Editorial

Os jeans de Costa e a taxa de Rio – a mesma luta

A “imediaticidade e rapidez jornalística”, na expressão de José Pacheco Pereira, influenciada pelos casos do dia das redes sociais nem sempre ajuda a distinguir o essencial do acessório, o fundamental do supérfluo. Mas a verdade é que a vida não está fácil para quem andar à procura da substância na política.

Uma boa parte do país que se habituou a ver o seu Presidente da República a dar entrevistas em pelote andou entretida nos últimos dias a discutir os jeans com que o primeiro-ministro se apresentou em Angola. Os críticos que acusam Rui Rio de se empenhar apenas na caça às bruxas no universo laranja parecem ter passado ao lado da proposta de “reforma estrutural do Serviço Nacional de Saúde” que o partido aprovou esta semana. A “imediaticidade e rapidez jornalística”, na expressão de José Pacheco Pereira, influenciada pelos casos do dia das redes sociais nem sempre ajuda a distinguir o essencial do acessório, o fundamental do supérfluo. Mas a verdade é que a vida não está fácil para quem andar à procura da substância na política.

António Costa, por exemplo, pode ter sido vítima de um erro de avaliação dos responsáveis pelo protocolo do Estado, mas a sua aparição em Luanda de ganga e mocassins não produziu estragos porque os angolanos precisam mais do que nunca do capital e do saber fazer português. Imaginem o Jornal de Angola se o episódio ocorresse sob o gelo da Operação Fizz... Rui Rio pode ter sido vítima de uma condenação injustificada quando se colou à taxa proposta pelo Bloco para travar a especulação imobiliária, mas se há alguém que se mostrou pronto a ultrapassar o PS pela esquerda e baralhou o que resta do ideário do PSD foi ele e mais ninguém. E se a sua reforma da Saúde parece incapaz de despertar estados de alma não é apenas porque é um documento razoavelmente anódino: é também porque ler as suas 19 páginas dá trabalho.

Se as calças de António Costa são um exagero, as críticas a Rui Rio também o são. Costa pecou por interposta pessoa, mas o seu pecado é remível com contratos em Luanda. Rio pecou por voluntarismo na questão das taxas imobiliárias, mas o seu erro é superável quando se percebe que o que está em causa não é uma taxa como a do Bloco para punir quem ganha dinheiro mas um incentivo a que os proprietários fiquem com as suas propriedades mais tempo – o que se torna numa iniciativa bem mais consensual. Sobra ainda o vazio da sua primeira grande reforma, mas também aí vale a pena ter calma: o PSD de Rio não difere muito da média no tacticismo e no medo de arriscar.