Táxis: "Não somos ingénuos, sabemos que o Governo está a jogar pelo cansaço"

Taxistas vão continuar a manifestar-se e mantêm também o protesto agendado para quarta-feira junto à Assembleia da República, em Lisboa.

Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos
Fotogaleria
nuno ferreira santos

A reunião no Terreiro do Paço entre os representantes sindicais e um assessor do primeiro-ministro António Costa, que decorreu nesta segunda-feira, não trouxe desenvolvimentos significativos para os taxistas. "Não somos ingénuos, sabemos perfeitamente que o Governo está a jogar pelo cansaço", disse Carlos Ramos, presidente da Federação Portuguesa do Táxi (FPT), à saída do encontro. Por isso a paralisação é para continuar. 

Os taxistas estão decididos a continuar o protesto mesmo que não seja, necessariamente, nos moldes actuais — isso será decidido entre todos "hora a hora", diz Carlos Ramos. Foram estas as conclusões de um encontro com o assessor de António Costa para a área económica, Diogo Serra Lopes, que esteve à conversa com os representantes sindicais da FPT e da Antral. "Não fomos recebidos… Bebemos uma garrafinha de água, perguntaram-nos o que queríamos e mais nada", resumiu Carlos Ramos aos jornalistas, à saída do encontro.

Cá fora, ansiosos para ouvir os líderes sindicais estavam centenas de taxistas, que desceram a Praça dos Restauradores até à Praça do Comércio, onde está temporariamente instalado o gabinete do primeiro-ministro. "Costa, escuta, os táxis estão na luta", entoavam em uníssono.

Mas o que pedem os taxistas? "Queremos que haja uma pequena alteração" na lei, que permita aos governos locais fixar contingentes no actual funcionamento das plataformas electrónicas de transporte de passageiros, explica Carlos Ramos. 

O presidente da FPT repete-se: antes da reunião com o gabinete de Costa disse exactamente o mesmo. E, afirma, é o que o sector pede há vários anos. "Desde 2016 que eles sabem o que queremos", frisa. "Nós não queremos o monopólio", afirma Carlos Ramos, "mas não aceitamos que o táxi seja residual" no sistema de transportes das cidades.

À saída da reunião, os próximos passos eram óbvios para Florêncio Almeida, líder da Antral: os taxistas terão de encontrar "novas formas de protesto". "Parados? Isso é que não sei", disse o líder sindical. O protesto vai continuar, "nem que seja até ao ano que vem", garante Florêncio Almeida, que poderá contar com os condutores de Faro e Porto em novas acções de protesto. E está também garantido que, na quarta-feira, irão protestar junto da Assembleia da República.

Em protesto desde as "4h da manhã do dia 19"

No rescaldo da reunião com o assessor de Costa, os dirigentes sindicais falaram com os taxistas que ainda se mantinham em frente ao gabinete provisório do primeiro-ministro, pese embora o calor e o sol. Apesar de poucos — quando chegaram eram cerca de meio milhar, e por aquela altura já só restavam algumas centenas — foram efusivos na resposta: “Nem um passo atrás”, fizeram-se ouvir. A paralisação é para continuar.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

Jorge Mateus, motorista de táxi há 21 anos, veio de Almada e continuará na rua enquanto durarem os protestos. Esteve na Avenida da Liberdade desde o início da acção e, apesar de não ter dormido no carro como alguns dos colegas de profissão, diz que o ambiente foi “sereno” e que “cumpriu com as expectativas dos dirigentes”. Desde que as plataformas como a Uber e a Cabify começaram a trabalhar na grande Lisboa sente uma “grande diferença”: “Tínhamos vários clientes que eram quase habituais e agora quase não os vemos”, resume.

Sente-se abandonado pelos partidos políticos? “Isto está de caras”, antecipa-se Filomena Mateus, ao seu lado, também ela taxista. “Seis dias sem respostas é um abandono total da classe”.

Também Lino Ferreira, motorista há 23 anos na Grande Lisboa, diz que não há muitos partidos para além do PCP do lado do sector do táxi, apesar de acrescentar que “o Bloco de Esquerda também esteve inicialmente”. Duvida que este protesto tenha trazido mais pessoas para o lado dos táxis, mas tem “a certeza que nos últimos dias as pessoas sentiram que o táxi faz falta”.

Ainda assim, Lino e os motoristas que o acompanhavam durante esta tarde consideram que esta manifestação não teve o mesmo impacto do que as de Madrid e Barcelona, cidades espanholas paralisadas por protestos de taxistas. Lino não defende uma medida “à espanhola”, com uma licença para um veículo descaracterizado para cada 30 licenças de táxis: “Teria que se arranjar um equilíbrio entre as duas partes, para que o negócio não deixe de ser rentável”. No entanto, “deve haver um contingente porque quando o turismo estagnar vamos andar às turras uns com os outros, porque não há clientes suficientes”, defende.

Lino esteve no protesto todos os dias mas não pernoitou. Ao contrário de Eduardo, taxista há 37 anos: “Estou na Avenida da Liberdade desde as 4h da manhã do dia 19”, diz em conversa com o PÚBLICO.

A experiência não foi fácil: “É muito duro. Somos quase uns sem-abrigo. Não houve sequer o cuidado de nos pôr umas casas de banho, que foram pedidas, mas que a câmara não disponibilizou. Não ganhamos um tostão. Estamos aqui parados mas não é por gosto”, descreve.

O seu pedido é igual ao de todos os outros: “Esperamos a alteração da lei. Haja o que houver. Estamos cansados mas determinados”.