Empresas familiares criam emprego, mas resistem à mudança

O estudo “Empresas familiares da região Norte” indica que muitas destas empresas conseguiram aumentar o número de trabalhadores nos últimos três anos da troika. Por outro lado, têm pouca abertura para mudanças na gestão e na estrutura accionista. Há mais homens empresários, mas mulheres são mais qualificadas.

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Rui Gaudencio

A maioria das empresas familiares do Norte conseguiu, entre 2013 e 2016, ainda com a troika em Portugal – deixou o país em 2015 -, estabilizar ou aumentar o número de trabalhadores ao seu serviço, mas tem revelado dificuldades em inovar, em operar mudanças nos cargos de gestão e em abrir o capital social a elementos externos à família proprietária.

Estas são algumas das conclusões do estudo “Empresas familiares da região Norte. Mapeamento, retratos e testemunhos”, coordenado por Ana Paula Marques, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (UM), e apresentado na quarta-feira, no auditório do Centro Internacional de Artes José de Guimarães, em Guimarães.

Financiado pelo Norte 2020, o estudo reuniu, entre 2016 e 2018, uma base de dados com 41.496 empresas familiares, valor que corresponde a 10,4% do total do Norte no passado mês de Fevereiro, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). A base de dados mostra que, à semelhança da população – cerca de 3,6 milhões de pessoas -, o grosso das empresas familiares está sediada no litoral, com destaque para a Área Metropolitana do Porto, com 51,6% do total, seguida das NUTS III do Cávado (12,6%) e do Ave (11,6%). As NUTS III mais para interior (Douro, Alto Tâmega e Terras de Trás-os-Montes) perfazem 8,6% do total (as NUTS dizem respeito à Nomenclatura de Unidades Territoriais para Fins Estatísticos).

A partir dessa distribuição geográfica, foi realizado um questionário a 1148 entidades, a partir do qual se concluiu que 47,8% das empresas familiares manteve o número de trabalhadores e que 42,8% aumentou-o. A criação de emprego foi mais evidente nas empresas com mais de 50 trabalhadores - 68% conseguiu fazê-lo – e nas empresas pequenas, entre 10 e 49 (63%). Embora a base de dados indique que 74,2% das empresas familiares não exporta e que apenas 4,7% exporta mais de 75% da sua produção, o questionário também revela que as exportações, em 2016, aumentaram em 50,4% das firmas e diminuíram apenas em 12,8%.

“Os dados permitem-nos afirmar que há um peso muito importante das empresas familiares na criação de emprego. Elas contribuem em 50% para a criação de emprego no país, numa estimativa geral”, afirmou Ana Paula Marques, após a apresentação dos resultados. A socióloga da UM frisou ainda que as empresas familiares “conseguiram manter e aumentar os trabalhadores durante o período da troika”.

No entanto, os proprietários destas organizações são, por norma, avessos à entrada de gestores ou de accionistas que não pertençam à sua família. Em 94,3% das 1148 empresas incluídas no questionário, as famílias proprietárias detêm a maioria do capital social. Em 44% dos casos, aliás, as famílias detêm todo o capital. Os resultados mostram ainda que só 16% das empresas pondera mudar a estrutura accionista e que apenas 22% pensa em fazer alterações nos lugares de gestão, nos próximos três a cinco anos. Mas tais mudanças são motivadas, respectivamente, pela transferência de propriedade entre familiares (65% dos casos) e pela entrada de uma geração mais nova para a administração (74%).

A coordenadora do estudo realçou que há uma “ligação muito grande” entre família e negócio, até porque a família, muitas vezes, é o alicerce que suporta a “ousadia” dos empresários para embarcarem em “projectos empreendedores”. Ana Paula Marques lembrou também que muitos empresários entendem ter as competências necessárias para uma gestão profissional, e, talvez por isso, não se mostrem interessados em abrir as portas a membros externos. A socióloga alertou, no entanto, que a falta de uma “gestão mais profissionalizada”, no sentido de haver “um olhar externo, desapaixonado”, pode criar um “foco de conflito”.

Com base na ideia do especialista em empresas familiares, Manuel Bermejo, a socióloga realçou que a figura do consultor externo poderia ajudar. “Era importantíssimo haver uma espécie de consultor, um membro que, em certas ocasiões, dissesse aos gestores que o plano de negócios não é o mais exequível. Um membro externo poderá estar mais legitimado a fazê-lo”, explicou.

A base de dados revela ainda que somente 3,1% das empresas familiares factura mais de cinco milhões de euros por ano – a maioria (65%) tem um volume de negócios inferior a 250.000 euros - e que 92% das empresas são sociedades por quotas.

Expectativa de mais inovação

O estudo revela ainda que há mais homens nos cargos de gestão das empresas familiares do Norte, apesar das mulheres serem mais qualificadas, e que a aposta na inovação tem sido baixa, apesar das expectativas de crescimento. Os resultados do questionário mostram que 65% dos cargos de gestão são ocupados por homens, dos quais apenas 38% completou o ensino superior. As mulheres, por seu turno, apresentam uma taxa de habilitações superiores de 60%. Das empresas inquiridas, 57% conta com, pelo menos, uma mulher na gestão, mas a percentagem de mulheres com funções executivas concretas cai para 28%.

O estudo mostra também que 89% das empresas não tem departamento de inovação e desenvolvimento e que 84% não participou em qualquer processo de inovação nos últimos três anos. O número de empresas sem registo de propriedade intelectual, certificação de qualidade ou sistema de avaliação ultrapassa os 70%, e apenas pouco mais de um terço consegue (36,7%) – sobretudo organizações com mais de 20 anos - consegue chegar ao mercado internacional

Ana Paula Marques disse, no entanto, que a tendência para o aumento das qualificações nas gerações futuras pode aumentar a dinâmica das empresas familiares e alimentar expectativas de “inovação, internacionalização e conquista de mercados além-fronteiras”.