Número dois da Justiça quis gravar Trump e reunir apoios para o destituir, diz New York Times

A notícia foi avançada pelo New York Times, que cita fontes próximas. Rod Rosenstein, vice-procurador geral, nega.

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Rod Rosenstein Reuters/Joshua Roberts

O vice-procurador geral norte-americano, Rod Rosenstein, sugeriu, nos dias que se seguiram ao despedimento de James Comey da direcção do FBI, a possibilidade de usar uma escuta para gravar conversas com Donald Trump. O objectivo: expor o caos em que estava mergulhada a Casa Branca, revelou nesta sexta-feira na edição online o jornal The New York Times. Mais: Rosenstein encetou uma campanha para recrutar altos funcionários com o propósito de a 25.ª emenda da Constituição, que prevê a destituição do Presidente. 

A notícia do New York Times cita fontes próximas do número dois do Departamento de Justiça norte-americano.

Num raro comunicado emitido logo a seguir à publicação da notícia, Rod Rosenstein desmentiu o jornal nova-iorquino, que diz ser “imprecisa” e “factualmente incorrecta”. Negou estar a fazer contactos para destituir Trump e sublinhou que, baseado na sua experiência pessoal com Trump, “não há bases para se invocar a 25.ª emenda”.

Rosenstein foi um dos protagonistas involuntários do afastamento de Comey. O vice-procurador geral foi um dos altos funcionários da Administração chamados por Donald Trump à Sala Oval, para discutir o despedimento. Ao contrário de outros, o vice-procurador-geral não se opôs à decisão do Presidente de o despedir — pelo contrário, ofereceu-se para escrever um memorando sobre a investigação aos e-mails de Hillary Clinton, que Comey chefiava. Esse memorando foi usado como argumento para o despedimento e deu argumentos aos democratas para criticarem Rosenstein, por ter dado uma justificação racional a Trump para se desfazer do director da polícia federal. 

Comey foi despedido em Maio de 2017. E seguiram-se dias difíceis. 

Quando o despedimento se efectivou, chegou a hora de escolher um substituto. De acordo com o jornal nova-iorquino, o processo de escolha do novo director estava a tornar-se frustrante para Rosenstein porque o Presidente não o estava a levar a sério. De acordo com as fontes do New York Times, terá mesmo dito que este era um exemplo das dificuldades pelas quais passava a Casa Branca. Por isso, sugeriu que se usasse uma escuta durante o processo.

Rosenstein, diz o jornal, sugeriu usar um telemóvel ou pedir a Andrew McCabe, que viria a ser director interino do FBI até à escolha de Cristopher Wray, que tentasse gravar Trump. A ideia não foi para a frente, mas de acordo com as fontes ouvidas pelo NY Times, Rosenstein estava a falar a sério quando aflorou estas possibilidades.

O mesmo aconteceu quando começou a falar de invocar a 25.ª emenda, que permite que o vice-presidente ou a maioria dos responsáveis da Casa Branca declarem o Presidente “incapaz de executar os poderes e os deveres da sua posição”. Rosenstein tinha conseguido, segundo dizia, recrutar para esta missão o procurador-geral, Jeff Sessions.

É a primeira vez que surge uma notícia a nomear um alto funcionário do Governo a sugerir a possibilidade de se invocar a 25.ª emenda. Há, no entanto, dados que apontam para outras iniciativas idênticas — nomeadamente o autor anónimo do artigo de opinião do New York Times, publicado no início de Setembro.

Actualmente, Rosenstein estava a cargo da supervisão da investigação de Mueller, sobre a possibilidade de conluio russo nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016 e assegurou, recentemente, a cooperação do antigo director de campanha de Trump, Paul Manafort, no âmbito dessa investigação.