“Museu interdito à presente administração”: esta manhã protestou-se em Serralves

Perante a imensa fila de visitantes que aguardavam para ver a exposição de Robert Mapplethorpe, um grupo de manifestantes exigiu a demissão de Ana Pinho: “Obscena é a censura”.

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Eram já muitos os visitantes à espera de vez para visitar as imagens de Robert Mapplethorpe reunidas na retrospectiva inaugurada esta quinta-feira à hora em que um pequeno grupo de manifestantes se instalou junto aos portões do Museu de Arte Contemporânea de Serralves para exigir à administração da fundação, na figura da sua presidente Ana Pinho, que se demita.

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Paulo Pimenta

“Museu interdito à presente administração”, lia-se num dos cartazes ainda em execução com que cerca de três dezenas de pessoas, promotoras de uma carta aberta que em poucas horas recolheu perto de 400 assinaturas, quiseram denunciar publicamente a “cultura de medo” que afirmam dominar a instituição, e de que a demissão do director artístico do museu, João Ribas, será, segundo dizem, “apenas um sinal”.

Perante alguns funcionários, que mais uma vez se mostraram disponíveis para contar aos jornalistas, sob anonimato, episódios que dão conta do clima de "intimidação" que garantem viver-se na fundação desde a entrada em funções da actual administração, a académica e curadora Eduarda Neves, primeira signatária da carta, argumentou que "já é altura de as pessoas tornarem público e objectivarem o que nos corredores se ouve dizer sobre o funcionamento deste museu" e defendeu taxativamente a demissão de Ana Pinho, tal como consta da carta que os manifestantes pretendem entregar à administração da fundação na próxima terça-feira.

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Centenas de pessoas rumaram neste domingo até Serralves para verem a exposição Paulo Pimenta

Esta manhã, não havia em Serralves nenhum membro da administração disponível para receber o grupo de manifestantes que, já dentro dos portões, junto à entrada do museu, animou a espera dos muitos visitantes, portugueses e estrangeiros, gritando "Ana, tirana!", "Educar não é censurar" ou "Shame on you!". Divertidos, ou intrigados, os turistas iam fotografando a concentração de manifestantes, que puderam permanecer dentro do recinto da fundação o tempo que entenderam e gritar livremente as suas palavras de ordem, ainda que sem direito a resposta. Esta chegaria algumas horas depois, quando, a ex-ministra Isabel Pires de Lima, um dos nove membros do conselho de administração (e um dos três membros do mais restrito conselho executivo), quebrou o silêncio para desmentir as acusações de ingerência apontadas a Ana Pinho e garantir que o director do museu e curador de Robert Mapplethorpe: Pictures "expôs exactamente o que quis".

Genitais e palavras de ordem

Desmentidas logo na sexta-feira pela administração, através de um curto comunicado, as acusações de que duas das imagens seleccionadas pelo curador terão sido retiradas in extremis da exposição, por ordem expressa de Ana Pinho, quando já se encontravam penduradas na parede, são um dos aspectos que os manifestantes reunidos esta manhã em Serralves se recusam a deixar passar em branco. "Obscena é a censura", escreveram num dos cartazes; noutros liam-se frases como "Educar, não censurar", "Qualquer forma de censura é condenável, administração fora", "Contra a censura, o puritanismo e o medo", "O museu não é lugar de proibição", "Escandalizar é um direito, ser escandalizado é um prazer", "Os meus filhos educo eu", ou ainda "Serralves não é digno de Mapplethorpe". Já depois de transpostos os portões, os manifestantes desenharam genitais nos mapas e nos formulários para adesão ao cartão de amigo de Serralves que a fundação disponibiliza aos visitantes à entrada – e assim a espera de meia hora ou mais até à bilheteira se tornou "menos monótona", gracejava um recém-chegado à fila.

À medida que alguns visitantes se iam aproximando para perguntar como assinar a carta aberta, Eduarda Neves dizia ao PÚBLICO que, mais do que João Ribas, esta exposição ou um acto isolado de censura, "é o próprio Museu de Serralves que está em causa": "A censura é uma das formas de actuação da presidente do conselho de administração de Serralves, como temos vindo a perceber. E o que aconteceu a esta exposição enquadra-se numa contestação mais vasta que tem vindo a construir-se silenciosamente." Lamentando que a instituição tenha vindo a alienar uma das suas funções, a de "contribuir para uma construção crítica", a promotora desta carta aberta diz peremptoriamente que "Serralves é cada vez mais um espaço financeiro" e que o museu precisa com urgência de desencadear "uma auto-reflexão", envolvendo "todos os funcionários, da presidente da administração a quem está na recepção a vender bilhetes".

"Falta de coragem"

A carta aberta lançada às 21h deste sábado e que às 10h deste domingo tinha reunido um total de 389 assinaturas, a que se somaram pelo menos algumas dezenas recolhidas durante o protesto em Serralves, exige aos oito membros do conselho de administração da Fundação de Serralves que se demitam ou, caso considerem não haver “censura”, que procedam ao contraditório: “Não queremos uma administração que censura, mente e coage. Não queremos um museu que não assegura o Estado de direito democrático nem os direitos fundamentais dos cidadãos [...]. Este museu também é nosso.”

Argumentando que a administração mentiu ao afirmar que foi Ribas quem decidiu retirar 20 obras da exposição, reduzindo para um total de apenas 159 a selecção de 179 obras inicialmente prevista, a carta deixa também um recado ao curador: “O director artístico não deveria ter permitido a prévia censura a uma exposição da qual assumiu a curadoria, mesmo que tenha sido coagido a fazê-lo. A exposição não poderia ter inaugurado desta forma. Há falta de coragem.” 

Esta manhã em Serralves, Eduarda Neves fez questão de "sublinhar" que para os signatários o comportamento de João Ribas também "não foi o mais adequado" e que o director do museu e curador da exposição deveria ter-se demitido "no momento em que a presidente do conselho de administração decide interferir na montagem da exposição". Um momento que terá sido registado pelas câmaras de videovigilância instaladas nas galerias do museu, a cujas imagens o PÚBLICO não teve naturalmente acesso, apesar de o ter solicitado. 

Além das imagens que Ana Pinho terá forçado João Ribas a retirar da parede, é imputada à administração a decisão de última hora de substituir a superfície onde inicialmente se previu que fosse projectado o vídeo Still Moving por uma tela de maiores dimensões, vedando quase integralmente a entrada numa das salas reservadas.

A seu lado, o artista Manuel Santos Maia considerava igualmente "deploráveis" as afirmações feitas este sábado pelo presidente da Fundação Robert Mapplethorpe, Michael Ward Stout. "Ao consentir gestos de anulação da obra, ele não defende o legado de Robert Mapplethorpe. O artista pretendia o confronto dos espectadores com estas imagens."

Quanto à expectativa que têm de ver a administração demitir-se na sequência da polémica criada por este caso, e das acusações de totalitarismo que ele expôs, Eduarda Neves, que a 8 de Dezembro orientará em Serralves uma conversa sobre a retrospectiva de Robert Mapplethorpe integrada no programa paralelo da exposição, diz-se "realista": "Não vai ser tarefa simples porque quem exerce assim o poder mantém-se sempre à tona de água." E aponta o dedo não só aos fundadores como também aos artistas e à sociedade civil: "O problema é quando os museus começam a funcionar em função das relações entre elites bancárias. Mas a própria comunidade artística tem de reflectir sobre isso, porque aqui não há inocentes."

Entretanto, outra carta aberta dirigida a Ana Pinho, e condenando a censura da exposição com base em critérios "puramente morais", conta já com mais de 400 subscritores, entre os quais estão os artistas João Pedro Vale, Ana Vidigal, Vasco Araújo e Wolfgang Tillmans, fotógrafo alemão (e vencedor do Prémio Turner) a que Serralves dedicou uma grande exposição em 2016. Ann Gallagher, directora de colecções de arte britânica da Tate, a historiadora Irene Flunser Pimentel, o curador e ex-director do Museu do Chiado Pedro Lapa, o actor e encenador André e. Teodósio e os cineastas João Pedro Rodrigues e Susana de Sousa Dias são alguns dos outros signatários.