ADN localiza três cartéis que traficam marfim em África

Um dos grandes perigos para os elefantes é a caça furtiva pelo marfim. Agora, foram desenvolvidas novas técnicas genéticas e forenses para identificar os principais cartéis responsáveis pelo comércio ilegal de marfim.

Foto
Estima-se que entre 2005 e 2015 a caça furtiva pelo marfim tenha sido a principal causa de morte dos elefantes Karl Ammann

Se há crime que ameaça os elefantes em África é o tráfico de marfim. Por que não resolver este crime juntando técnicas genéticas e análise forense, ou seja, fazendo uma espécie de CSI? Foi isso que uma equipa de cientistas dos Estados Unidos, do Quénia e da Malásia fez e apresentou esta quarta-feira num artigo científico na Science Advances. Desta forma, conseguiu-se detectar três grandes cartéis que traficaram marfim para fora de África entre 2011 e 2014.

O comércio internacional de marfim de elefantes é ilegal desde 1989, mas continua a ser um problema. “Os grandes crimes organizados transnacionais aumentaram drasticamente desde 2006, coincidindo com o grande aumento da carga em contentores transportada pelo mundo. O comércio ilegal de marfim de elefantes africanos não é excepção”, lê-se no artigo.

Estima-se que esse comércio ilegal seja responsável pela morte de 40 mil elefantes todos os anos. Já entre 1996 e 2011, calcula-se que cerca de 70% das capturas de marfim tenham sido transportadas em grandes contentores (que têm, pelo menos, uma tonelada métrica). E, em 2016, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) chegou mesmo a apontar a caça furtiva pelo marfim como a principal razão pela morte de cerca de 111 mil elefantes entre 2005 e 2015.

PÚBLICO -
Foto
Apreensão de marfim em 2015 Centro para a Conservação da Biologia/Universidade de Washington

Foi a pensar neste problema que a equipa de Samuel Wasser – também autor do recente estudo e da Universidade de Washington, nos EUA – desenvolveu técnicas de análise genética para sequenciar ADN extraído de marfim do tráfico ilegal de elefantes. Num artigo científico publicado em 2015 na revista Science, essa equipa referia que tinha feito um “mapa” genético de populações de elefantes africanos à escala regional através de ADN de excrementos desses mamíferos. E contava que, a partir de uma colaboração com a Interpol (entidade policial internacional), tinha recebido amostras de marfim apreendido.

No final, a equipa analisou 28 “lotes” de marfim ilegal apreendidos entre 1996 e 2014 e confrontou-os com o mapa genético elaborado anteriormente. Resultado: mais de 85% do marfim apreendido entre 2006 e 2014 tinha tido origem em duas regiões. Uma dessas regiões dizia respeito aos elefantes de floresta e situava-se entre o Nordeste do Congo, o Sudeste dos Camarões e o Sudoeste da República Centro-Africana. Já a outra correspondia aos elefantes de savana e ficava na África Oriental, mais precisamente entre o Sudeste da Tanzânia e o Norte de Moçambique.

Na altura, este estudo também sugeria que um dos maiores lotes de marfim ilegal tinha material genético que vinha das duas regiões. O que significava isto? Que existiriam relações comerciais entre os principais traficantes naquelas zonas.

PÚBLICO -
Foto
Equipa de Samuel Wasser que analisou as presas de elefantes Kate Brooks/The Last Animals

Agora, quis-se saber quantos cartéis de tráfico de marfim existem em África. Para tal, juntou-se ao trabalho de 2015 a análise genética de presas de elefantes – os dois incisivos superiores, que são salientes e têm marfim – encontradas em 38 grandes remessas de marfim confiscadas entre 2011 e 2014. 

Em cada apreensão, procurou-se as duas presas do mesmo elefante. “Fizemos isso ao medir o diâmetro da base da presa, que é o local onde ela se liga à mandíbula. E alinhámos todas as presas da mais pequena à maior com base no seu diâmetro”, conta ao PÚBLICO Samuel Wasser. Depois, reorganizou-se as presas do mesmo tamanho com as que tinham a mesma cor (ou a tonalidade mais próxima).

Teve-se ainda em conta a linha que separa a gengiva da parte visível do dente, pois é aqui que a presa “sai” do lábio do elefante. Além disso, a distância da base dessa linha é muito simétrica nas presas do mesmo elefante. Por fim, extraiu-se ADN dessas presas.

Percebeu-se assim que muitas das presas estavam “órfãs”, ou seja, o seu par não estava na mesma apreensão. Contudo, ao compararem amostras de ADN das várias apreensões, verificou-se que 26 pares de presas de 11 apreensões tinham correspondência genética.

Todas as peças desta investigação se encaixaram quando se juntaram a estes dados informações sobre as exportações no mesmo porto entre 2011 e 2014, altura em que o tráfico de marfim atingiu o seu pico. Desta forma, a equipa identificou o que acredita que sejam os três grandes cartéis que traficaram marfim durante esse período. Mais concretamente, esses grupos criminosos deverão actuar em Mombaça (Quénia), Entebbe (Uganda) e Lomé (Togo).

Pangolins e tubarões

“Não só identificámos as origens geográficas da caça furtiva de elefantes e o número de populações representadas numa apreensão como também ajudámos a relacionar as diferentes apreensões à mesma rede criminosa através das mesmas ferramentas genéticas”, resume Samuel Wasser. “O mais surpreendente foi saber que o número e a localização de grandes cartéis são relativamente baixos e que eles estão interligados.” E reforça que não identificaram concretamente os cartéis no estudo e que esse trabalho é agora da responsabilidade das autoridades policiais.

Para que pode contribuir então? “Pode ajudar a apanhar os grandes criminosos transnacionais que transportam o seu produto em grandes contentores legais por todo o mundo”, explica o cientista. “Os nossos métodos de ADN podem ajudar a polícia a alcançar o contrabando [de marfim] antes que saia de África e se torne mais caro e difícil de rastrear.”

Samuel Wasser defende que, ao combater-se o comércio ilegal desta forma, será mais fácil proteger os elefantes e mantê-los vivos. “Ambos os trabalhos indicam que o número de locais-chave e os grandes cartéis são poucos. Além disso, estes estudos mostram onde devemos actuar.”

PÚBLICO -
Foto
O investigador Samuel Wasser Kate Brooks/The Last Animals

Neste momento, os dados obtidos por estas ferramentas genéticas estão a ser usados pela polícia e pelos decisores políticos. Samuel Wasser indica que estas técnicas não irão estar à venda, mas que estarão disponíveis para todos os que queiram utilizá-las.

Este método pode ser aplicado também a outros animais, como tubarões e pangolins. Afinal, a equipa quer identificar agora outros cartéis em África que tanto trafiquem marfim de elefantes como de pangolins, um dos mamíferos mais traficados do mundo.