Opositores a Rio querem alternativa e não afastam congresso extraordinário

Líder do PSD está debaixo de forte contestação que já contaminou a direcção. Menezes Leitão, que apoiou Rio, não o poupa, diz: "Quando um líder de um partido não se revê nos militantes (…) ou o líder muda de partido ou o partido muda de líder”.

 Rui Rio tenta corrigir o tiro relativamente à "taxa Robles"
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Rui Rio tenta corrigir o tiro relativamente à "taxa Robles" LUSA/CARLOS BARROSO

A semana que agora termina foi trágica para Rui Rio. O líder do PSD não só não descola nas sondagens como já começa a ouvir críticas da própria direcção do partido. A sua frase de que a ideia de o BE taxar as mais-valias imobiliárias “não é assim tão disparatada” deixou Nuno Morais Sarmento e Manuel Castro Almeida, ambos vice-presidentes do partido, estarrecidos. E as movimentações de bastidores já começaram.

Desapontados com Rio, os seus adversários estão a movimentar-se no sentido de encontrarem uma alternativa. Fontes do PSD disseram ao PÚBLICO que há quem defenda que se deve começar já a recolher assinaturas para a convocação de um congresso extraordinário. Este grupo quer chegar a Dezembro com assinaturas suficientes para forçar um congresso logo no início de 2019, que resulte numa mudança de liderança.

Mas não é só internamente que Rui Rio está a ser criticado. Luís Menezes Leitão, professor universitário, que o apoiou para a liderança contra Santana Lopes, acusa-o de “colocar o PSD num estado comatoso”. Na sua página do Facebook, Menezes Leitão não poupa Rio. “Quando um líder de um partido não se revê nos militantes do seu partido, há um manifesto equívoco que é preciso resolver. Ou o líder muda de partido ou o partido muda de líder. E isto tem que ser resolvido rapidamente, sob pena de entrarmos num rio sem regresso”.

Na quarta-feira, na reunião da comissão política do PSD, que antecedeu o conselho nacional, Morais Sarmento terá afirmado, segundo o Expresso, que Rio deu um “tiro no pé”, ao apoiar a proposta bloquista da “taxa Robles”. Por seu lado, Castro Almeida terá dito que as declarações do líder do partido “mexiam com os fundamentos e com a caracterização ideológica do partido”.

Ao que PÚBLICO apurou, as declarações de Morais Sarmento e Castro Almeida, mas também as de Margarida Balseiro Lopes, líder da JSD, André Coelho Lima ou Maria Graça Carvalho, vogais da direcção nacional, evidenciam o mal-estar que varre o PSD.

Fonte da direcção do PSD assegura que, apesar das críticas, a reunião da comissão política decorreu num "clima distendido. Não nasceu ali uma fractura, embora no início da reunião tenha havido uma clara divergência por causa das declarações de Rio sobre a 'taxa Robles'".

Este incidente acontece na mesma semana em que Rui Rio disse no programa Bloco Central, da TSF, que para “aqueles que discordam, de forma estrutural, é mais coerente sair”. E foi mais longe, tendo convidado os críticos a seguirem o exemplo de Pedro Santana Lopes. Este episódio deixou o partido furioso.

Mensagem encriptada

Na reunião de quarta-feira ouviram-se mais críticas à estratégia social-democrata, de Margarida Balseiro Lopes, presidente da JSD, ao coordenador do Conselho Estratégico Nacional e vice-presidente do partido, David Justino. Rio empenhou-se em explicar que a proposta de tributação das mais-valias, destinada a penalizar a especulação imobiliária que o partido pretende apresentar em sede de Orçamento do Estado, não está em sintonia com a do BE. Mas terá admitido que a sua mensagem possa não ter sido perceptível, daí que antes de entrar para o conselho nacional tenha feito declarações à TVI, esclarecendo qual vai ser a posição do PSD relativamente à especulação imobiliária.

E o que disse Rio? “É preciso alterar a taxa de IRS sobre as mais-valias, não é a criação de uma nova taxa. Estamos a falar de um imposto. É diferente, eu comprar uma casa e vendê-la passado um ano ou dois com uma mais-valia ou eu ter essa casa e vendê-la daí a dez ou 15 anos com a mesma mais-valia. E por isso eu entendo que o imposto que se paga quando se combate a especulação, que é a compra e venda permanente, deve ser mais alto do que quando uma pessoa tem uma casa e a vende muito mais tarde. Até, no limite, se tiver uma casa muitos anos pode não pagar nada. Aquilo que eu estou a dizer tem a ver com maior justiça e combate à especulação. A venda é uma coisa normal, a especulação é uma coisa má”.

“Posso reconhecer o mérito de apresentar uma medida para combater a especulação. Não posso dar mérito ou demérito a uma proposta em função de quem a apresenta. O tema que eles pretendem resolver é um tema sério da sociedade. Se calhar querem resolvê-la de forma distinta do que nós queremos. Se quiserem criar uma taxa extra, discordamos”, acrescentou.