A propaganda do Estado Novo disfarçada de guia de viagens

Vasco Ribeiro mergulha em alfarrabistas de todo o mundo à procura de guias de viagens que mostram uma espécie de Portugal distorcido.

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Nelson Garrido

“Que mudança vir de Espanha para Portugal. Era como voar da Idade Média para o presente. Ao redor vi casas amistosas, caiadas de branco, bosques circunscritos, campos cultivados e, nas estações maiores, era possível tomar refrescos. Era como se houvesse uma súbita sensação de conforto da actual Inglaterra ou do resto do mundo dos vivos.” Hans Christian Andersen também passou por Portugal, também escreveu sobre o país de uma forma elogiosa (Spain: And a Visit to Portugal, 1870), também está na capa de um dos 500 livros — são mesmo à volta de 500 — de Vasco Ribeiro, que um dia se apaixonou pela propaganda.

Assessor de imprensa toda a sua vida e com trabalho académico na área da Comunicação Política, este, chamemos-lhe assim, coleccionador sempre investiu muito em livros do início do século XX que falavam de assessoria de imprensa, conhecida por “publicity”. “No início do século, em particular após a Primeira Guerra, começou a ser a forma de os empresários se promoverem junto da opinião pública norte-americana. Quem construía e moldava a opinião pública era a “publicity”, refere Vasco, professor há 16 anos. “Comecei a ler um livro e outro e a achar muita piada.” Das viagens a Nova Iorque começou a reservar um espaço na bagagem para livros. “Um dia, vejo um guia de Portugal publicado nos Estados Unidos, na década de 50, e comprei. Ao ler, percebo que descreviam Salazar como o ‘benevolente ditador’, o ditador que não é malévolo como Hitler ou Mussolini, que apostou no fortalecimento da economia e na construção de infra-estruturas para o desenvolvimento do país”.

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Depois, “por curiosidade”, foi encontrando em vários livros, em guias de viagens de grandes editoras — como a Fielding‘s e a Fodor’s — esse tratamento, passagens e “formas camufladas” de promover Portugal que o levariam à Torre do Tombo, onde descobre um documento-base de 1956 que é “nada mais nada menos” do que o relatório de cinco anos da relação do Secretariado Nacional de Informação (SNI) com uma agência de comunicação que tinha sede em Nova Iorque (George Peabody and Associates), um levantamento de “notícias positivas sobre Portugal ‘plantadas’”, um relatório do qual constam inclusive livros infantis e compêndios de culinária.

"Na década de 50, esta empresa tinha uma avença de 4900 dólares por mês. Era um peso de investimento muito grande", reflecte Vasco Ribeiro, que foi riscando nessa lista os livros que já tinha e assinalando aqueles que queria ter. "Batia certo", pensou Vasco ao destrinçar o esquema que envolvia Salazar de uma forma directa e "outros protagonistas " que "a história, de certa forma, desconhece" — e que ia muito além da influência de António Ferro, já que o homem forte da propaganda do regime saiu em 1949.

"A Peabody tinha sede em Madison Avenue naquela fase Mad Men. Portugal era cliente destas grandes empresas. É assustador", conclui Vasco Ribeiro, que na exposição Porto Sentido de fora – Livros e guias de viagens sobre o Porto entre Monarquia Constitucional e Estado Novo (1820-1974) revela (juntamente com Elisa Cerveira e Emília Dias da Costa) a parte de um todo — e ainda "oito guias turísticos que fugiram às garras do controlo propagandístico": "Portugal, terra de palácios e de pobreza, sol brilhante e censura"; "A vida em Portugal é um pesadelo para quem gosta de liberdade" (Portuguese Panorama, Oswell Blakeston, 1955).

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A sua colecção tem, grosso modo, 500 exemplares, guias de viagens editados no estrangeiro, livros escritos por convidados do Estado — e muitas vezes assinados por um pseudónimo. Vasco concentra-se a partir da Implantação da República em 1910. "O maior incremento e promoção turística em Portugal é durante a Ditadura Militar e Nacional." Procura "essencialmente" século XX até 1974. Mergulha em alfarrabistas (em Portugal, na Internet e sempre que explora o mundo) à procura daquilo a que chama "artifícios" para "gabar" Portugal. "Também gosto de publicações do SNI e da Agência Geral do Ultramar, que editava e traduzia guias turísticos em que procurava mostrar Portugal, um país que, ao contrário dos outros colonizadores, agregava raças e onde se vivia um ambiente de coesão perfeita e colonização idílica", junta. "Vejo-me a pedir até 1976, 77", confessa. Afasta-se dos guias em série mais recentes, "plásticos, artificiais e mais instantâneos".

“Actualmente [Portugal] é uma ditadura, não sinistra e malvada como a Alemanha e Itália no tempo da guerra, mas talvez a soberania mais benevolente do mundo”, escreve Temple Fielding, no seu livro Fielding’s Travel Guide to Europe (1955). Em Fátima - Pilgrimage to Peace (1954), o casal April e Martin Armstrong classificam o Estado Novo como um regime “hibrido entre o autoritarismo e a democracia” e Salazar como um salvador cristão que “reconstruiu a economia da nação, acabou com a anarquia e trouxe ordem”.

"Os guias", prossegue, "não são só bons para falar de Comunicação Política. Podemos fazer levantamentos no ponto de vista de estudo na área da Geografia, da Cartografia, do Turismo, da Gastronomia, da Etnografia, da Arquitectura, do Património, da Sociologia... é um cocktail de informações." São quase sempre patrocinados. "E o seu discurso está quase sempre assente em tradições populares, em Fátima e Sintra, no endeusamento de Salazar e na descrição de um regime idílico."

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