Entrevista

O relatório da OCDE "não é uma bomba", diz o ministro da Educação

Tiago Brandão Rodrigues recusa interferência do Ministério da Educação nos dados usados pelo relatório anual Education at a Glance.

Entrevista ao ministro da Educação:

“Seria impensável a utilização de tácticas para denegrir os nossos docentes”, diz o ministro da Educação sobre o relatório internacional que afirma que os professores nacionais ganham mais do que a média dos restantes trabalhadores que têm um diploma do ensino superior. Brandão Rodrigues garante também que os dados agora conhecidos não o vão condicionar na intenção de “valorizar os docentes”.

No contexto do braço-de-ferro entre o Governo e os professores, aparece o relatório anual da OCDE, Education at a Glance, que caiu como uma bomba entre a classe docente. A conclusão apresentada, de que os professores recebem 35% mais do que a média dos restantes trabalhadores qualificados, parece-lhe fazer sentido?
Não me parece que esse relatório seja uma bomba. Esse é um relatório anual, feito por uma organização internacional que aparece, tal como o Natal, sempre na mesma altura. Não tem nenhuma interferência da parte dos países. Não há aqui nenhum tipo de manipulação. Isso seria pôr em causa as organizações internacionais.

Mas há dados que são fornecidos pelo próprio ministério.
Para todas as organizações internacionais, existem entidades – algumas da administração pública, outras independentes – que fornecem os dados, mas que não são controláveis. [Dizer que o ME condiciona os dados usados pela OCDE] seria a mesma coisa que dizer que o Governo tem algum tipo de actuação sobre o Instituto Nacional de Estatística. O mais importante é que esses dados não me condicionam nem me fazem hesitar relativamente ao facto de querer valorizar os docentes. Em nenhum momento me sentiria condicionado, ou reconfortado, por uma organização internacional dizer que os nossos docentes têm remunerações mais confortáveis relativamente aos outros trabalhadores.

Mas dá jeito ao Governo que apareça este estudo, porque na campanha pela influência na opinião pública isto coloca os professores numa posição de reivindicação razoavelmente desfavorável.
Esse tipo de tácticas não é utilizado nem por este ministro, nem por este ME, nem por este Governo. Seria absolutamente impensável a utilização de tácticas para denegrir os nossos docentes, para, num momento concreto de negociação, pormos em causa uma classe profissional. Tudo o que ponha em causa o bem-estar dos trabalhadores do ME põe em causa também os nossos projectos pedagógicos.

Há uma outra conclusão do relatório que aponta para um claro envelhecimento do corpo docente em Portugal. Há um problema com esta classe?
Gostaríamos de ter uma classe docente mais rejuvenescida. Em três anos, contratámos milhares de professores para densificar o que são os projectos educativos, como as tutorias, a valorização do desporto escolar ou o projecto de educação estética e artística. Nos anos 60 tínhamos 220 mil alunos a entrar no 1.º ano do 1.º ciclo a cada ano. Agora temos pouco mais de 80 mil. Esta diminuição demográfica faz com que a necessidade de trabalhadores não seja tão aguda como foi no passado. Ainda assim, nós contratámos mais docentes.

Na primeira fase do seu mandato, a grande polémica foi a revisão dos contratos de associação com os colégios privados. Há escolas públicas hoje sobrelotadas em função dos colégios que fecharam nas proximidades?
Não, muito pelo contrário. Há muitos casos muito positivos de escolas públicas que voltaram de certa forma a sentir a força dos seus projectos pedagógicos. Eram escolas que praticamente não tinham alunos.

Foram salvas por essa medida?
Eu não digo isso, que é dizer muito. Essas escolas acabaram por ser nutridas por esses alunos e ver reforçados os seus projectos pedagógicos.