Corrida às livrarias não evita que muitos alunos comecem o ano sem livros

Novo ano lectivo arranca com milhares de alunos sem manuais escolares. Livros estão a demorar uma a duas semanas a chegar às livrarias. Sistema de vouchers voltou a encher as pequenas livrarias, mas a falta de pagamento está a dificultar as contas dos livreiros.

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Serão milhares os alunos que começam o ano lectivo sem manuais atribuídos Nuno Ferreira Santos

As últimas duas semanas foram de corrida às livrarias. Uma grande parte das encomendas de manuais escolares concentrou-se nas vésperas do início das aulas, que começam nesta segunda-feira para a maioria dos alunos. Muito devido à entrega tardia dos vouchers que garantem a gratuitidade dos livros do 1.º ao 6.º ano para alunos das escolas públicas e turmas com contrato de associação. Com isto, os livros estão a demorar uma a duas semanas a chegar às livrarias.

Os directores dizem que os professores estão alertados para a possibilidade de muitos alunos não terem manuais nas primeiras duas semanas de aulas. Com isto, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, garante que “ninguém terá falta de material, nem nenhuma matéria ficará por dar”. Ainda assim, o critério é de cada escola: não emanaram do Ministério da Educação quaisquer orientações sobre o que fazer com os alunos sem livros. Questionado pelo PÚBLICO sobre este assunto o ministério não respondeu.

Filinto Lima diz que o mais provável é que os professores recorram aos livros do ano passado para revisões, façam testes de diagnóstico e fichas de actividades. O representante dos directores só se preocupa se os atrasos na entrega dos livros se mantiverem em Outubro. Até lá, ressalva: “Os pais não devem preocupar-se. E, acima de tudo, não devem passar essa ansiedade para os alunos, em especial os mais pequenos.”

Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, apela também ao “bom senso e compreensão de quem gere as escolas e dos professores para encontrar soluções que possam ajudar a ultrapassar esta inércia”. Espera que a situação seja pontual, em virtude de este ser o primeiro ano em que é utilizada a plataforma Mega – Manuais Escolares Gratuitos, onde encarregados de educação, escolas e livreiros podem pedir, emitir e receber os vouchers que permitem levantar os manuais.

Ir às poupanças pessoais enquanto o dinheiro não chega

A campanha escolar das editoras abre no início de Julho. Também nessa altura os livreiros começam a receber e fazer encomendas. Mas o trabalho de dois meses foi este ano acumulado em duas semanas, diz Adélia Oliveira, proprietária da papelaria A4, em Vila Nova de Cerveira. A concentração excepcional de encomendas num curto período de tempo obriga livreiros e editores a redobrar os turnos. Ana Valente, por exemplo, tem sete pessoas durante 12 horas, seis dias por semana, a dar resposta aos pedidos que chegam à livraria Santa Luzia em Mozelos, Santa Maria da Feira. "Isto é uma loucura, estamos completamente entupidos", afirma. Num ano normal, por esta altura já tinha despachado a maioria dos livros e estaria concentrada no material escolar.

Também na Porto Editora, a logística está “a trabalhar por turnos e inclusive ao fim-de-semana para responder com a celeridade possível a este número anormal de encomendas”, refere a empresa. Tanto a Porto Editora – cujas instalações ficaram danificadas num acidente em Março – como o grupo Leya, chancela das editoras Gailivro, Texto e Asa, garantem que não têm ruptura de stock. Apesar disso, os livros tardam e os livreiros têm indicado que nunca chegarão em menos de uma semana. Este atraso levou o CDS a chamar "com carácter de urgência" o ministro da Educação ao Parlamento.

Na origem dos atrasos está a emissão tardia dos vouchers por parte das escolas. Enquanto umas o fizeram no início da segunda quinzena de Agosto, outras só na primeira semana de Setembro. A isto somam-se falhas de comunicação com os encarregados de educação. “As pessoas pensam que, tendo o voucher, chegam a uma livraria e os livros estão lá à espera. E esquecem-se que têm que fazer uma reserva”, nota Ana Neves, vogal da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros para a área das livrarias. A também livreira no El Corte Inglés em Lisboa e Gaia ainda recebia encomendas na última sexta-feira.

Apesar destes constrangimentos, o sistema de vouchers relançou o negócio de muitos pequenos livreiros, ao evitar as compras centralizadas nas escolas, como era possível desde 2016. Foi, em grande medida, uma batalha dos próprios. Um grupo de oito comerciantes reuniu-se com a tutela para fazer vingar a ideia de que os encarregados de educação deviam poder escolher onde comprar os livros. José Augusto Baía, o porta-voz e dono da livraria Saturno em Oliveira do Bairro, desfaz ilusões: “Aos pequenos livreiros que não têm Jogos Santa Casa, o que nos mantém abertos são os livros escolares. Por isso, um momento como este não é de se desperdiçar.”

Foi assim que Ana Paula Pereira viu regressar à livraria Herculano, em Viseu, “clientes que não via há três anos”. Contudo, o sistema exige-lhe ginástica financeira. As livrarias têm que ter fundo de maneio para aguentar o compasso de espera – não se sabe de quanto tempo – entre o pagamento às editoras e o reembolso do Estado. “Temos que gerir isto muito bem no resto do ano. O nosso negócio é um pinga-pinga”, diz. A sua “sorte são os 34 anos de serviço” em que conquistou a confiança das editoras para negociar um bom plafond (limite de dias para pagar os livros). Com as empresas mais novas não tem a mesma margem de manobra e paga no acto da entrega.

Depois, os livros saem para as mãos dos alunos e o dinheiro não entra. “Tive que dispor de algum dinheiro meu, porque neste momento não se pode ir aos bancos, os juros são altíssimos”, relata também Elisabete Dantas, de Ponte da Barca. A situação é comum aos sete livreiros contactados pelo PÚBLICO.

Entre eles, há quem tenha que ir além das poupanças pessoais e contrair empréstimos. Foi o caso de Abdul Gafar, à frente da Isabsa, em Lisboa, há 39 anos. Com “dezenas de milhares de euros na rua”, teve, no início de Setembro, que pedir 50 mil euros à banca. O valor dá-lhe folga até ao dia 29 de Setembro. Depois disso, como já diz na porta da sua livraria, não aceita mais vouchers.

Há livreiros que já estarão mesmo a rejeitá-los, diz José Augusto Baía.

O Ministério da Educação garante que o dinheiro vai começar a ser transferido para as escolas ainda este mês, tendo em conta as verbas solicitadas pelos livreiros. Estes tiveram na semana passada autorização para começar a enviar as facturas para as escolas.

Entre os livreiros conhecem-se também casos de quem optou por não aderir à plataforma dos manuais gratuitos por falta de solidez financeira, sendo-lhe vedada a venda de uma parte significativa dos manuais escolares. Há casos em que essas portas já estão fechadas.