Franquismo: “Querem converter o Vale dos Caídos num parque temático”

O general Juan Chicharro, presidente da Fundação Francisco Franco, garante que a exumação do ditador é uma “cortina de fumo” lançada pelo Governo de Pedro Sánchez para esconder problemas de Espanha.

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Franco a discursar, com o rei Juan Carlos ao lado REUTERS

Quando a única filha de Francisco Franco, Carmen Franco, morreu em Dezembro do ano passado, esvaziou-se a liderança da Fundação Nacional Francisco Franco (FNFF). A família do ditador espanhol olhou então para o general Juan Chicharro, de 67 anos, para ocupar a cadeira. Hoje, tem como missão “promover, difundir, impulsar, o legado, a memória, o pensamento, de Francisco Franco”. Isto numa altura em que se prepara a exumação do “caudilho” do mausoléu do Vale dos Caídos. Chicharro diz que isso não passa de uma “cortina de fumo” lançada pelo executivo do partido socialista (PSOE) de Pedro Sánchez.

General na reserva, Juan Chicharro foi ajudante de campo do então rei Juan Carlos. Fazia parte da equipa que prestava assistência permanente ao monarca espanhol. Agora passa grande parte do seu tempo num terceiro andar em Madrid, que serve de sede da fundação Franco.

A poucos metros deste prédio está o Estádio Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, cujos rivais acusam de ter sido beneficiado pelo regime franquista – precisamente através de uma suposta facilitação na construção do estádio, na contratação de Alfredo Di Stéfano, a sua glória maior, e nas arbitragens.

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Juan Chicharro diz que o Governo socialista usa a memória da ditadura para distrair de outros problemas DR

A pequena sede tem já pouco espaço nas paredes para mais molduras e artigos referentes ao “generalíssimo” Franco. “Somos uma fundação sem muitos meios. E os poucos que temos usamos na defesa, inclusivamente jurídica, da preservação da história de Espanha”, explica Chicharro ao PÚBLICO.

“Está onde tem de estar”

A conversa centra-se, invariavelmente, no processo iniciado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez de activação e ampliação da Lei da Memória Histórica de 2007, criada pelo também socialista José Luis Zapatero. O primeiro passo, já confirmado pelo Congresso, é a retirada dos restos mortais de Franco do Vale dos Caídos. De seguida, pretende-se reconverter o monumento, mas não se sabe ainda em quê.

“Nós consideramos que Franco está onde tem de estar. Por isso opomo-nos firmemente à exumação”, garante o presidente da FNFF. “Pensamos que a exumação não é mais do que um passo dentro de um plano muito mais amplo para dessacralizar o Vale [dos Caídos] e convertê-lo numa espécie de parque temático. Uma espécie de não se sabe o quê. Porque o senhor Sánchez tanto diz uma coisa como amanhã diz outra. Agora diz que quer convertê-lo num cemitério civil. Enfim, não se esclarece”.

A indecisão de que fala Chicharro foi manifestada nos últimos tempos pelo próprio presidente do Governo. Num primeiro momento, falou em criar um museu da memória, mas, no final de Agosto, mudou de ideias e sugeriu um “cemitério civil”.

Encontram-se quase 34.000 vítimas de ambos os lados da guerra civil sepultadas no Vale dos Caídos. Muitas não estão sequer identificadas, e foram trasladadas desde as muitas valas comuns espalhadas por toda a Espanha já depois da inauguração do monumento. Entre elas está então Franco, cuja laje se encontra entre o altar maior e o coro da basílica e, em frente, encontra-se José António Primo de Rivera, fundador da Falange Espanhola, executado pelos republicanos no início do conflito.

O Governo utiliza este facto como principal argumento jurídico para avançar com a exumação. Isto é, aquele é o monumento às vítimas da guerra. Por isso, Franco, como não morreu na guerra, não tem lugar ali. Ao contrário de Primo de Rivera. O executivo pretende apenas que os restos mortais do fundador da Falange fiquem ao lado das restantes vítimas.

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Franco com os seus comandantes, durante a Guerra Civil de Espanha Biblioteca Virtual de Defesa

“Franco efectivamente não é um caído na guerra. José António [Primo de Rivera] sim porque foi fuzilado pela Frente Popular (coligação de esquerda que venceu as eleições de 1936 e que Franco derrotou no golpe de Estado que gerou a guerra civil)”, diz Chicharro.

No entanto, o general explica que o ditador “tem todo o direito do mundo de estar ali enterrado”, lembrando um “direito de patronato” então em vigor que deu a gestão da basílica aos monges beneditinos que ainda hoje formam a Abadia Beneditina da Santa Cruz do Vale dos Caídos. Chicharro compara até este caso aos chamados reis católicos sepultados em Granada – na Capela Real da Catedral de Granada, concebida para receber os restos mortais de Isabel I de Castela e de Fernando II de Aragão.

“Franco não disse em parte nenhuma que queria ser lá enterrado. Quem o enterrou foi o rei Juan Carlos e o Governo de então. E não tem sentido que, 40 anos depois, se tente exumar o seu corpo. Não é mais do que um passo para tentar reverter a história, ilegalizar o que representou o franquismo para Espanha, e dinamitar o espírito de 78 e da transição”, continua Chicharro.

O papel de Juan Carlos

O presidente da fundação Franco toca, nesta afirmação, em vários pontos da história recente de Espanha. Primeiro, que foi Juan Carlos que decidiu sepultar o “caudilho” no Vale dos Caídos, dando ordem para tal dois dias depois da sua morte. E, segundo, a denominada “transição”, processo iniciado também pelo antigo monarca para a restauração da democracia e através do qual se criou a Lei da Amnistia em 1977 e se ratificou, em 1978, a actual Constituição.

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O monumento do vale dos Caídos PHILIPPE DESMAZES/REUTERS

A transição fez-se com base numa espécie de esquecimento do passado sangrento da guerra civil e da ditadura para se poder abordar o futuro democrático. Presos políticos durante o franquismo foram libertados e amnistiados dos seus crimes. Por outro lado, a Lei da Amnistia tem gerado críticas por impedir o julgamento dos responsáveis e dos crimes do regime.

“Mas veio uma terceira geração, reconciliada, desde há cinco anos - quando ninguém falava de Franco ou do Vale dos Caídos, nem da guerra civil –, que tenta reverter a história e regressar a uma idílica Segunda República, que de idílica não teve nada”, acrescenta.

 Sánchez, que subiu ao poder depois de ter feito aprovar uma moção de censura contra o anterior primeiro-ministro, Mariano Rajoy, com o apoio da esquerda e dos independentistas catalães, tenta agora iniciar uma nova abordagem relativamente a este passado. Mas Chicharro garante que isso não passa de uma “cortina de fumo”.

“Espanha tem neste momento muitos problemas – veja-se o que se está a passar, e o que se vai passar, na Catalunha. E [o Governo] está a usar Franco como uma tela para tapar outros aspectos relacionados com a política espanhola”, diz. “Sánchez está absolutamente pressionado por todos os que o puseram no poder: os comunistas separatistas e independentistas”.

“Independentemente disso há uma Lei da Memória Histórica que é uma lei sectária, totalitária e que pretende reverter por completo a história de Espanha. A exumação de Franco é um dos primeiros passos dentro de todo este processo”, insiste Chicharro.

Uma sociedade divida

Em 2011, foi elaborado um relatório por um conjunto de especialistas espanhóis, pedido pelo então Governo de Zapatero, sobre o que fazer com o corpo de Francisco Franco e com o Vale dos Caídos. Entre outras coisas, recomendava-se que se aplicasse a Lei da Memória Histórica de 2007 e que se retirasse os restos mortais do ditador.

“Este relatório é muito detalhado e dá ideias sobre o que fazer, no seu conceito, com o Vale dos Caídos. Mas há aí algo, que ao longo de todo relatório, em muitos artigos, é ressaltado muitas vezes: tem de se fazer com consenso social e político”, lembra o general.

“O senhor Sánchez procurou só o consenso político e não o social. Porque efectivamente há gente que, provavelmente influenciada pelos meios de comunicação, está de acordo com a exumação. Mas há uma percentagem, praticamente igual, que não está de acordo”.

“O que quero dizer com isto é que não há consenso social em absoluto”, conclui.

Foram publicadas várias sondagens sobre o tema nos últimos tempos. A última foi divulgada a 6 de Setembro e feita pela SocioMétrica para o jornal online El Español. Aqui, 40,3% dos inquiridos considera que a exumação reabre feridas do passado. Por outro lado, 43,8% apoia a exumação, 32,3% está contra e 23,9% não tem opinião sobre o assunto.

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Manifestação a favor da manutenção do Vale dos Caídos e do cadáver de Franco no monumento Susana Vera/REUTERS

A julgar por estas percentagens, é um facto que a sociedade espanhola se divide neste assunto.

Família opõe-se

O instrumento que o Governo elegeu para avançar com a retirada do corpo de Franco foi um decreto de lei real, destinado a situações de carácter de urgência (que foi, na semana passada, aprovado pelo Congresso).

Este é outro aspecto que a fundação contesta. “Não consideramos que este seja um assunto de extrema urgência e necessidade”.

Apesar disso, a FNFF não tem grande margem para impedir a exumação: “A fundação, neste momento, como consequência do que o senhor Sánchez fez, que foi um decreto de lei, não pode fazer nada. Tem de ser através de um recurso de constitucionalidade”. E para materializar este recurso, a instituição está a “tentar convencer” o chamado Defensor del Pueblo, uma espécie de provedor do cidadão.

“Estivemos nos últimos anos numa batalha imensa por causa da exumação e também é curioso como a esquerda pretende ilegalizar a Fundação Francisco Franco. Pretendem ilegalizá-la porque entra no mesmo pacote da memória histórica. É curioso que pretendem ilegalizar a Fundação Francisco Franco mas ninguém fala das fundações marxistas, que há bastantes, e que recebem muitas subvenções públicas. E disso não dizem nada. Com isso não há problema nenhum”, acusa ainda o antigo ajudante de campo do rei. 

Além disso, Chicharro considera que os descendentes de Franco têm todo o direito a opor-se à exumação: “Estamos em contacto contínuo com a família sobre este assunto em concreto. A família opõe-se rotundamente, porque, de acordo com o ordenamento jurídico espanhol, um cadáver pertence à família. Não se pode exumar um cadáver sem a permissão da família. Seja quem for”.