Crítica

No porto de Marselha, o crepúsculo

O idealismo operário, a solidariedade e fraternidade de classe- uma pequena crónica/demonstração/reflexão da dissolução contemporânea desses valores.

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Personagens (actores maravilhosos, ainda por cima) a debaterem-se com as suas memórias: A Casa Junto ao Mar
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Os acasos da distribuição continuam a produzir alguns efeitos curiosos. Se uma das “revelações” do Verão foram os filmes de Marcel Pagnol (o cineasta por excelência do regionalismo do sul de França, do midi e de Marselha), eis que estreia, quando de Pagnol ainda se pode ver em cartaz A Filha do Poceiro, um filme do mais marselhês dos cineastas franceses contemporâneos, Robert Guédiguian. Não quer dizer que se trate sempre de Marselha com Guédiguian, e as suas intermitentes chegadas ao circuito comercial português já o mostraram em ambientes bem longe dali, como no belo filme sobre os últimos dias de Mitterrand, Um Passeio pela História. Mas em A Casa Junto ao Mar é mesmo em Marselha que se está, uma Marselha esplendorosa e crepuscular, feita da realidade presente e de uma memória que pode ser mais ou menos mitológica mas que está na raiz do contraste entre o esplendor e o crepúsculo.

Sempre ligado ao idealismo operário, às noções de solidariedade e fraternidade de classe, Guédiguian conta aqui — aliás como no último filme dele que por cá se estreara, As Neves do Kilimanjaro — uma pequena crónica/demonstração/reflexão da dissolução contemporânea daqueles valores. É a história do reencontro de três irmãos (Darroussin, Ascaride, Meylan, actores habitués da companhia de Guédiguian), que vêm cuidar do velho pai, que na primeira cena do filme vemos a ter uma crise cardio-vascular que o deixa afásico e quase paralisado. O pai, de forma militante, fundara e gerira um restaurante “popular”, numa pequena e magnífica enseada nos arredores de Marselha, a pensar nos bolsos desfavorecidos de operários e pescadores. Os filhos (sobretudo Darroussin e Ascaride, que foram viver para outras cidades) perderam o contacto com aquele mundo; e a cidade também perdeu, visto que o que dantes eram habitações “pobres” são agora casas de férias para os burgueses citadinos. Esta “terraplanagem” social, inerente à transformação de tantas cidades europeias, está no centro do filme, mas também há fenómenos novos: os soldados, armados como se estivessem num cenário de guerra, que em diversos momentos cruzam o filme patrulhando a costa, lembram que se passou a ter um pânico mortal daqueles que vêm do mar — e se o tema da “crise migratória” é dado por estas pinceladas no horizonte, o filme não terminará sem o materializar de uma forma mais expressiva, com a chegada à narrativa de três miúdos vindos do mar (cujo papel será sacudir as personagens principais, rememoriá-las, fazê-las reencontrar a solidariedade e a fraternidade).

Um pouco maniqueísta? Evidentemente, e deliberadamente. Mas o maniqueísmo não é necessariamente esquemático, e não há nada de esquemático nestas personagens (são actores maravilhosos, ainda por cima) que passamos o filme inteiro a ver debaterem-se com as suas memórias, com os seus desprendimentos, com as suas raizes, perante o olhar silencioso do pai. Um dos momentos mais bonitos acontece quando Guédiguian monta (ao som do I Want You de Dylan) um fragmento de um filme seu dos anos 80, exactamente com os mesmos actores, exactamente no mesmo sítio — não é “nostalgia” é so uma expressão poderosa de um sentimento de perda, e quando volta do flash back para a narrativa contemporânea Guédiguian corta para um céu nocturno tapado pelas nuvens. Questão de cortes e contrastes: também podia terminar o filme — e parece que o vai fazer — com os planos dos miudos sorridentes (e ficar, portanto, com a “esperança”), mas à imagem deles sucede-se, como derradeira imagem do filme, o velhote na sua cadeira, perante um mar iluminado pelos tons acastanhados do crepúsculo.