“Nem Haddad nem Bolsonaro representam votos de pacificação, os seus governos serão votados ao fracasso”

Valmir Lopes: pelo PT ou contra o PT, ou melhor, por Lula ou contra Lula. Não há outro tema nestas eleições, que se radicalizaram ao máximo. A instabilidade está garantida para o próximo governo, diz o politólogo brasileiro.

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Jair Bolsonaro (candidato de extrema-direita) e Hernand Hadad (PT) Reuters

No Brasil não existem partidos políticos, diz Valmir Lopes, professor na Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. É uma política feita de personalidades, ou se gosta ou não se gosta. Mas nestas eleições, vai-se além de escolher figuras. São marcadas por um sentimento forte e apenas isso: impedir a todo o custo que o Partido dos Trabalhadores (PT) volte ao poder, ou lutar apaixonadamente para que o PT regresse ao Governo. Nada mais interessa.

A raiz da polarização das eleições de 2018 está nos protestos de 2013, as chamadas Jornadas de Junho?
Esse foi o ano em que a economia já estava a dar sinais de problemas, embora ainda estivesse forte, e o Governo tinha uma boa aceitação popular, na faixa de 70%. Mas de repente houve uma série de manifestações e a aprovação da Presidente Dilma Rousseff caiu de 70% para 15%. Foi um desastre do ponto de vista político. Isso vai produzir um efeito na campanha de 2014, que será extremamente radicalizado e polarizada. 

Qual foi a origem dessa reviravolta?
Isso ainda é um enigma, porque a Presidente e o seu governo pensavam que a situação no país era boa. E de repente eclode esta espécie de rebelião na sociedade civil. No período anterior houve bons crescimentos económicos, houve políticas de inclusão social e de investimentos públicos, mas isso não trouxe necessariamente ganhos do ponto de vista da qualidade dos serviços públicos. O rastilho foi esse, a qualidade do serviço público. Ainda que Estado gaste mais, o bem público é muito mau. E já aparece aqui o tema da corrupção.

Esse clima acabou por gerar um fenómeno novo, o do antipetismo, principalmente nos segmentos de classe média. Durante as década de 1980 e 1990, até aos anos 2000, uma parte da base de sustentação parlamentar do PT foi a classe média e segmentos do sector público. A partir daqui há um divórcio. O PT muda de base. Substitui a classe média pelos mais pobres. É o lulismo, que é uma forma de representação dos mais pobres no Brasil. Na campanha de 2014, Aécio Neves, candidato presidencial pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), vai assumir esse discurso antipetista, que será o da contracorrupção. Mas no fundo, isto era a exaustão do Governo, o fim de um ciclo. Qual era a acusação clássica contra os petistas? Que não queriam sair do poder de jeito algum. Que por conta da desigualdade, conseguiam chantagear uma parte da população para que os mantivesse no poder [os mais pobres, através do programa Bolsa Família]. A população de classe média, mais urbana, sente-se refém dos eleitores do lulismo e isso explodiu na campanha de 2014 com outro componente: a Lava-Jato, que é a grande operação que descobre as entranhas da corrupção. Essas eleições radicalizam-se, e a classe média começa a ficar desesperada com a impossibilidade de retirar o PT do poder.

A classe média não beneficiou com o governo PT?
Beneficiou. Mas menos, porque também começou a perder. Um exemplo muito evidente: a força de trabalho doméstica no Brasil nunca foi regulamentada. Foi o Governo do PT que forçou a regulamentação – o que significa que agora, para se ter uma empregada a trabalhar em casa, tem que se desembolsar muito mais. A classe média começa a ver que os novos benefícios estão na verdade a ser feitos à sua custa. Aliado a isso, há fenómenos sociológicos bastante mais graves, que é um certo elitismo e uma mentalidade bastante antipobre. Qualquer tipo de melhoria, o facto ter acesso a determinados bens, incomoda esse segmento. Não gostam de conviver com essas pessoas. O PT passa a ser identificado como o responsável de tudo o que não gostam. Isso explodiu em 2014, quando já estávamos claramente em período de declínio económico. 

Mas a candidata do PT ganhou as eleições, negando toda e qualquer dificuldade na economia brasileira, embora com uma diferença muito pequena, três milhões e pouco de votos. Só que, depois, aplica todas as medidas que a oposição dizia serem necessárias para recuperar a economia brasileira. Em três meses, derreteu a popularidade. Esses sectores começaram a mobilizar a sociedade e os antigos eleitores do PT para combaterem a Presidente. E aí tem o longo processo de desgaste do governo, que comete grandes erros em cima de erros no Congresso, a situação fica insustentável, e toda a discussão se é golpe, se é destituição. O Governo acaba saindo, e entra o vice-presidente [Michel Temer].

O herdeiro desse movimento é o candidato Jair Bolsonaro?
A grande figura que encarna a corrupção para a classe média é Lula. Quem vai capitalizar este sentimento é a ultradireita, com Bolsonaro. O eleitor de Bolsonaro é extremamente decepcionado com a política tradicional. Acha que tudo o que aconteceu se deve à forma como o país é gerido. Bolsonaro é um candidato contra tudo e contra todos, é um candidato contra o sistema. Ao fazer isso, empareda o PSDB que também vai ser envolvido na corrupção com Aécio Neves, que tem um impacte enorme.

Os apoiantes do PT dizem: “Todo o mundo rouba, pelo menos esses roubaram e distribuíram.” As acusações de corrupção não os incomodam muito. Mas com os do PSDB, que são classe média, membros da elite brasileira, é mais complicado. Sentem-se directamente afectados. Punem o partido e não vão votar no PSDB. E, paralelamente, surge o capitão Bolsonaro, que encarna a figura do homem contra o sistema, e faz uma campanha na base desse sentimento.

Começa a existir este quadro: Lula preso, e todos aqueles que eram candidatos anti-Lula vão-se fragmentando e há uma enorme onda anti-PT. Objectivo é impedir que o PT chegue ao poder. E, do lado de lá da barricada, o objectivo é o inverso, fazer o PT regressar ao PT. A sociedade dividiu-se entre os que fanaticamente não querem o regresso do PT e os que fanaticamente querem impedi-lo.

Ao lado, temos uma crise gigantesca, que nenhum dos lados está a discutir. Enquanto isso, os candidatos que ficaram a meio da tabela, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, estão a propor discutir a crise e como sair dela. Só que se geraram dois campos antagónicos, este discurso de centro não encontra eco na sociedade. Só interessa posicionar contra ou a favor do PT. Acabou.

Foi uma surpresa constatar que Bolsonaro tem tanto apoio no Ceará e no Nordeste.
Mas é um segmento da população muito pequeno. Ele não é um candidato conhecido, os pobres não o conhecem muito. Bolsonaro não é um candidato popular, no sentido de voto dos mais pobres. O lulismo é que representa isso. No segmento onde de facto tem votos é na classe média, antigos apoiantes do PSDB, sectores liberais, do ponto vista económico, críticos do Estado, da reforma das políticas públicas e das políticas de género. Não são muitos, mas conseguem alguma mobilização. A campanha dele não é tradicional, passa-se maioritariamente nas redes sociais. As intenções de voto nele têm uma espécie de tecto, 30%, que coincide com a percentagem da classe média no Brasil.

Como antevê o pós-eleições?
Provavelmente, qualquer um dos candidatos que está à frente nas sondagens estará fadado a ter um ciclo de instabilidade política. A única forma de garantir a estabilidade seria se ganhasse o voto centrista, o proposto por Geraldo Alckmin, mas ele não soube captar o voto de pacificação. Nem Fernando Haddad nem Jair Bolsonaro representam votos de pacificação, os seus governos serão votados ao fracasso. Os dois, na verdade, estão a olhar para o passado, em vez de olharem para as dificuldades que estamos a passar.

A simpatia e a antipatia pelo PT tomaram conta do debate público, e está-se a fazer uma campanha eleitoral sem temas. Ninguém imaginava que se iria chegar a este ponto de inviabilização do próximo governo – nenhum candidato na segunda volta conseguirá mais de 60% dos votos. É impossível neste quadro algum candidato ganhar por uma margem muito grande. Assim, não poderá apresentar propostas de reformas impopulares, como a reforma da previdência, que é urgente, mas gera muita antipatia, em parte porque há grande desinformação. Em breve, o país estará a canalizar todo o dinheiro cobrado pelos impostos para pagar aos reformados.