Geographia, por rotas de sabores já antes navegados

A dois passos do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, abriu o Geographia. Sem nostalgia, garantem os três sócios, mas indo à procura dos sabores que os navegadores portugueses um dia encontraram.

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A sala do Geographia com o Rinoceronde de Dürer Manuel Gomes da Costa
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O macaco Magalhães Manuel Gomes da Costa
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Manuel Gomes da Costa
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A segunda sala do Geographia Manuel Gomes da Costa
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Manuel Gomes da Costa

Agarrado a um dos pilares no meio da sala está o macaco Magalhães, que, dizem-nos, viveu calmamente no jardim zoológico de Lagos e não terá nunca imaginado que, depois de empalhado, iria fascinar as crianças que vêm comer ao recém-aberto Geographia, restaurante que cruza sabores das rotas dos portugueses pelo mundo, a poucos metros do Museu Nacional de Arte Antiga.

O que surgiu primeiro, contam dois dos sócios, Miguel Júdice e Ruben Obadia (a terceira sócia é a polaca Lucyna Szymanska) foi o espaço, uma simpática esquina na zona das Janelas Verdes. Duas salas, uma mais elevada, boa luz vinda de duas ruas diferentes. Faltava apenas um conceito – que não demorou muito tempo a surgir.

Pensaram que seria interessante trabalhar os muito variados sabores das antigas colónias e de outros países por onde passaram os navegadores portugueses, pintaram as paredes de verde-água, arranjaram mapas antigos, daqueles que havia nas salas de aula da velhinha educação primária, e encontraram um nome: Geographia (assim, com ph para ter ressonâncias mais exóticas.

Mas o mais importante continuava a ser a comida – “Portugal nos Descobrimentos foi à procura do sabor”, sublinha Ruben – e, por isso, para ajudar o chef Carlos Bruno, um brasileiro nordestino, pediram a famílias de Macau e de Goa a viver em Portugal há muito tempo para identificar o sabor exacto de algumas das receitas mais tradicionais das suas terras. “Há, por exemplo, pessoas de Macau que se lembram bem do arroz gordo e ajudaram-nos a perceber se a nossa receita estava próxima ou não”, prossegue Ruben. 

A carta tem os pratos tradicionais mas também algumas reinterpretações nas quais Carlos Bruno cruza ingredientes, sabores e técnicas de diferentes pontos do mundo. Um exemplo é o escondidinho com puré de mandioca que esconde um bacalhau “à Bulhão Pato” (13€, um prato que precisa ainda de algum trabalho para que resulte inteiramente).

Mais conseguidos estão os fritinhos dos quatro continentes, servidos como entradas, e que incluem um pastel de bacalhau com a mandioca a substituir a batata, um croquete com carne de sol, e um wonton de sardinha (6 €). Ainda nas entradas, há vindaloo de porco preto com cuscuz nordestino (14€) e picanha maturada com baião de dois e mandioca frita (16€).

Nos peixes, as opções são entre o caril de camarão à goesa com arroz de côco (14€), polvo grelhado com grão-de-bico, batata doce, milho bebé e grelos (17€), moamba de peixe (13€) ou bife de atum à portuguesa (15€). Nas carnes surge também um escondidinho com puré de mandioca mas com carne de sol (14€), uma galinha do campo ao caril de amendoim (14€) e o arroz gordo macaense (14€).

As sobremesas seguem a mesma lógica de cruzamento de culturas e apresentam um quindim com sorvete de caipirinha (6€), mousse de chocolate de São Tomé com salame (5€) ou bebinca de 7 camadas com gelado de baunilha (6,5€).

Na parede, dominando a sala de baixo do Geographia, está a gravura do rinoceronte feita no século XVI pelo artista alemão Albrecht Dürer. Baseada numa descrição escrita, representa o rinoceronte trazido da Índia pelo rei D. Manuel I, que depois o enviou como presente ao Papa Leão X. O animal, que surpreendeu todos os que o viram na Europa, acabaria por morrer no barco que o transportava até Itália.

Para os sócios do Geographia, o rinoceronte desenhado por Dürer “é a síntese do que Portugal trouxe ao mundo, dos horizontes que abriu”. Garantem que não são saudosistas e que o restaurante não é um exercício de nostalgia, mas apenas a continuação dessa “procura do sabor” – que passa pela comida e pode terminar com um café que é um blend criado para a casa ou com o chá Boa Esperança, também uma mistura de vários países, criação da Companhia Portugueza do Chá.

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