"Nós não nascemos racistas". Crianças falam sobre o que é ser diferente

"Eu tenho família escura e nunca me dei mal com ninguém". Nas conversas sobre racismo do Festival Todos, quer-se que as crianças saiam de lá a entender que a diversidade é riqueza. Só assim se pode combater a estranheza da diferença.

“Sacudam as ideias antigas. Vamos precisar de ideias novas para o debate de hoje”. Quem o diz é Rita Pedro, criadora do espectáculo “Porque é que há uns que gostam mais dos escuros, e outros mais dos brancos?”. Na Escola Básica de Santa Clara, em Lisboa, um grupo de crianças proveniente dos mais variados lugares do mundo prepara-se para a primeira actuação de um espectáculo que anda a ensaiar há mais de dois meses.

A sala onde a peça vai ser apresentada a um grupo de alunos da Escola Voz do Operário da Graça tem apenas uma série de globos que pende do tecto e que reflecte neles uma cor azulada que erradia das luzes. Entre correrias e tropeções, as 13 crianças ajeitam roupas e adereços, denotando o entusiasmo e nervosismo de finalmente mostrarem ao público um trabalho muito pessoal.

“Vamos organizá-los. Os miúdos já chegaram”, grita uma das organizadoras no meio da algazarra. Chico tem 13 anos e nasceu no Zimbabwe. É ele que, depois de todas as crianças entrarem e se alinharem junto às paredes do espaço, vai iniciar esta peça em forma de conversa. “Welcome everybody” diz, num inglês perfeito.

Rita, por sua vez, dá o mote, num tom caloroso, para aquilo que virá em seguida: “No mundo existem muitas formas de racismo”. O que quer dizer a professora de filosofia é que o racismo não é só entre escuros e claros. O racismo pode existir entre pessoas do mesmo continente. Esta conversa/espectáculo em torno do racismo faz parte de um todo maior – o Festival Todos, que decorreu este fim-de-semana.

“Venham ouvir a minha história”, diz Jastina, uma menina nepalesa que está em Portugal desde os quatro anos, às outras crianças que assistem à peça. “Eu nasci no Nepal. Sabem onde fica a montanha mais alta do mundo?”, pergunta ao mesmo tempo Prejeena, também nepalesa, às crianças que a rodeiam enquanto aponta no globo o ponto exacto em que se encontra o seu país. Jastina, antes de chegar a Portugal, passou por vários países um pouco por todo o mundo. Teve de ir a Nova Deli, na Índia, para conseguir o seu passaporte. Quando estava a vir para cá, teve ainda oportunidade de conhecer o Dubai, onde viu “uns prédios muito altos”. Está em Portugal com a sua família, depois de ter vivido com a tia em Londres. E na conversa que teve com as outras crianças, contou-lhes todas estas vivências que, para uma menina tão nova, dão uma grande perspectiva da diversidade que se encontra nos mais diferentes lugares.

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É precisamente sobre a questão da diversidade que Rita se debruça. Educar as crianças contra o racismo passa precisamente por lhes incutir o gosto da diversidade. “As crianças que participam na peça já o têm, mas passa-lo às que assistem é fantástico”, refere em conversa com o PÚBLICO.

Entretanto, Artur, de nove anos e com os cabelos encaracolados, chama quem anda pela sala para que se junte a ele no seu globo. É ali que partilha com quem o escuta a sua história: Nasceu no Rio de Janeiro e viveu lá durante seis anos. Depois disso, veio para Portugal. Quando chegou, notou algumas diferenças. Diz que aqui vai encontrando “algumas pessoas conhecidas na rua” e que lá isso não acontecia. Também refere as diferenças nas palavras que se usam por cá: “Banheiro é casa de banho”.

Temidayo é um pouco mais tímido, mas nem por isso deixa de querer contar a sua história aos outros. Alto para a sua idade e com um olhar profundo, fala em inglês enquanto o vão traduzindo à medida que fala. Nasceu na Nigéria, em Lagos. Já está em Portugal há algum tempo, mas ainda não domina o idioma. Tem 11 anos e há dois que vive no país. Foi ele que deu o nome ao espectáculo que apresentam. A sua pergunta surgiu da vivência em Portugal. Já sofreu racismo e, por isso, quis perceber porque é que algumas pessoas claras não gostam de pessoas escuras e vice-versa.

“Posso nascer em Portugal e ser escura?”

Esta foi uma das perguntas feita por Renata, uma menina portuguesa que nasceu em Lisboa. As perguntas foram escritas à mão em panos brancos, esperando serem respondidas pelas crianças da audiência. Estas perguntas, segundo Rita Pedro, resultaram das experiências que as crianças foram acumulando. “A primeira parte do trabalho foi recolher perguntas”, conta. “As crianças começam a aperceber-se, por volta dos oito anos, das diferenças que existem através do comportamento dos adultos. Ou seja, não é tanto uma coisa que nasce delas, mas sim algo que começam a ter consciência olhando os adultos. As crianças vão captando as diferenças e as injustiças através do comportamento dos adultos.”

Chico, para além do Zimbabwe, já conhece África do Sul. Antes de vir para Portugal, viveu uns meses na Noruega. “Nunca vi tratarem tão bem as crianças como na Noruega”. Mas tal como Temidayo, também já passou por situações menos positivas: a senhoria da casa onde vivia com os pais descriminou a sua família por não serem brancos como ela. Numa conversa com Chico e um amigo angolano, a senhoria teve um discurso racista.

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Rita explica que a filosofia pode ajudar a deslocar o problema do racismo. No processo de criação da peça, convidaram várias pessoas com vivências de discriminação – entre elas, alguns pais - para dar respostas até que as crianças percebessem que o problema não está neles, que a ignorância está do lado do outro. Com isto, afirma, “os meninos ganham um sistema de interpretação para perceberem porque é que estas coisas acontecem”.

No decorrer das perguntas, Temidayo, Chico e os restantes amigos aproximaram-se do público com bocados de papel pintados a lápis de cor. Neles, havia vários tons que foram colocados à volta dos braços das crianças convidadas. “Somos da mesma cor do papel”, perguntavam um a um. “Não há preto nem branco. Há sim 12 tons de pele”.

Texto editado por Ana Fernandes