Rio desafiado a fazer oposição a Costa e a defender legado de Passos

Deputados incomodados com o que chamam de estratégia de aproximação de Rio ao PS pedem crítica mais musculada ao Governo

Foto
LUSA/PAULO NOVAIS

Depois do episódio mais agudo sobre a taxa para combater a especulação imobiliária, a estratégia de oposição do líder do PSD continua a ser alvo de reparos internos. Seja por causa da Procuradora-Geral da República, seja a propósito de Tancos em que um ex-vice-presidente de Passos Coelho vem defender a comissão parlamentar de inquérito proposta pelo CDS-PP numa altura em que a direcção do partido ainda não assumiu uma posição clara sobre o assunto. 

Na primeira reunião da bancada do PSD após as férias, o tom crítico à direcção de Rui Rio não foi generalizado mas houve dois casos particulares. Marco António Costa, ex-vice-presidente de Passos Coelho no PSD, defendeu que o partido deve focar a sua actuação nas áreas de soberania e justiça e menos na economia. O presidente da comissão parlamentar de Defesa sustentou esta sua posição tendo por base situações como os incêndios de 2017 e o caso de Tancos.

Já na véspera, Marco António Costa assumiu uma posição “a título individual” sobre a “utilidade” de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o desaparecimento e reaparecimento de material militar em Tancos. Quando o PSD não assume como vai votar a proposta de inquérito do CDS para apurar responsabilidades políticas no caso, o deputado veio a público deixar clara a sua posição a favor da iniciativa. Até porque, lembrou, há situações que exigem explicações como a do facto dos responsáveis do Sistema de Segurança Interna e do Sistema de Informações da República Portuguesa terem dito, na comissão de Defesa, que souberam do furto do material militar pela comunicação social, no dia 29 de Junho de 2017.

No final da reunião da bancada, Fernando Negrão remeteu o sentido de voto do PSD sobre a comissão de inquérito a Tancos para quando for apresentado o objecto da iniciativa.

Na reunião, que decorreu à porta fechada, o líder da bancada do PSD reiterou a falta de credibilidade do primeiro-ministro António Costa, o que deu o mote à intervenção de Miguel Morgado, ex-adjunto político de Passos Coelho. O deputado defendeu que não podem ser apenas os parlamentares a atacar a credibilidade do primeiro-ministro e que tem de ser o candidato a primeiro-ministro a fazê-lo. Miguel Morgado sustentou que é preciso que o PSD faça oposição ao Governo. “Já tarda”, terá dito o deputado, segundo relatos feitos ao PÚBLICO.

A estratégia de aproximação de Rio ao PS é a principal crítica que os sociais-democratas apontam à actual liderança do partido.

 O caso da não recondução da Procuradora-Geral da República Joana Marques Vidal no cargo desencadeou uma série de opiniões críticas por parte de figuras do PSD como Passos Coelho, a ex-ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz e o ex-Presidente da República Cavaco Silva. Miguel Morgado já se tinha pronunciado desfavoravelmente sobre a decisão do Governo e do Presidente da República e voltou a fazê-lo na reunião da bancada, comentando que a não recondução de Joana Marques Vidal foi uma “vitória dos corruptos e da oligarquia”. Sobre esta matéria, Rio foi muito mais recuado. Primeiro recusou falar sobre o tema para não provocar a sua “partidarização”, depois disse não opor-se à recondução de Joana Marques Vidal, horas antes do anúncio da substituição da titular do cargo. Depois de ser conhecido o nome de Lucília Gago, até agora vice-procuradora-geral da República, o líder do PSD acabou por criticar a substituição por representar uma linha de continuidade face a Joana Marques Vidal.  

O antigo adjunto do ex-primeiro-ministro sustentou ainda que o PSD não deve desistir da argumentação de que a actual situação económica-financeira do país resulta do trabalho do anterior Governo, um debate que existe noutros países europeus. E, neste ponto, criticou o “silêncio do PSD” sobre a saída da Grécia do programa de ajuda externa.

A defesa do trabalho da anterior direcção do PSD de Passos Coelho também se fez ouvir pela voz do ex-ministro José Pedro Aguiar Branco, durante uma reunião de Rui Rio com militantes no Porto, na passada segunda-feira. Perante o próprio líder do PSD, Aguiar-Branco lembrou que o partido não nasceu no dia em que foi apresentado o Conselho Estratégico Nacional no Porto (no passado dia 11) e que houve momentos difíceis em que foi preciso dar a cara pelas decisões do Governo do PSD.