Editorial

Santana e o partido que é uma emoção

Se o Aliança é apenas, pelo que se viu até agora, o resultado de mais um arroubo de paixão “low cost”, “high profile” e “paper free” de Santana, há qualquer coisa de cativante na imagem de perdedor resistente, quase romântica, que Santana Lopes faz questão de continuar a exibir. Esta emoção cativará alguém. É esperar.

Ay corazón: este suspiro saía da boca de Santana Lopes enquanto calcorreava as ruas da Baixa durante a campanha para a Câmara de Lisboa, em 2001, a única vitória politicamente relevante que teve na vida. Ay corazón. É difícil arranjar melhor expressão para caracterizar o trajecto político de Santana, essencialmente movido a espasmos do coração. 

Até ver, o Aliança, o novo partido lançado ontem, é apenas um produto do turbilhão emocional que constitui a mais profunda essência de Pedro Santana Lopes. Santana não explicou como é que mudou de ideias em três meses — do dia em que no congresso apelou à unidade do partido até ao momento em que decidiu sair do PSD —, porque, na realidade, as emoções raramente têm explicação. Acontecem e pronto, mais ou menos como as paixões. Santana continua apaixonado pela política e deu-lhe para isto. 

O que ontem Santana Lopes foi entregar ao Tribunal Constitucional não foi um partido, foi uma emoção. Veja-se o que Santana Lopes disse à saída: “O Aliança é um partido que vem criar bom ambiente em Portugal.” O que é “bom ambiente”? O Aliança é um partido do feng-shui? O bom ambiente é, como as emoções e as paixões, uma coisa de difícil definição racional. 

Santana consegue ainda ir mais longe nesta disfuncionalidade entre a razão (a lei) e o coração, quando atira para cima dos ombros de Marcelo Rebelo de Sousa um caderno de encargos totalmente incompatível com as funções constitucionais do cargo de Presidente da República. Vindo de um homem que é autor de livros sobre o sistema político-constitucional português a proposta parece bizarra:  “O senhor Presidente da República pode e deve usar toda a popularidade que conseguiu para mudar a sociedade portuguesa, para fazer reformas que há muito são necessárias — reformas do sistema eleitoral, da Justiça, da produtividade, mas também das questões das pessoas.” Ora, Santana sabe que estas reformas cabem umas ao Parlamento, outras ao Governo e que o nosso sistema dá ao Presidente poderes de influência e bomba atómica, mas não estes, por muito que Santana até defenda um presidencialismo à francesa. 

Se o Aliança é apenas, pelo que se viu até agora, o resultado de mais um arroubo de paixão “low cost”, “high profile” e “paper free” de Santana, há qualquer coisa de cativante na imagem de perdedor resistente, quase romântica, que Santana Lopes faz questão de continuar a exibir. Esta emoção cativará alguém. É esperar.