Vale dos Caídos Paul Hanna/Reuters

Vale dos Caídos, o lugar que Franco criou “para recordar aos vencidos que foram vencidos”

Mais de 40 anos depois do fim da ditadura, a exumação de Franco do mausoléu do Vale dos Caídos é o ponto de partida para um processo de reconciliação definitiva com o passado recente de Espanha. Será a concórdia possível? Neste momento, há mais perguntas do que respostas.

Ainda se está em plena auto-estrada número 6, que liga Madrid à Corunha e por onde se percorre a maior parte dos 54 quilómetros que separam a capital espanhola do Vale dos Caídos. O GPS indica que faltam 14 quilómetros para se chegar ao destino, mas já se vê, ao fundo, por entre as árvores da vasta serra de Guadarrama, a imponente cruz que é a protagonista do monumento no centro da actualidade política espanhola, o túmulo do ditador Francisco Franco. 

O monumento, no vale de Cuelgamuros, aproxima-se. O céu escurece, a temperatura baixa e caem os primeiros pingos de chuva, contexto meteorológico habitual por aqui. Apesar disso, a fila de carros na entrada principal do complexo é significativa — vai aumentar com o passar do dia. Desta porta, onde se pagam nove euros, até à basílica onde repousa o “generalíssimo”, há que percorrer mais cinco quilómetros. O ambiente é de imponência — Franco construiu um monumento à sua medida, para que se sentisse o peso da sua História. E pressente-se, ali, que a História é pesada.

“O objectivo é tornar a pessoa pequena”, explica Ángel Llorente, o historiador de arte e especialista em arte e ideologia franquista que acompanhou o PÚBLICO ao Vale dos Caídos. Mas, ao mesmo tempo, quer (ou quis) impregnar quem a visse de orgulho. “Quer-nos fazer dizer ‘eu pertenço ao país que fez esta obra’”.

Na auto-estrada 6, a cruz que representa o ideário nacional-catolicismo, de 150 metros de altura e braços de 24 metros cada um, é uma miniatura. Agora, é um gigante que recebe os visitantes. 

A cruz centra o olhar de quem chega. Quando finalmente o magnetismo desaparece, surge a magnitude do resto do complexo — a famosa praça com 30 mil metros quadrados, a imponente escadaria da basílica beneditina de Santa Cruz do Vale dos Caídos, 240 metros de comprido construídos no interior da rocha que forma o vale de Cuelgamuros, o cenário natural que dá corpo ao monumento. 

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A cruz de 150 metros que domina o monumento Reuters/Sergio Perez/Arquivo

Tudo ali foi pensado para transmitir uma ideia, uma ideologia. No tecto do interior da basílica foi mantida a rocha original, como em algumas partes do pátio exterior. “A utilização da rocha original é símbolo de fortaleza, de força”, explica Llorente. “No Vale dos Caídos está presente o poder físico, económico, político, ideológico, além de espiritual”.

Por todos os caídos?

No dia 1 de Abril de 1940, no primeiro aniversário da vitória nacionalista na sangrenta Guerra Civil Espanhola, foi publicado o decreto que deu a partida para a construção do monumento desejado por Franco. Seria feito para “perpetuar a memória dos que caíram na nossa gloriosa cruzada”. 

“A dimensão da nossa cruzada, os sacríficos heróicos que a vitória encerra, e a transcendência que teve para o futuro de Espanha esta epopeia, não podem ficar perpetuados pelos simples monumentos com que se costumam comemorar em vilas e cidades os feitos salientes da nossa história e os episódios gloriosos dos seus filhos. É necessário que as pedras que se levantem tenham a grandeza dos monumentos antigos, que desafiem o tempo e o esquecimento e que constituam lugar de meditação e de repouso em que as gerações futuras rendam tributo de admiração aos que lhes legaram uma Espanha melhor”, estava impresso no documento.

Franco nunca ocultou o seu desejo. O “caudilho” de Espanha quis erguer o Vale dos Caídos — pediu o projecto ao arquitecto Pedro Murguruza, a quem sucedeu depois da sua morte Diego Méndez — para glorificar os que sucumbiram por si no golpe de Estado que se transformou em guerra civil contra os republicanos que, unidos numa Frente Popular (de esquerda) venceram as eleições de 1936. 

A construção do monumento está também envolta em polémica. Calcula-se que 20 mil republicanos presos tenham trabalhado na obra, forçados e a troco de um salário simbólico e uma redução de pena de três dias por cada um de trabalho. 
As condições eram de dureza extrema, muitos morreram, não se sabe ao certo quantos.

No discurso na cerimónia de inauguração, a 1 de Abril de 1959, 19 anos depois do início da construção e no 20.º aniversário do fim da guerra, Franco insistiu no carácter de missão do seu golpe e da guerra. Esta “não foi, evidentemente, só mais uma contenda civil, mas uma verdadeira cruzada”, disse.

Porém, pouco tempo depois da inauguração, o franquismo tentou mudar o significado do num monumento pensado, erguido e inaugurado para idolatrar os nacionalistas e o seu chefe. O regime começou a falar de um monumento aos caídos, em geral. Ou seja, quis transformá-lo no monumento da reconciliação, dando-a como adquirida.

Em nome da reconciliação, começaram a seguir para o Vale dos Caídos os restos mortais de milhares de vítimas de ambos os lados da Guerra Civil, enterradas em valas comuns espalhadas por toda a Espanha. Uma decisão que se mantém polémica até hoje, porque muitos dos mortos, executados e desaparecidos, foram levados sem consentimento das famílias. 

Hoje, estão sepultadas no Vale dos Caídos 34 mil pessoas, cujos restos mortais foram recuperados entre 1959 e 1983, e quase metade está por identificar.

“Inicialmente, quando aparece o decreto que dá forma à construção deste lugar, fala-se dos ‘caídos’. Em alguns documentos, posteriores, fala-se de caídos de ambos os lados. Mas inicialmente é para os ‘caídos na gloriosa cruzada’”, reforça Llorente. “Por isso — prossegue o historiador —, os ‘caídos’ são aqueles que lutaram pela defesa de Espanha contra os estrangeiros, os anti-espanhóis. Porque os espanhóis que lutam pela República e que morrem não são recordados. São anti-espanhóis. Os seus nomes não aparecem em lado algum”.

“Na minha opinião, o monumento aos caídos não é para recordar os caídos. É para recordar aos vencidos que foram vencidos”, acrescenta o historiador. 

É, aliás, o que dizem todos os sinais no monumento. Em cada uma das duas capelas laterais da basílica existem as portas de acesso às tumbas, vedadas ao público. É lá que repousam dezenas de milhares de vítimas da Guerra Civil que partiu Espanha ao meio — e que ainda fracciona, como se vê na polémica sobre a exumação do corpo do ditador, aprovada pelo Parlamento por iniciativa dos socialistas, no poder. Por cima de cada porta lê-se: “Caídos por Deus e por Espanha”, a frase que foi o lema do franquismo. 

“Não se diz ‘pelos caídos por Espanha’. Aqui, alude-se aos que lutaram por Franco. Não são todos. Aqui, são só os franquistas”, atira Ángel Llorente.

Gustavo Alares é professor de História Contemporânea na Universidade de Zaragoza e autor dos livros Políticas do passado na Espanha franquista e História, nacionalismo e ditadura. Também ele descarta a mensagem de reconciliação. “Aludir a uma suposta reconciliação debaixo da imensa cruz do nacional-catolicismo e da sepultura do líder do fascismo espanhol — José Primo de Rivera — e do ditador, não deixa de ser um exercício de propaganda grosseira. De facto, o Vale dos Caídos nunca foi utilizado como espaço de reconciliação, mas sim um lugar de memória e peregrinação para os nostálgicos do regime franquista”, diz ao PÚBLICO Gustavo Alares.

A importância de Felipe II

A localização do Vale dos Caídos era também especificada no decreto de construção. “A razão mais mencionada e mais escrita [para a escolha do lugar] é que este é o centro geográfico da Península Ibérica. Era, por isso, o local indicado”, diz Llorente.

Mas não seria esta a única razão para o jovem regime franquista escolher o Vale de Cuelgamuros para levantar o seu monumento para a eternidade. “Estamos num vale rodeado de montanhas e com um monte no centro, que era ideal como base do monumento. Essa base já estava na natureza, que não era preciso fazê-la. E é perto de Madrid”, explica este historiador.

Ángel Llorente aponta ainda outro motivo para a escolha da localização: a proximidade ao Mosteiro do Escorial, em San Lorenzo de El Escorial (a localidade mais próxima do Vale dos Caídos). Franco quis estar próximo do rei mais poderoso da História de Espanha e dos mártires do Império Espanhol.

Este complexo alberga um mosteiro, um palácio real e uma basílica. Foi erigido entre 1563 e 1584, idealizado por Felipe II, rei de Espanha, de Portugal e dos Algarves, de Nápoles e da Sicília, da Inglaterra e Irlanda. Foi o monarca da época de maior expansão do Império Espanhol.

“O Mosteiro do Escorial era também residência real, e foi onde se guardaram restos mortais de mártires — porque Felipe II trouxe milhares de restos de santos e também relíquias. Além disso, era no mosteiro onde se enterravam, tradicionalmente, os monarcas espanhóis”, nota Llorente. “Então, que melhor lugar do que um que já estava ideologicamente relacionado com o esplendor, o da época de Felipe II, e que era um lugar de mártires a que se juntam os novos mártires? E os novos mártires são os caídos na ‘gloriosa cruzada’”. 

O especialista em arte e ideologia franquista considera que alguém terá aconselhado Franco, explicando-lhe todas estas matérias. “Porque ele não tinha cultura para isso”.

“O Vale dos Caídos é, então, um monumento dedicado à maior glória de Franco, que se considerava uma espécie de novo Felipe II, com o seu próprio Escorial, e do seu regime nacional-católico. A enorme cruz que coroa o monumento é uma boa expressão dele”, defende, por sua vez, Carlos Navajas, professor de História Contemporânea da Universidade de La Rioja, que enviou as suas respostas por email.

Foi o rei Juan Carlos quem, no dia 22 de Novembro de 1975, dois dias depois da morte do “generalíssimo”, decidiu sepultar Franco no Vale dos Caídos. Em concreto, “no presbitério entre o altar maior e o coro da basílica”. É lá que está o corpo, que o Governo quer enviar para outro lado.

O lugar de sepultura de Franco foi uma das primeiras decisões de Juan Carlos, que o ditador escolhera, seis meses antes, como seu sucessor a “título de rei”. 

Juan Carlos deu-lhe a sepultura. Mas também fez o que Franco — que tendo decidido desde cedo a restauração da monarquia após a sua morte, chamara a si a educação do herdeiro — não previu. Juan Carlos deu início à primeira etapa do seu reinado com um processo de transição para a democracia. Poucos anos depois, a transição ficou estabelecida com a aprovação de uma nova Constituição, ratificada em 1978.

Franco foi sepultado no seu Vale, quase 40 anos depois do início da Guerra Civil com que estendeu a passadeira do poder. Em 1936, o general dirigiu um golpe militar contra o Governo da II República espanhola. O golpe degenerou rapidamente para uma guerra entre espanhóis, de um lado os nacionalistas que lutavam por uma “nova Espanha” contra a esquerda republicana no poder.

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Francisco Franco a discursar. Ao lado, o então príncipe Juan Carlos Reuters/Arquivo

Com o apoio ideológico e militar do ditador nazi Adolf Hitler e do fascismo de Benito Mussolini, que usaram o conflito espanhol como tubo de ensaio para avançarem na Europa — e pela II Guerra Mundial —, Franco derrota os republicanos em 1939, abrindo a era da sua ditadura que durou até à sua morte.

Os cálculos do número de mortos do conflito variam, mas vários historiadores apontam para mais de meio milhão, contabilizando já a sangrenta repressão dos franquistas no pós-guerra — calcula-se que as tropas nacionalistas, logo após a vitória, tenham executado cerca de 50 mil pessoas, para além dos fuzilamentos que foram fazendo à medida que progrediam no terreno.

Nestes 500 mil mortos estão também as execuções de nacionalistas às mãos dos republicanos, caso de José António Primo de Rivera, fundador da Falange Espanhola (partido de índole fascista, e o único permitido durante o franquismo), em Alicante, no início da guerra. Primo de Rivera foi trasladado com pompa e circunstância pelo regime para o Vale dos Caídos.

“Morreu em paz, deixem-no em paz”

De cor cinzenta, como a pedra original da rocha do Vale de Cuelgamuros, a laje do túmulo de Franco está praticamente coberta com as flores que os admiradores lá vão deixando. Só o seu nome está à vista. 

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Foto
Laje de Franco/Arquivo Reuters

Desde que o presidente do Governo, Pedro Sánchez, anunciou que pretendia retirar Franco do Vale dos Caídos, o número dos que querem ver o monumento aumentou. Muitos visitantes posam para fotografias com o túmulo em pano de fundo, apesar dos sucessivos avisos dos vigilantes: “Não é permitido tirar fotografias”. Alguns benzem-se e ficam por momentos em silêncio a olhar para o túmulo.

Toda a basílica do Vale dos Caídos está dentro do monte. O túmulo de Franco situa-se ao fundo, entre o altar-mor e o coro — se fizermos um corte no monte, está por baixo da sua grande cruz. Do outro lado do altar maior, também com muitas flores, está a laje de Primo de Rivera.

Para os visitantes, o primeiro encontro é com o criador da falange. Mas o lugar mais importante foi reservado a Franco. 

“Franco está no lugar mais digno. Até ao concílio Vaticano II [1961-65], os padres davam as missas virados de costas para as pessoas. Virados de frente para Jesus”, explica Llorente. Hipoteticamente, o sacerdote oficiante olhava para Jesus e para Franco.

Em Junho deste ano, os socialistas assumiram o Governo, afastando um executivo do Partido Popular (PP, direita). Rapidamente, Pedro Sánchez tornou a exumação do ditador uma prioridade. No dia 12 de Setembro, o Congresso de Deputados deu luz verde ao Executivo para retirar o corpo — o que Sánchez quer fazer até ao fim do ano. “Penso que uma democracia madura como a nossa não pode ter símbolos que separem os espanhóis”, disse o presidente do Governo.

Dolores ignorou as ordens dos guardas do monumento e tirou fotografias à laje de Franco. Benzeu-se, observou a campa e saiu da basílica. Não dá o nome, a idade, a profissão e não permite que se grave a sua voz — será uma constante nesta reportagem. Foi a primeira vez que visitou o Vale dos Caídos, motivada pela curiosidade que a discussão política gerou. Na sua opinião, o Governo devia preocupar-se com outros assuntos: “Há coisas muito mais importantes do que desenterrar alguém que morreu. Ele está aqui há mais de 40 anos. Morreu em paz, deixem-no em paz”, diz.

Apoiado em muletas, o marido de Dolores começa por dizer que não quer falar. Mas ao ouvir a mulher, interrompe: “O Governo devia era gastar dinheiro na criação de estruturas para o acesso de pessoas incapacitadas ao monumento!”. 

O acesso ao túmulo de Franco é a principal preocupação dos visitantes num dia chuvoso do início de Setembro. O monumento — gerido pelo Património Nacional — tem muitas escadas e não há acessos para quem tem mobilidade reduzida.

O dia 20 de Novembro, aniversário da morte de Franco, é dia de romaria especial ao Vale dos Caídos. Alguns nostálgicos do franquismo vão prestar-lhe homenagem, o tal “tributo de admiração aos que lhes legaram uma Espanha melhor” de que falava o decreto de 1940.

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Manifestação de saudosistas do franquismo Reuters/Arquivo

Mas desde que o Governo falou na exumação, o número de visitas cresceu significativamente: segundo dados do Património Nacional espanhol, desde o início de 2018 passaram pelo Vale dos Caídos mais de 153 mil pessoas. Só em Julho, registaram-se mais de 38 mil visitas, mais 49% do que no mesmo período de 2017, ano em que, no total, se registaram mais de 283 mil visitas, mais 7,8% do que no ano anterior.

Rodrigo, que está na casa dos 30 anos, vai ao Vale pelo menos uma vez por ano. Chegou com uma bandeira espanhola à cintura, à semelhança de outros visitantes. Faz-se fotografar a fazer a saudação fascista. “Venho todos os anos. Parece-me um lugar que vale a pena visitar, rememorar e fomentar para que a população também conheça os sítios de culto e os sítios de turismo e de História deste país”, afirma.

A decisão do Governo, diz Rodrigo, não passa de “uma forma de despistar a população no que diz respeito às más políticas que estão a ser levadas a cabo”. “Querem desviar o foco da cidadania com um debate estéril para tirar daqui uma pessoa morta que foi governante deste país, sobre o qual se assinou uma paz, uma trégua, durante a transição”, atira Rodrigo. Prossegue: “É uma maneira de desviar a atenção dos cidadãos no que diz respeito aos problemas que temos em Espanha com a imigração, como a independência da Catalunha, com a subida dos impostos...”.

Ismael e Rosa, outro casal de visitantes, são igualmente contra a exumação do general. “No que me diz respeito, Franco está bem onde está. Não é preciso tocar-lhe”, diz Ismael. Rosa concorda e afirma que “isto é História, e a História não se pode mudar”.

Que futuro?

Quem não conhece a história e o contexto do Vale dos Caídos encontra apenas um complexo turístico em redor de uma imponente basílica. Há um hotel — onde também se organizam casamentos e baptizados —, um restaurante e um colégio, de alunos internos, gerido pelos monges beneditinos que fazem parte da Abadia de Santa Cruz do Vale dos Caídos e vivem no mosteiro, outro dos edifícios. O teleférico que dava acesso à cruz está encerrado há décadas — pelo que é impossível chegar lá acima. Não falta a típica loja de merchandising à saída da basílica, onde se vendem t-shirts com o nome da basílica e a cruz e livros, alguns sobre a história do monumento e sobre a Guerra Civil.

A contextualizar o espaço para o visitante desinformado não há nada. Só existe uma placa alusiva à inauguração.

“Aqui não há nada que identifique o monumento com Franco. Tudo isto é católico”, diz o historiador Ángel Llorente. “Mas a leitura que se faz é que é franquista. Um retrato de Mussolini não é fascista, mas Mussolini é fascista. Por isso, a interpretação que fazemos do retrato é que pode ser também fascista”, diz, fazendo uma leitura ideológica desta arquitectura. “A carga simbólica abafa a carga artística”.

A exumação faz parte de um processo mais alargado de reconciliação e de tentativa de enfrentar as feridas do passado — e de ajustar contas com os crimes do franquismo, um tema que ainda divide a sociedade espanhola. Para que isso aconteça, o Governo quer reactivar a Lei da Memória Histórica, criada em 2007 por outro chefe de governo socialista, José Luis Zapatero, e alargar o seu âmbito. 
Nesse processo, já se falou na reconversão do Vale dos Caídos. Mas, se a trasladação de Franco é garantida, faltando apenas conhecer os prazos, o que fazer com um monumento que é um insulto à memória das vítimas da ditadura para uns, e o espaço a homenagear Franco e a sua vitória sobre a esquerda para outros? É uma pergunta para a qual ainda não há resposta. 

“O que fazer com o Vale dos Caídos foi uma pergunta que fizeram os políticos mas também os historiadores e os professores de teoria política. Creio que ainda não se encontrou resposta”, diz Ángel Llorente.

Pedro Sánchez já deu conta dessa incerteza. Num primeiro momento, e para transformar a simbologia do Vale dos Caídos, tornando-o num verdadeiro “lugar de reconciliação”, o chefe do Governo espanhol propôs criar um museu da memória que albergasse um centro de investigação. Porém, no final de Agosto, falou apenas em manter o lugar como um “cemitério civil” que sirva de “lugar de repouso” às vítimas da Guerra ali estão sepultadas.

Este é também um dos principais argumentos para defender a exumação de Franco. Se aquele é um lugar dedicado a quem morreu durante no conflito, o general não pertence àquele espaço porque não perdeu a vida na Guerra — morreu na sua cama. 

Sobre Primo de Rivera, o Executivo já disse que ficará no Vale dos Caídos, mas deixará o lugar de destaque e irá para junto das outras vítimas.

“Se exumarem os restos de Franco, o Vale poderia perder o seu carácter franquista. Porque seria um monumento aos caídos. Mas teriam que fazer uma campanha junto da opinião pública para haver essa mudança: já não é o sítio onde Franco está enterrado mas sim os que morreram na Guerra Civil”, refere Llorente. 

As opiniões dos especialistas ouvidos pelo PÚBLICO divergem sobre este tema, espelhando a sua complexidade. Gustavo Alares avisa que o “destino final do Vale dos Caídos depende da vontade política do actual Governo e, em qualquer caso, seria desejável que qualquer medida contasse com um amplo consenso político”. “O futuro do Vale é incerto”, diz.

Alares torce o nariz à ideia de ser um espaço de reconciliação: “Tanto pela sua natureza como pelo seu simbolismo e estética, é um lugar com uma forte marca ideológica que não pode ser ignorada. A pretensão de transformar o monumento num espaço de reconciliação parece-me pouco acertada. Ninguém pensaria em Auschwitz como um lugar de ‘reconciliação’ e é, de qualquer forma, difícil de o conseguir sem perder o rigor histórico e o mínimo senso comum”. “Uma adequada contextualização histórica poderia ser interessante, apesar de não estar isenta de problemas”, acrescenta.

Navajas diz que há outra forma de olhar para o problema: “Dentro das alterações que se produzem no significado dos monumentos históricos ao longo do tempo, não será o Vale dos Caídos, no fundo, um monumento que denuncia o próprio Franco e a sua egomania, a sua ditadura e o seu afã de se legitimar na Vitória — com ‘v’ maiúsculo — numa Guerra Civil? Ou seja, fazendo uma leitura muito subtil da questão, o Vale dos Caídos voltou-se contra o seu criador”.

Alares lembra outras opções: “Existem também outro tipo de intervenções que foram realizadas noutros períodos históricos e noutros países: desde a demolição (com maior ou menor grau de solenidade) até ao simples abandono à passagem do tempo. Isto foi uma actuação (a não actuação) relativamente comum em diversas ex-repúblicas soviéticas. Como monumento de terror, obsoleto e desactualizado, inútil para a sociedade actual, o Vale seria devorado pelo tempo, tombado como o regime caduco e ruinoso que representava. Uma solução que não está isenta de lirismo e que considero de difícil aplicação”.

Reconciliação por “amnésia”

A polémica sobre a exumação e o destino do Vale dos Caídos mostra como as feridas do franquismo continuam abertas, a reconciliação não está feita e há quem queira justiça ou apenas recuperar os corpos de familiares desaparecidos. O modelo de transição da ditadura para a democracia fez-se em Espanha através de uma espécie de “amnésia” colectiva relativamente ao passado, materializada na Lei da Amnistia, de 1977. Mais de 40 anos depois, procura-se agora ir mais longe e abrir uma espécie de “ajuste de contas” com a História contemporânea do país. 

“Durante a transição quis-se intencionalmente esquecer o passado. Esquecer para nos reconciliar. A transição é uma reconciliação. Mas não uma reconciliação para reconhecermos os nossos erros e culpas e dizermos ‘isto foi o que fizemos e agora vamos criar uma coisa nova’. Foi antes ‘vamo-nos reconciliar porque já não sei quem és, já não me recordo’”, critica Llornete que, nesta visita ao Vale dos Caídos, acrescenta: “Se calhar era necessário naquele momento”.

“Creio que a reconciliação é possível e necessária”, continua o historiador de arte, propondo que o “Estado procure legalmente os restos das vítimas e as enterre de forma digna”. “O resto da investigação cabe aos historiadores”.

Alares faz também uma reflexão sobre esta nova interpretação de reconciliação e da transição: “O denominado ‘espírito da transição’ viria a sintetizar uma suposta vocação de consenso e de busca por soluções dialogadas e pacíficas perante o fim do franquismo. Mas esta interpretação da transição espanhola está a ser submetida a novas leituras”. 

“O certo é que na ausência de episódios de clara dimensão simbólica — como o 25 de Abril português ou a queda do muro de Berlim —, a emergente democracia espanhola estabeleceu uma transição como um atípico lugar de memória”, diz. “Talvez fosse desejável, depois de 40 anos, que fosse superado esse suposto ‘espírito da transição’, que permitiu, entre outras coisas, manter o mausoléu de um ditador sanguinário em plena democracia”.