Tomás Correia acusado de “sonegar” informação

Eleições para a mutualista estão a aproximar-se. E clima continua tenso em torno da gestão e das contas da Associação.

Foto
LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Se a informação sobre as condições salariais dos órgãos sociais é do conhecimento geral, outra está a ser retirada da esfera do Conselho Geral (CG) da Associação. É do que se queixam dois conselheiros, Carlos Areal e Viriato Silva, que, em comunicado tornado público este fim-de-semana, alegam que Tomás Correia deixou de facultar os números detalhados da actividade o que dificulta, ou impede mesmo, a fiscalização da acção da gestão e a monitorização da actividade da instituição. 

Carlos Areal e Viriato Silva referem que, no passado dia 18 de Setembro, quando receberam da gestão o relatório sobre a actividade do primeiro semestre, foram surpreendidos com “a alteração do modelo informativo habitual”, que “sonegou o acesso aos números do balanço e da demonstração de resultados”.

Dois documentos chave que permitem a cada conselheiro fazer, de modo autónomo, o diagnóstico do “estado de saúde financeira” da Associação. Do balanço mensal e da demonstração de resultados constam os movimentos detalhados realizados pelos associados, como sejam as entradas e as saídas de capitais. Ou a evolução dos resultados. Indicações que não terão sido disponibilizadas aos dois conselheiros.

Mas quando, em Maio, Tomás Correia reportou os dados do primeiro trimestre, fê-lo no modelo habitual, com o balanço mensal e a demonstração de resultados anexados. E o CG soube que, entre Janeiro e Março, a mutualista apurou um prejuízo de sete milhões de euros. Estas são informações que não constam do power point enviado a 18 de Setembro. 

A semana passada, em entrevista ao Jornal Económico, Tomás Correia avançou que a Associação irá fechar o ano em terreno positivo por redução de imparidades. O mecanismo contabilístico é conhecido: o capital do banco Montepio é de 2,4 mil milhões de euros, mas nas contas da mutualista está contabilizado em 1,9 milhões de euros. Depreende-se que, ao libertar imparidades, se abre o caminho para registar o activo próximo dos 2,4 mil milhões. 

Às polémicas que se travam em torno de Tomás Correia somam-se as interrogações sobre o que o terá levado a mudar as regras de reporte ao Conselho Geral. E o ruído ganha relevância em contexto pré-eleitoral.

À medida que se aproxima a data da eleição para os novos órgãos sociais da AMMG as facções em confronto posicionam-se. E acumulam-se sinais que apontam para uma eventual quarta recandidatura de Tomás Correia à presidência, mas só se até Dezembro o Ministério Publico e o Banco de Portugal, que o investigam em processos distintos, não produzirem acusações.

Essa circunstância, a confirmar-se, “salva a honra” do gestor que entrou no Montepio em 2004, mas poderá, caso este vença, ter carácter temporário. Assim que os novos estatutos entrarem em vigor, se o gestor estiver ainda a ser alvo de investigações, não poderá manter-se no cargo.

Numa das reuniões que promoveu internamente com reformados do grupo, em Viseu, Tomás Correia apareceu acompanhado pelo director Luís Almeida, e por dois vogais da administração Carlos Beato (que tal como Tomás Correia é visado em processos judiciais) e Virgílio Lima.

A par destes encontros, outras movimentações mostram que o núcleo duro de Tomás Correia se dividiu. Se Carlos Beato e Virgílio Lima alinham com o presidente da mutualista, os outros dois vogais Ribeiro Mendes e Miguel Coelho decidiram percorrer um caminho diferente. 

O ex-secretário de Estado da Segurança Social de António Guterres, Fernando Ribeiro Mendes, já anunciou que se candidatará à presidência do grupo Montepio, de que é associado há 20 anos. E ao Expresso declarou que Tomás Correia não tem condições para ser reconduzido: “tem um perfil profissional muito marcado pela banca”, que “não é o mais ajustado para a associação em termos de competências e desafios” e “defronta dúvidas por parte do sistema judicial e da supervisão bancária sobre a qualidade e a correcção da sua gestão”. 

Ao lado de Ribeiro Mendes, não está só Miguel Coelho, estão outros nomes como o do ex-ministro do Mar, também de um governo socialista, José Almeida Serra (visado igualmente em averiguações do BdP), que fez parte de equipas integradas e até chefiadas por Tomás Correia.