Crítica

Troianas redux

As Troianas de novo trazidas à vida por Hélia Correia e Jaime Rocha não são uma adaptação, uma releitura, nem uma visão paródica. São um confronto desafectado e corajoso com o legado clássico sem camuflagens, nem deslumbramentos.

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As falas femininas ficaram a cargo de Hélia Correia e Jaime Rocha foi responsável pelas deixas das personagens masculinas Nuno Ferreira Santos e NFACTOS/Fernando Veludo

Não é a primeira vez que Hélia Correia e Jaime Rocha assinam um livro em co-autoria. A Pequena Morte/Esse Eterno Canto (Black Sun Editores, 1986) constituía um díptico em que A Pequena Morte era um ciclo de poemas de Hélia Correia, e Esse Eterno Poema, um núcleo poético de Jaime Rocha. Em As Troianas, algo semelhantemente, as falas femininas ficaram a cargo de Hélia Correia, e Jaime Rocha foi responsável pelas deixas das personagens masculinas. De resto, na obra de ambos os autores, a Grécia do Classicismo é presença profundamente arraigada. No caso de Hélia, pense-se nas peças Rancor — Exercício sobre Helena (Relógio D’Água, 2000) e Desmesura — Exercício com Medeia (Relógio D’Água, 2006), mas também na poesia de A Terceira Miséria (Relógio D’Água, 2012), exemplos notáveis de uma exploração moderna, informada mas não subserviente da grande tradição grega. A produção de Jaime Rocha patenteia as peças teatrais Agamémnon — A Herança das Sombras (Fluir Perene/Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, 2012) e Filoctetes — A Condição do Guerreiro (Fluir Perene/Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, 2012), outros tantos casos notáveis de uma ponderação atenta e lúcida da herança clássica (aos quais se juntará uma peça dedicada a Aquiles, que há-de fechar uma projectada trilogia). Destas novas Troianas se poderia dizer o mesmo que José Ribeiro Ferreira, ao prefaciar Agamémnon — A Herança das Sombras: “Jaime Rocha encaminha a dramatização, com afirmações aqui e além, para mensagens novas e construiu uma visão nova de boa parte das personagens”. Porque nesta peça não se trata de uma revisitação tranquila, nem de uma contemplação estática. Mesmo um pormenor aparentemente inocente, como o nome do filho de Aquiles mostra que Hélia Correia e Jaime Rocha não se limitaram a revisitar linearmente As Troianas de Eurípides (Edições 70, 1996, trad. Maria Helena da Rocha Pereira). Se, na peça euripidiana, o filho do guerreiro se chama Neoptólemo, na peça de Hélia Correia e Jaime Rocha recebe o seu nome alternativo, Pirro, como nas Troianas de Séneca (Centro de Estudos Clássicos, 2014, trad. Ricardo Duarte); além disso, ele é, em Eurípides, simples referência aludida, ao passo que, nestas novas Troianas, constitui uma das pessoas do drama. De resto, o elenco das personagens na peça de Hélia Correia e Jaime Rocha não é a transposição exacta da peça grega. Apenas a título exemplificativo, Hélia e Jaime suprimiram a personagens de Poséidon e de Atena, mas acrescentaram o espectro de Aquiles, como na Políxena, de Sófocles, que não chegou até nós, e que, conforme ensina Ricardo Duarte (As Troianas), “incluiria uma aparição da sombra de Aquiles a exigir a morte de Políxena”, tal como sucede nestas novas Troianas. Uma peça que, de acordo com Delfim Leão no seu prefácio, configura “um drama notável, que brilha com luz própria e desenha em cuidada filigrana verbal a complexidade imensa da Hélade” (p.20). Hélia Correia e Jaime Rocha acrescentaram ainda um “Coro de Lobos” à sua peça, uma licantropia que lembra que, numa das versões do mito, Hécuba, um dos núcleos das Troianas, era transformada em cadela. Por outro lado, em Deuscão (Deuscão, seguido de O Televisor SPA, 1988), de Jaime Rocha, as personagens eram um híbrido de homem e cão. Esta metamorfose alia, ainda, a violência da animalidade ao furor destrutivo do ser humano.

O cerne trágico das Troianas encontra-se numa das falas de Cassandra, quando a filha de Hécuba sintetiza o destino nefasto das cativas troianas, depois da queda de Ílion: “servas e princesas/ princesas-servas” (p.42). A “ironia trágica” do Fado que coube à fina-flor de Tróia é terem elas sobrevivido para serem cativas, escravas de guerreiros vitoriosos — despojos de guerra que foram soberanas. Toda a peça se faz por intermédio dessa agonia, da espera e da antecipação de um extermínio que chegará pela suprema humilhação. Cada uma das sobreviventes à destruição de Ílion sofre de maneiras diferentes a desdita. Cassandra encarna em si mesma uma predestinação de áugure e de vítima da sua própria ciência da insânia. Presciente da desgraça geral, enlouquecida pelas visões de um futuro de destruição, já em Ésquilo ela afirmava: “É a minha própria dor que gemo” (Agamémnon, Artefacto, 2012, trad. José Pedro Moreira). Nas Troianas, ela é, justamente, o instrumento e o alvo da inevitabilidade do mal: “Pior que o mal é conhecer o mal./ É tê-lo não aqui (no estômago) mas na cabeça/ dentro dos olhos.” (p.42) A matriarca, Hécuba, é a personagem na qual mais cruelmente se concentram os infaustos acontecimentos que se abatem sobre Tróia. Resta-lhe assistir ao seu próprio supliciamento, e das suas filhas, das quais Políxena será mesmo sacrificada em honra de Aquiles, e por exigência da sombra do guerreiro morto. A tudo se terá de submeter a rainha de Tróia tornada prisioneira que, no seu desespero, clama por um passado alternativo de esterilidade que eliminasse a necessidade de ver destruídas e vexadas as suas esperanças e o sangue do seu sangue — “Tivesse eu sido infértil, oh, tivesse…” (p.26) Esta é a mulher destruída que, em Eurípides, clamava: “Dói-me o corpo de jazer nesta desgraça.” (As Troianas). A outra das filhas de Hécuba, Andrómaca, não cabe destino melhor. Forçada ao sacrifício do filho, por receio grego de um futuro varão vingador, a viúva de Heitor terá de assistir aos últimos momentos de Astíanax: “Ó filho, bebe/ agora não o leite mas a morte, morte/ com cheiro a mãe, morte amantíssima,/ um xaile negro que há-de proteger-te,/ porque te assassinei, dos assassinos.” (p.100). Neste passo, que é um dos mais pungentes de toda a peça, a desdita de Andrómaca talvez ultrapasse em dureza o famoso apelo de Lady Macbeth à “castração” do seu sexo, à aniquilação da feminilidade. O padecimento de Andrómaca iguala, pelo extremismo da sua dureza, a ira insana de uma Medeia filicida. Mas o destino pessoal das cativas de Tróia é o emblema terrífico de um legado geral de guerras e destruição. Quando Eurípides ousou apresentar aos gregos seus contemporâneos os desmandos e as iniquidades do seu remoto passado comum, terá levado à letra a ideia de uma catarse. Pelo que, retomando as palavras de Delfim Leão, é da “complexidade imensa da Hélade” que se trata.

Quando o Coro das Cativas [troianas] pronuncia “Feliz daquele que sem pátria erra/ e do lugar onde nasceu se esquece” (p.31) faz-se eco de um poema de Joachim du Bellay: “Feliz quem como Ulisses fez tão bela viagem/ Ou como o que buscou e conquistou o Tosão,/ E prenhe regressou, de ciência e de razão,/ A viver entre os seus o mais desta passagem.” (Poesia de 26 Séculos, trad. Jorge de Sena, Fora do Texto, 1993). Contrariamente ao grego Ulisses, que vagueia em busca da sua casa e que, mesmo após uma década de contrariedades, chega a porto seguro e a sua casa, as Troianas sairão da sua terra para o cativeiro e para uma morte pior que a morte: a da servidão que aniquila a sua dignidade e condição humana. Uma situação dilacerante e paradoxal à qual as prisioneiras troianas hão-de dar expressão, numa sugestão subtilmente camoniana. O soneto cujos dois primeiros versos são “Tanto de meu estado me acho incerto,/ que em vivo ardor tremendo estou de frio” parece perpassar pelas palavras das cativas: “Mas ai, eu sinto e lembro e, estranhamente, sob esse sol de Verão tremo de frio” (p.31). Essa temperatura contraditória e excruciante é a imagem eloquente e decisiva do destino amargurado de Ílion. À soberania sucede o cativeiro.