Ford não se lembra de tudo mas tem uma certeza: foi Kavanaugh

Christine Blasey Ford, uma das mulheres que acusam Brett Kavanaugh de as ter atacado, jurou no Senado que foi o juiz nomeado por Trump para o Supremo quem a tentou violar no Verão de 1982.

Christine Blasey Ford
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Christine Blasey Ford LUSA/MICHAEL REYNOLDS
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Brett Kavanaugh Reuters/POOL

O caminho aberto que o juiz norte-americano Brett Kavanaugh tinha à sua frente para chegar ao Supremo Tribunal, há apenas duas semanas, está a ficar cada vez mais cheio de obstáculos, depois de três mulheres terem dado a cara para o acusar de abusos sexuais nos tempos da escola secundária e da universidade, no início da década de 1980. Numa audição no Senado, esta quinta-feira, a primeira mulher a acusar o juiz Kavanaugh, a professora universitária Christine Blasey Ford, admitiu que não se recorda de alguns pormenores da sua história, mas deixou uma garantia sobre a identidade da pessoa que acusa de a ter atacado no Verão de 1982: "Tenho 100% de certeza de que foi Brett Kavanaugh."

Ao contrário do que é habitual neste tipo de audições, em que cada senador faz perguntas directamente às testemunhas, o Partido Republicano decidiu delegar essa tarefa numa experiente procuradora.

A ideia era não repetir as imagens que ficaram na memória de muitas americanas em 1991, quando um outro juiz nomeado para o Supremo, Clarence Thomas, foi acusado de assédio sexual por Anita Hall. Nessa altura, mesmo numa era muito anterior à do movimento #MeToo, a imagem de 14 homens brancos, republicanos e democratas, a interrogarem de forma brusca uma mulher negra, horas a fio, foi tão impressionante que deu origem a um movimento de mulheres decididas a concorrerem a cargos políticos.

Mas a prestação da procuradora escolhida pelo líder da actual Comissão de Justiça do Senado, o republicano Chuck Grassley (que também estava na comissão que interrogou Anita Hall, há 27 anos), parece não ter ajudado a causa do Partido Republicano. A sua linha de inquérito assentou mais em sugerir que Ford pode ter sido manipulada pelo Partido Democrata e pelos seus advogados — que se terão aproveitado das suas memórias incompletas para atacarem o juiz Kavanaugh — do que em demonstrar que o caso de abuso sexual denunciado pela acusadora não poderia ter acontecido.

Segundo Ford, esse caso remonta ao Verão de 1982 e terá ocorrido numa casa no estado do Maryland. Ford, então com 15 anos, diz ter sido forçada a entrar num quarto por Brett Kavanaugh, então com 17 anos, e por um amigo deste, Mark Judge. Já no quarto, Ford terá sido atirada para cima da cama por Kavanaugh, que se deitou em cima dela e lhe tapou a boca para que ela não gritasse. Segundo Ford, Kavanaugh só não a violou porque ele e Mark Judge estavam bêbedos e acabaram por dar-lhe uma oportunidade de fuga.

"É tudo mentira"

O juiz nega esta e outras acusações entretanto feitas por mais duas mulheres, que em termos gerais pintam o mesmo quadro sobre o comportamento do jovem Kavanaugh: em vez de ser um aluno focado, empenhado e tão respeitador das mulheres que se manteve virgem até bem depois da universidade — como afirmou numa entrevista à Fox News, no início da semana —, o jovem Kavanaugh seria antes um adolescente que bebia muito e com frequência, e que costumava perseguir as suas colegas em festas, onde tentava tudo para ter relações sexuais com elas, desde humilhá-las a pôr drogas nas suas bebidas. Uma das três acusadoras, Julie Swetnick, afirma mesmo que Kavanaugh e Judge estavam presentes numa festa em que ela diz ter sido violada por vários rapazes.

Esta quinta-feira, na declaração que leu antes de ser submetido às perguntas dos senadores, Kavanaugh voltou a dizer, entre acessos de indignação e lágrimas, que "é tudo mentira", e afirmou que não vai desistir de chegar ao Supremo Tribunal: "Podem derrotar-me na votação final, mas não farão com que eu desista."

Sinais de divisão

Se uma audição no Senado para ouvir os testemunhos de um acusado e de uma acusadora parece ser um daqueles casos típicos em que pouco mais há para avaliar do que a palavra de um contra a do outro, é porque falta pôr nessa equação um dos factores essenciais numa nomeação para o Supremo dos EUA: se o testemunho de Christine Blasey Ford, transmitido pelas televisões e acompanhado em directo por milhões de telespectadores, for considerado credível pela maioria dos americanos, a Casa Branca e o Partido Republicano terão muito menos espaço para continuarem a apoiar a nomeação do juiz Kavanaugh.

O primeiro sinal de que isso pode acontecer chegou ainda durante a audição a Ford, horas antes do início do testemunho de Brett Kavanaugh. O governador do Massachusetts, Charlie Baker, juntou-se ao pequeno grupo de governadores do Partido Republicano que começou esta semana a pedir uma investigação independente às acusações contra o juiz nomeado pelo Presidente Donald Trump — uma medida que, a ser aceite, deixaria em suspenso a votação final da nomeação de Kavanaugh e seria vista como um golpe na agenda política do Presidente Trump e do Partido Republicano.

"As acusações contra o juiz Kavanaugh são revoltantes e merecem uma investigação independente. Não deve haver votação no Senado", disse Baker, juntando-se aos governadores do Maryland, Larry Hogan, e do Ohio, John Kasich — uma das vozes mais críticas do Presidente Trump no Partido Republicano.

Este foi, aliás, o principal argumento dos senadores do Partido Democrata nas audições desta quinta-feira: se o juiz Kavanaugh e o Partido Republicano não têm nada a esconder, então porque não autorizam que o FBI investigue as acusações, como aconteceu no caso de Anita Hall, em 1991, e porque não exigem a comparência do amigo do juiz, Mark Judge, na mesma comissão do Senado?

Também no Senado, no lado do Partido Republicano, há quem não esteja disposto a prometer um voto a favor da confirmação do juiz — o que é também uma pista importante para se antever o desfecho deste processo, já que o Partido Republicano tem apenas mais dois senadores do que o Partido Democrata.

Entre os republicanos que começaram a coçar a cabeça sobre a nomeação de Kavanaugh quando ouviram as acusações de Ford estão Lisa Murkowski (Alasca), Jeff Flake (Arizona) e Susan Collins (Maine) — senadores que já deram dores de cabeça à liderança do Partido Republicano e ao Presidente Trump em outras votações, como no caso da proposta para o fim do Obamacare, no Verão do ano passado, quando Murkowski e Collins se juntaram ao senador John McCain para votarem contra o seu próprio partido.

"Isto já não é sobre as qualificações ou a falta de qualificações do juiz Kavanaugh", disse a senadora republicana Lisa Murkowski na segunda-feira. "O que está em causa é se devemos ou não devemos acreditar numa mulher que foi vítima num dado momento da sua vida."

O seu colega de partido, Jeff Flake, deixou claro que o caso se resume a uma questão de confiança, salientando a importância das audições que decorreram esta quinta-feira. "Como é óbvio, se acreditarmos que as acusações são verdadeiras, votaremos 'não'", disse Flake na terça-feira.

Votação marcada para sexta-feira

Estas contas são decisivas para se perceber se Kavanaugh ainda tem hipóteses de chegar ao dia da votação, ou se desiste até lá — ou se Trump lhe retira a confiança e parte em busca de outro nome. Durante as audições desta quinta-feira, o calendário da nomeação não sofreu alterações, mas à velocidade que tudo tem acontecido, não seria de admirar que fossem anunciadas mudanças radicais de um momento para o outro.

Se isso não acontecer, os 21 senadores da Comissão de Justiça (11 republicanos e dez democratas) que estiveram nas audições, vão votar esta sexta-feira a continuidade da nomeação do juiz — e se Kavanaugh for aprovado com os votos a favor dos republicanos e contra dos democratas, como se espera, a nomeação seguirá para o plenário do Senado, onde os 100 senadores (51 republicanos, 47 democratas e dois independentes alinhados com os democratas) tomarão a decisão final numa data ainda não agendada.