à parte. O seu amigo Xi Jinping vai continuar a sofrer os efeitos da “guerra comercial” que decretou contra a China. “Durante décadas, os EUA abriram a sua economia – de muito longe a maior à face da Terra – com poucas condições”. Resultado: "Os EUA perderam mais de 3 milhões de empregos na manufactura, quase um quarto dos empregos na indústria do aço, e 60 mil fábricas depois de a China ter aderido à OMC. E acumulámos mais de 13 triliões de dólares em défices comerciais nas duas últimas décadas”. O outro é Kim Jong-un, que representa até agora o único meio-sucesso diplomático que pode apresentar: há uma abertura do regime e prossegue uma aproximação com Seul.

3. Pela primeira vez de há muitas décadas, um discurso de um Presidente americano não tem qualquer referência aos aliados europeus e à aliança transatlântica. Mais uma vez, a Alemanha foi apontada a dedo como o seu mais sério “inimigo”, desta vez porque escolheu o caminho da dependência energética (não disse relação a quem), correndo o risco de se tornar “vulnerável à extorsão e à intimidação”. Berlim tornou-se o alvo privilegiado de Trump na Europa, desde o início do seu mandato. Por causa do seu excedente comercial gigantesco mas também porque olha para a Alemanha como a “força” por trás da integração europeia, cuja utilidade não entende nem fará nada para preservar. Outra estreia absoluta. Os seus amigos estão em Budapeste, em Roma ou na Polónia, eleita um dos quatro países do mundo que elegeu como “faróis” que iluminam as respectivas regiões, numa passagem tão preocupante como irresistível. “Há a Índia, uma sociedade livre de mil milhões de pessoas, que conseguiu com sucesso tirar milhões da pobreza (…). Há a Arábia Saudita, onde o Rei Salman e o Príncipe herdeiro estão a levar a cabo grandes e ambiciosas reformas. Há Israel, que celebra com orgulho os seus 70 anos como uma democracia dinâmica na Terra Santa. Na Polónia, um grande povo ergue-se pela sua independência, a sua segurança e a sua soberania. O mundo é mais rico, a humanidade é melhor, por causa desta bela constelação de nações.” A Polónia está em conflito com a União Europeia por violar as regras do Estado de Direito. Mas é um exemplo perfeito daquilo que Trump entende como país aliado: Varsóvia pediu aos EUA para instalarem uma base militar na Polónia, pela qual está disposta a pagar e que promete chamar de “Fort Trump”. Garton Ash, no mesmo texto, avisa que não é apenas um problema de Trump e que basta que saia da Casa Branca para que a velha relação transatlântica volte ao que sempre foi. “Grande parte da América voltou as costas à Europa”. E o historiador britânico não fala apenas da metade “ignorante”. Fala das elites. “Trump é horrível mas, neste aspecto, é tanto um sintoma como uma causa”.

4. Aquilo que achamos bizarro ou ameaçador ou que nos faz encolher os ombros - “de que é que se estava à espera?” –, pode fazer perfeitamente sentido para muitos americanos mas também para muitos europeus que rejeitam internacionalismo e aceitam o nacionalismo por razões parecidas com as dos americanos que elegeram Trump. “A América é governada pelos americanos. Rejeitamos a ideologia do globalismo e abraçamos a doutrina do patriotismo”. A ideia de que não há uma sociedade global e que o único valor que deve reger as relações internacionais é a soberania de cada Estado e o seu direito a defender os seus interesses faz sentido também para um número crescente de europeus. O controlo das fronteiras para impedir a entrada de imigrantes é visto como prioridade para cada vez mais gente. As mudanças na Europa são mais subtis, mas o sentimento de que a globalização criou mais perdedores nas economias desenvolvidas do que nas outras está hoje generalizado – porventura, mais do que gostaríamos de admitir, com os nossos óculos elitistas, sempre que olhamos para a América, quando já temos a nossa casa a começar a arder. Vontade de rir? Nenhuma. Ou então, apenas algumas gargalhadas nervosas.