Administração de Serralves reage: "João Ribas expôs exactamente o que quis"

Isabel Pires de Lima quebrou o silêncio da fundação sobre a demissão do director do museu. A administradora garante que "foi o curador e só o curador" quem escolheu as imagens de Robert Mapplethorpe agora expostas e escusa-se a comentar as acusações de que a presidente de Serralves gere a casa de forma totalitária.

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PAULO PIMENTA

A administração de Serralves, que se manteve incontactável ao longo de todo o dia de sábado, respondeu ao início desta tarde às perguntas do PÚBLICO sobre a demissão do director do museu, João Ribas, através de um dos seus nove membros, Isabel Pires de Lima, antiga deputada e ministra da Cultura. “Absolutamente surpreendida", a também professora emérita da Faculdade de Letras da Universidade do Porto lembrou que Robert Mapplethorpe: Pictures foi uma exposição escolhida ainda pela anterior responsável artística, a australiana Suzanne Cotter, e que, “desde a primeira hora”, ficou estabelecido que, caso a escolha do curador recaísse sobre “um número significativo de imagens de conteúdos sexualmente explícitos, algumas até com registos de práticas sadomasoquistas, elas seriam concentradas numa ou mais salas reservadas”.

Ribas, garante Pires de Lima, nunca se opôs a que estas fotografias de “conteúdos sexualmente mais complicados” fossem confinadas a espaços de acesso condicionado. “Quando o João Ribas fez aquelas declarações ao vosso jornal, de que não haveria salas reservadas na exposição, eu não percebi o que tinha acontecido porque a decisão no sentido contrário tinha sido tomada no início e ele nunca a tinha contestado. Tem havido salas reservadas noutras exposições deste artista em vários museus do mundo.”

Além do mais, acrescenta a administradora, Ribas aceitou inaugurar a exposição na passada quinta-feira tal como estava – com acesso condicionado, para pessoas com menos de 18 anos, ao acompanhamento de um adulto e duas salas onde os menores não podem sequer entrar – e até conduzir a primeira das visitas guiadas a esta retrospectiva. “O João, que apresentou a sua demissão do cargo de director do museu, nunca se demitiu do de curador desta exposição.”

Quanto às 20 obras de Mapplethorpe que foram retiradas do guião inicialmente previsto pelo director – o percurso tem 159 e não as anunciadas 179 que constam da lista enviada às redacções –, Pires de Lima é taxativa: “A escolha das imagens expostas foi da exclusiva responsabilidade do curador. Completamente. O João Ribas expôs exactamente o que quis, as fotografias que quis. Por que é que à última hora decidiu retirar 20? Não sabemos porquê, terá de ser ele a explicar.”

A administradora, que é também uma das vice-presidentes do conselho e um dos três membros da comissão executiva da fundação, diz que o curador resolveu retirar as imagens já durante a semana de inauguração e sem qualquer pressão da presidente, Ana Pinho. “Tem-se dito que foi pressionado a retirar as imagens por causa do seu conteúdo, mas isso não é verdade. Basta, aliás, ver o conjunto das imagens [excluídas] para perceber que há várias que não são sequer sexualmente explícitas.”

Sobre as acusações de que Ana Pinho mandou retirar especificamente duas das obras que estavam já penduradas na parede. Pires de Lima reitera: “Não foi a Ana Pinho quem escolheu as imagens expostas, foi o curador e só o curador.”

Confrontada também com as declarações de vários funcionários e ex-funcionários da casa que acusam Ana Pinho de “totalitarismo” e de criar um “clima intimidatório” na fundação, dadas a conhecer na edição deste domingo do PÚBLICO, Pires de Lima recusa-se a fazer qualquer comentário: “Não me vou pronunciar a esse respeito.”

Entretanto, os avisos à entrada de Robert Mapplethorpe: Pictures e das salas reservadas, alertando para “para a dimensão provocatória e o carácter eventualmente chocante da sexualidade contida em algumas obras expostas” já sofreram alterações. A principal prende-se com o facto de os menores de 18 anos, quando acompanhados por um adulto, já poderem aceder aos espaços reservados, onde até aqui eram impedidos de entrar por um funcionário.

De acordo com a informação de que Isabel Pires de Lima dispõe, nem os primeiros avisos nem os actuais foram feitos depois de consultada a comissão de classificação da Inspecção-Geral das Actividades Culturais , organismo que, precisa o seu site, é responsável pela classificação etária das obras e conteúdos culturais, entretenimento e espectáculos de natureza artística.

O conselho de administração de Serralves aguarda agora que João Ribas a ele se dirija para explicar por que razão se demitiu do cargo de director artístico do museu. “Estamos à espera que ele nos procure esta segunda-feira, mas não temos ainda nada agendado.”

O PÚBLICO tentou obter de João Ribas uma reacção às declarações de Pires de Lima, mas o director demissionário do museu de Serralves permanece incontactável.