Crónica

A Internet antes do Google. Lembra-se?

Neste exercício de memória, recordamos como era utilizar a Internet há 20 anos. Funcionava. E era fascinante.

Se há um antes e um depois da Internet, para milhares de milhões de utilizadores há um antes e um depois do Google.

Desde que apareceu, em 1998, a popularidade do motor de busca nunca parou de subir, à velocidade da bolha — o Google apareceu com a bolha tecnológica, e não será errado dizer que a ajudou a fazer.

Em 1998 era o tempo do browser Netscape e dos portais AOL, AltaVista e Yahoo!, dos serviços portugueses Telepac e Sapo. Foi nesse ano que apareceu o “ultra-rápido” ADSL, mas a ligação padrão corria a 56 kbit/s. Hoje dá vontade de rir, mas na altura a experiência de utilização e a imagem eram… espectaculares. Ainda que fosse preciso uma hora para fazer o upload de uma fotografia.

Uma das curiosidades deste exercício de memória é pensar no quanto a Internet era fascinante. Há duas décadas não havia concentração de serviços, tudo era disperso e não havia tecnologia para suportar funcionalidades que hoje damos por adquiridas. Email de um lado, serviço de busca do outro; o armazenamento de ficheiros na cloud e o backup automático de fotografias, nem em sonhos.

Era comum usar mais do que um motor de busca, não havia nenhum sentimento de fidelização, pelo simples facto de não se encontrar um serviço que o satisfizesse. Na verdade, nem se pensava nisso, ainda não tinha sido criada essa necessidade. Não havia, tão pouco, um serviço dominante, a não ser o sistema operativo da Microsoft.

A Internet era a parte mais promissora da revolução, potenciada pelo novíssimo Windows 98, que então começava a substituir o (extraordinário) Windows 95. Foi por essa altura que o Internet Explorer começou a angariar estatuto, apesar de o browser da Microsoft apenas estar disponível na versão Plus do Win95. Até 1998, o navegador para acesso à Internet ainda era um extra.

E o wi-fi? Não existia nem fazia falta, porque os telemóveis eram tijolos a preto e branco e os computadores portáteis, relativamente raros e caros. Os desktop eram pesados e barulhentos, e os ecrãs ocupavam boa parte da profundidade das secretárias. Os computadores eram, já se percebeu, PC; os Mac não passavam de uma excentricidade.

Há 20 anos as redes sociais eram as dos amigos, à mesa do café, em bares e discotecas. Na Internet, o mais parecido que havia com o que conhecemos hoje chamava-se mIRC – “dd tc?”, lembra-se? Era a abreviatura de “de onde teclas?”. E o ICQ, um chat para mensagens directas? Um must.

Há duas décadas a privacidade não era sequer uma questão. A nossa presença online era, quando muito, um email e um nickname. Ainda estávamos longe de pensar que o nosso correio electrónico ou as nossas mensagens podiam ser lidas e processadas para nos venderem publicidade direccionada.

Na prática, fazer uma busca na Internet não era diferente do que é hoje. Os portais tinham em destaque uma caixa de pesquisa, mas assumiam um papel mais abrangente. Eram (e ainda são) páginas que organizavam informação relevante, como notícias ou o estado do tempo. E, claro, publicidade. Tudo se fazia através de links de texto; as imagens clicáveis eram pesadas, e por isso pouco utilizadas.

Depois chegou o Google, aquela página praticamente “em branco” e que, por isso, carregava depressa (para os padrões da época). A simplicidade era tremendamente eficaz – uma solução que foi sendo depurada, até ao que conhecemos hoje. O resto é história.