Muscadet, o vinho que já chegou à mesa do Eliseu

As vindimas já terminaram na região Loire-Atlântico, em França. Depois de dois anos catastróficos, “esta foi a colheita de uma vida, com uvas em quantidade e qualidade muito raras”.

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Christophe Bornet By Kristo

As vindimas já terminaram na região Loire-Atlântico, restando, por estes dias, a colheita tardia de algumas vinhas. E este foi o ano do regresso à normalidade nesta região do noroeste de França que, nas duas últimas colheitas, registara um resultado “catastrófico” com a perda de cerca de 80 por cento da produção, salientou Marie Denis, a jovem estagiária e estudante de comércio na área da viticultura que guiou a Fugas numa visita ao Château du Coing, em Saint-Fiacre-sur-Maine.

“Esta foi a colheita de uma vida, com uvas em quantidade e qualidade muito raras”, confirmaria depois a gerente do restaurante La Gaillotière, na aldeia vizinha, em plena “campagne” francesa.

O Château du Coing de Saint-Fiacre é uma das 11 etapas que Le Voyage à Nantes integra no seu programa desde 2015, com o objectivo de levar o visitante a conhecer o país vinícola da região, e em particular os vinhos Muscadet, que, graças a “uma aposta integrada dos viticultores e dos responsáveis pelo turismo”, nota Marie Denis, caminha a passos largos para encontrar o seu lugar no mapa muito exclusivo do vinho francês – que, como se sabe, “mais do que uma bebida, é um deus”, como um dia escreveu o conde de Clermont-Tonerre.

O Muscadet não é uma casta, mas uma Denominação de Origem Controlada (AOC, na designação francesa), adquirida em 1937, e principalmente distribuída pela margem sul do vale do Loire, entre Nantes e Clisson. Trata-se de um vinho branco, cuja casta exclusiva é a Melon de Bourgogne, um nome algo enganador, que tanto identifica a forma ovalada da parra como o facto de ter sido “importada” daquela outra importante região vinícola no leste do país, no final da Idade Média, por via dos negócios entre os frades e os comerciantes dos Países Baixos.

Na região, ainda que com expressão minoritária, são também cultivadas vinhas das castas Gros-plant, Gamay, Cabernet e Merlot.

O Muscadet tem como principal trunfo “a juventude e a elegância”, dizem os produtores da região. É um vinho fresco, leve (normalmente não ultrapassa os 12 graus), de perfume subtil, floral e frutado, aconselhado para acompanhar mariscos da costa atlântica (ostras, principalmente), peixes, carnes brancas e queijos de cabra.

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“Durante décadas, o Muscadet era cultivado sem critério, numa mistura indiferenciada de uvas provenientes de vinhas de idades e características diversas”, explica Marie Denis, junto à vinha num dos campos ligeiramente inclinado em anfiteatro para o pôr-do-sol, dentro dos 45 hectares que constituem a propriedade do Château du Coing. “Esta vinha tem perto de cem anos, e é tratada e cuidada como tal, com a preocupação de retirar dela toda a sua potencialidade”, acrescenta a guia.

É assim que, numa escala progressiva, os Muscadet – que têm como principal trunfo o estágio de entre seis a 24 meses em pipas “sur lie” (quer dizer: sobre as borras e as leveduras naturais que lhe garantem a mineralidade, a acidez e a complexidade) – conquistaram já um lugar na prestigiada classificação de “crus communaux” para as vinhas de Gorges, Clisson e Le Pallet; e outras comunas estão entretanto à espera de aí chegar, também.

Um vinho de gastronomia

Nas publicações oficiais do Turismo de Nantes – e apesar de os preços de cada garrafa dificilmente ultrapassarem os 20 euros junto dos viticultores (é o caso do “crus communaux” Comte de Saint-Hubert, do Château du Coing) –, reivindica-se que o Muscadet já não é apenas o “petit blanc” que as pessoas bebiam indiferenciadamente ao balcão de um qualquer café ou restaurante, mas antes um “vinho de gastronomia”, que chegou já mesmo à mesa do Palácio do Eliseu e do Senado, mas também às ementas particularmente restritivas de restaurantes como o L’Arpège, de Paris, o Noma, de Copenhaga, ou o Balthazar, de Nova Iorque.

A história do Muscadet pode ser conhecida in loco numa visita ao Château du Coing, que fica a meio caminho entre Nantes e Clisson, a pequena cidade de origem medieval que baliza, a sudeste, o percurso aconselhado por Le Voyage à Nantes para se conhecer as vinhas desta região demarcada. À chegada, o visitante pode receber as “boas-vindas” de um jovem “grand danois” preto, que não desperdiçará a oportunidade para uma brincadeira, mas, ostensivamente, não permitirá que alguém entre nas vinhas da propriedade. O château é um edifício que documenta uma época: crê-se que começou por ser construído no século XV, mas o palacete actual remonta ao século XVIII, e foi em parte destruído no decorrer da guerra civil de Vendée, que, após a Revolução Francesa, opôs republicanos e realistas. Sobrou, contudo, a arquitectura monumental de estilo “italianizante” e uma sucessão de pequenos pormenores construtivos e decorativos a mostrar como a aristocracia que sobreviveu à revolução continuou a querer mostrar a sua riqueza e os seus pergaminhos – como o acrescento do “g” ao nome “du coin” como que para conferir alguma patine gráfica à pura circunstância geográfica de a propriedade se encontrar no “canto”, no encontro, dos rios Sevre e Moine, o que, de resto, é uma das suas mais-valias.

Além da visita ao palacete, à propriedade e à vinha, os interessados poderão degustar vários dos 12 vinhos que este ano estão a ser comercializados, colhidos nos 45 hectares da propriedade. Desde a mineralidade fresca e jovem do Coing de Sevre (5 euros) e do aroma frutado do Folie Blanche, até aos mais elaborados Comte de Saint-Hubert, proveniente das vinhas velhas e que poderá ser guardado durante uma década, ou o Château du Coing vinificado durante seis meses em pipas de carvalho francês (13 euros).

Para um conhecimento ainda mais detalhado sobre a realidade vitícola da região do Muscadet, aconselha-se a visita ao Museu da Vinha de Nantes, em Le Pallet, que documenta, numa exposição com meio milhar de peças, a história e a geografia deste vinho de que aquela cidade é o bastião. Até 9 de Novembro, o museu apresenta também uma mostra temporária, intitulada Amba’Saveurs em vignoble nantais.

A Fugas viajou a convite de Le Voyage à Nantes, da Transavia e Office du Tourisme du Vignoble de Nantes.