Entrevista

Imigrantes: “Há certas pessoas” a quem a Europa deve negar a entrada

Nos países ocidentais “muitas igrejas estão vazias”, lamenta o braço direito do líder da Igreja Ortodoxa Russa. Atribui a tendência à educação das crianças e a uma maior influência do islão

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Nuno Ferreira Santos
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O arcebispo russo Hilarion Alfeyev, metropolita de Volokolamsk e segunda figura da hierarquia da Igreja Ortodoxa Russa, considera que alguns imigrantes deviam "receber respostas negativas aos seus pedidos" de residência ou asilo nos países cristãos ocidentais. O teológo e compositor de 52 anos, que preside ao departamento para as Relações Exteriores do Patriarcado de Moscovo, esteve esta semana em Portugal. Numa conferência na Universidade Católica de Lisboa, voltou a um tema que lhe é caro: a cooperação de católicos e ortodoxos na defesa dos cristãos perseguidos no Médio Oriente. Apontado como provável sucessor do patriarca Kirill, na liderança da Igreja Ortodoxa russa, D. Hilarion Alfeyev foi recebido pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa em Lisboa e pelo cardeal D. António Marto no Santuário de Fátima onde esteve pela primeira vez. 

A sua visita acontece numa altura em que cresce a presença de ortodoxos em Portugal. Isso acontece por via da permanência de ucranianos neste país?
A presença ortodoxa em Portugal está certamente a crescer. Há 20 anos, esta presença não era praticamente notada. Agora há 20 paróquias no país, sobretudo de ucranianos e russos, gregos e moldavos.

Quando diz que no Ocidente há cada vez menos cristãos praticantes, di-lo como uma crítica?
Não é uma crítica, mas um simples facto. É uma estimativa em dados publicados, e um facto também sustentado pelo que oiço [de figuras] da hierarquia da Igreja Católica em vários países ocidentais. Todos apresentam este mesmo retrato. Há cada vez menos vocação para padres, cada vez menos vocação monástica. Também vemos muitas igrejas vazias.

O que explica esta tendência?
A principal razão é a crescente secularização da sociedade ocidental, a educação dada às crianças, que praticamente exclui a Igreja e os valores cristãos. Enfrentamos este desafio em todos os principais países ocidentais.

Além deste, que outros desafios se apresentam ao Cristianismo?
Há muitos. Um é o crescente secularismo, o outro é a crescente influência do islão, o crescente número de seguidores do islão na Europa ocidental, resultante, do meu ponto de vista, de uma política de imigração peculiar.

Porquê peculiar?
Peculiar porque esta política, na maioria dos países, não distingue a filiação religiosa das pessoas que são admitidas no país, e por conseguinte a sua identidade cultural é de certa maneira ignorada. Existe um pressuposto de que as pessoas, uma vez admitidas e quando lhes seja dada a nacionalidade, integrar-se-ão na sociedade local, o que em muitos casos não está a acontecer. Muito frequentemente, estas pessoas vivem numa espécie de gueto, organizam-se de uma maneira especial, e querem viver de acordo com os seus padrões, em vez de viverem de acordo com os padrões do país que as acolheu.

Qual a solução?
Não posso fazer recomendações às autoridades estatais sobre como lidar com isto. Apenas posso falar das consequências da política de imigração, que não tem em consideração a identidade cultural e religiosa das pessoas que aceita.

E devia ter mais em consideração?
Suponho que sim. A política de imigração não pode permitir que qualquer pessoa que deseja viver num determinado país [o faça] de forma indiscriminada. Há certas pessoas que têm de receber respostas negativas aos seus pedidos [de residência ou de asilo]. Muito frequentemente ouvimos e vemos as pessoas que imigram para a Europa. São sobretudo homens, jovens. A questão é: porque vêm para aqui? O que vêm fazer? Querem integrar-se? Muitos não querem. E, na maioria dos países, como por exemplo na Alemanha, isto cria problemas significativos.

Está a defender que certos pedidos de entrada num país deveriam ser negados a cidadãos de países muçulmanos?
Já disse o suficiente sobre o assunto.

Qual o maior desafio para a Igreja Ortodoxa russa em particular, tendo em conta o passado de perseguição que sofreu durante os 70 anos de comunismo?
A nossa Igreja viveu, durante 70 anos, uma situação de perseguição, e esta foi mais horrenda nos anos 1920 e nos anos 1930, quando praticamente toda a sua infra-estrutura foi destruída. Muitas igrejas foram destruídas, muitas foram fechadas e os padres e os bispos, na sua maioria, foram executados. A Igreja ficou quase reduzida a zero.

Esse passado também a reforçou?
Durante a II Guerra Mundial, a situação começou a mudar, um certo grau de existência foi permitido à igreja e, nos anos 60, houve uma nova vaga de perseguições. Esta experiência contribuiu, em grande medida, para a nossa identidade espiritual. Somos uma igreja que emergiu das perseguições, mas não emergiu enfraquecida pelas perseguições, mas mais forte.

Isso é visível?
Nos últimos 30 anos, assistimos a um ressurgimento sem precedentes da vida espiritual e monástica. Tínhamos, há 30 anos, seis mil paróquias da Igreja Ortodoxa russa, e agora temos 36 mil. Significa que, todos os anos, abrimos mil novas igrejas. O mesmo é dizer que, por dia, são abertas três novas igrejas.

Este ressurgimento também tem a ver com o envolvimento da Igreja na sociedade e no empenho em manter a tradição?
A Igreja assume uma posição muito activa na vida social, através da caridade. As igrejas não estão só envolvidas no acompanhamento espiritual das pessoas, mas também, em muitos casos, assume responsabilidade pelo seu bem-estar, como por exemplo dos órfãos, ou mães que foram abandonadas pelos maridos. E a igreja criou toda uma infra-estrutura pelo país para ajudar estas pessoas marginalizadas.

E assume posições fortes em defesa da tradição, e contra o aborto ou a homossexualidade.
Sim, assumimos posições fortes. Somos contra o aborto, consideramo-lo um pecado. Somos contra qualquer propaganda a favor da homossexualidade, ou da legalização do que chamam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Obviamente, não somos a favor de nenhum tipo de perseguição de pessoas homossexuais. Simplesmente, acreditamos que a Igreja deve assumir as posições baseadas nos ensinamentos de Jesus Cristo, dos apóstolos e da tradição da Igreja. Não acreditamos que a Igreja deve adaptar o seu ensinamento às modas dos tempos, a tendências e correntes várias.

A doutrina moral permanece a mesma. Qual a percepção que tem sobre a forma como a Igreja Católica lida com estas correntes?
Considero que a Igreja Católica, em muitas questões, assume a mesma posição. E, por isso, penso que nos devemos aproximar, explicar as nossas posições e formulá-las de forma conjunta. Foi o que foi feito pelo papa Francisco e o patriarca [de Moscovo e de toda a Rússia] Kirill no encontro em Havana em 2016. Assinaram uma declaração conjunta sobre várias questões morais e sociais. Uma coisa é a doutrina moral, outra é a prática pastoral. Podemos ser estritos na doutrina moral, e não na doutrina pastoral. Também temos [como a Igreja Católica] homossexuais entre os nossos párocos e não lhes dizemos que devem afastar-se da Igreja. A homossexualidade é um pecado, num contexto em que há vários pecados e cada pecador é aceite pela Igreja com amor e atenção.

É perdoado?
Sim.