Se este livro fosse uma canção seria um blues

É um acontecimento literário. James Baldwin é pela primeira vez editado em Portugal 31 anos depois da sua morte com um romance sobre a força do amor num mundo hostil. Se Esta Rua Falasse é uma parábola sobre o racismo numa América em pecado mortal

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Anthony Barboza/ Getty Images

Se Esta Rua Falasse - If Beale Street Could Talk no original de 1974 -, quinto romance de James Baldwin (1924-1987), é uma balada trágica que conta a história de amor entre Fonny e Tish, um rapaz e uma rapariga negros do Harlem. É também uma parábola sobre a prisão que é o racismo e a exclusão social na América, temas recorrentes na obra do escritor e activista dos direitos civis nas décadas de 50 e 60. É um romance breve ao longo do qual é possível escutar algumas vezes a voz de Aretha Franklin ou de Billie Holliday, mas onde a nota que dá o tom vem de um tempo mais longínquo. Baldwin construiu o título para este livro a partir de uma velha canção de 1916 de W. C. Handy, Beale Street Blues, referência a uma rua em Memphis, no Tennessee, o principal ponto de encontro de diversão dos negros americanos no início do século XX e, conta-se, um dos lugares associados ao aparecimento e popularização dos blues.

Não é o livro mais conhecido de Baldwin, mas é com ele que se inaugura a publicação em Portugal de um dos mais influentes escritores e pensadores da América. Uma lacuna que da edição portuguesa corrige agora, 31 anos depois da morte de Baldwin, e no mesmo e ano em que justamente este romance é adaptado ao cinema por Barry Jenkins, realizador de Moonlight. Chega às salas de Nova Iorque a 30 de Novembro.

A acção decorre no início dos anos 70. Fonny é um rapaz de 22 anos que cresceu nas ruas de Nova Iorque. Ao contrário da maioria dos rapazes do seu bairro não caiu nas drogas nem no álcool; não rouba; sonha ser escultor e gosta de cantarolar What’s Going On de Marvin Gaye, enquanto Tish prepara costelas de porco, pão de milho e arroz. Um dia é preso, acusado de ter violado uma mulher branca, crime que não cometeu. Tish, a sua melhor amiga desde a infância, entretanto sua noiva, tem 19 anos e um objectivo: provar a inocência de Fonny e tirá-lo da prisão. Conhecêmo-los quando ela lhe anuncia que está grávida e sentiu, como nunca, o peso de não lhe poder tocar. “Gostava que ninguém tivesse de olhar através de um vidro para alguém que ama”, lê-se. Ela riu. Ele riu. “O amor e o riso vêm do mesmo lugar: mas poucas pessoas sabem”, pensa Tish na forma muito íntima como Baldwin a dá a conhecer, no seu amor a Fonny, na falta de fé num Deus que os possa salvar. Para Tish e Fony a morte de Deus aconteceu num domingo igual a tantos outros, eram eles muito jovens, na igreja, tal como terá acontecido ao próprio Baldwin, um nego como eles, pobre como eles, do Harlem como eles, educado para ser um pregador evangélico como o padrasto. “A igreja entrou num estado de fervor. Eu e o Fonny fomos apanhados por essa agitação, mas de uma maneira diferente. Agora sabíamos que ninguém nos amava: ou melhor, sabíamos agora que nos amava. Quem nos amava não estava ali.”

Enquanto a família de Fonny, sobretudo a mãe e as duas irmãs, entregam obsessiva a hipocritamente o seu destino nas mãos de um Deus castigador, a família de Tish não espera pela terra prometida e, num espírito de comunidade que Baldwin quer sublinhar como a única hipótese de salvação do homem negro num mundo que lhe é hostil, lutam para transformar o seu destino. São eles, com Tish, quem luta para provar a inocência de Fonny. E têm um aliado de peso, Frank, o pai do jovem escultor.

Com uma trama simples, Baldwin constrói um livro sobre uma América que parece condenada a odiar-se, marcada pela escravatura onde nem os opressores nem os oprimidos se salvam. A prisão de Fonny é a tal metáfora de uma opressão maior. “Estes homens cativos são o preço escondido de uma mentira escondida: a de que os justos têm de poder localizar os danados.” Os cativos, como Fonny, são os que estão do lado de fora, à margem de um sistema que Baldwin lutou por mudar. Mas neste romance, esse ódio fratricida – americanos contra americanos --, manifesta-se também através de uma potência sexual em que o branco, reprimido, inveja o negro na sua sensualidade. Uma das descrições mais marcantes está no modo como Tish se apercebe do olhar de Bell, o polícia branco que não perdoou o facto de sido desautorizado por Fonny num dia normal, numa mercearia do Village. “Se olharmos com atenção para aquele olho azul que não pisca, para aquele centro do olho, descobrimos uma crueldade sem fundo, uma maldade fria e gelada. Naqueles olhos, nós não existimos: se tivermos sorte. Se aquele olho, lá das alturas, foi forçado a reparar em nós, se existirmos de facto naquele Inverno inacreditavelmente gélido que fica atrás daquele olho, ficamos marcados, marcados, marcados, como um homem de sobretudo negro, a rastejar, a fugir, na neve. (...) Estes olhos só sabem fixar as vítimas dominadas. Não conseguem olhar para quaisquer outros olhos.”

Não estamos, no entanto, perante um mundo em que os brancos são maus e os negros bons. Em Baldwin nunca é assim, seria uma simplificação que não cabe no seu pensamento elaborado e que está desenvolvido nos muitos ensaios que escreveu ao longo da vida e agora reconquistam um protagonismo que o devolve como um autor essencial para entender a complexidade da América. Esta é uma história de amor que exalta a falha, ou melhor, a condenação a que está sujeito o homem – ou mulher – solitário. Qualquer homem ou qualquer mulher excluídos. E é escrito na prosa muito próxima da poesia que Baldwin cultivava, elegendo parábolas para falar do que lhe importava e ele sabia fazer isso como pouco porque foi treinado para o púlpito. Talvez também por isso nos seus romances e os seus ensaios, ecoe uma oralidade que apela à intimidade do leitor. Na história de amor de Tish e Fonny cada um de nós sente-se parte dela graças ao modo como Baldwin trata o silêncio, a raiva, a paixão, descreve a infâmia ou a vingança, a fé ou o desespero. Com uma contenção só possível a quem sabe tanto desses sentimentos quanto da força das palavras.