Editorial

O caso “estranhíssimo” visto pelo professor Cavaco

Se Cavaco Silva vê na sucessão de Joana Marques Vidal coisas “estranhíssimas”, que as revele.

O ex-presidente Aníbal Cavaco Silva saiu do seu intermitente recato para sobressaltar a consciência da República com as “estranhíssimas” razões que levaram o Governo de António Costa a não reconduzir Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República. Uma vez que a ainda procuradora-geral cumpriu com zelo e competência o seu mandato, e considerando que deu um “contributo decisivo” para a credibilidade do Ministério Público, Cavaco Silva considera até que a sua não recondução é “a decisão mais estranha do mandato da ‘geringonça’”. Para quem exigiu um compromisso escrito a António Costa antes de o indigitar, esta avaliação é todo um programa que merece ser discutido.

Aníbal Cavaco Silva não é um analista dos jornais, comentador das televisões ou um deputado no activo para se lhe poder perdoar a contundência do discurso ou a profundidade das acusações. Na sua condição de ex-Presidente, tem obviamente o direito à intervenção pública, mas exige-se-lhe a ponderação e o recato inerentes a essa especial condição. Ora, ao criar uma cortina de suspeição sobre o processo que conduziu à nomeação de Lucília Gago, Cavaco Silva não esteve à altura da solenidade do seu estatuto. Porque o que disse não corresponde à produção de uma qualquer ideia, à elaboração de uma crítica ou à sugestão de um caminho para o país: o que ele fez foi apenas insinuar que a não recondução de Joana Marques Vidal é consequência de “algo muito estranho”, tão estranho como um golpe de bastidores destinado a obstruir a Justiça e a proteger os poderosos.

Não é isso que se espera de um ex-presidente e ainda menos do ex-Presidente que nomeou Pinto Monteiro, o campeão da condescendência com as suspeitas dos então donos disto tudo. Se Cavaco Silva vê no processo coisas “estranhíssimas”, que as revele e nos ajude a perceber as suas razões. Dizer o que disse com a ligeireza digna de quem come bolo-rei pode servir para inflamar as hostes que vislumbram um golpe na sucessão na PGR ou para dar mais uma alfinetada à dupla Costa-Marcelo. Mas não dignifica o importante legado de Cavaco ao país nem a dignidade de Estado que o estatuto dos ex-presidentes nos deve merecer.