“O fado, na música, é a coisa mais parecida com o teatro”

José Mário Branco diz que onde há exibição não há expressão. E com Katia Guerreiro o método deu frutos, proveitosos para ambos.

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Katia com José Mário Branco: “Comecei a perceber que ela ia para casa trabalhar muito e no ensaio seguinte chegava aqui com um passo dado. Foi isso que me fez ir gostando dela cada vez mais” Jorge Simão

Cantor, compositor, arranjador, orquestrador, produtor, homem de sete ofícios que têm passado pela música, pelo cinema e pelo teatro, José Mário Branco tem um método e uma marca que vai deixando nos discos que dirigiu ou orquestrou desde os anos 1970 (José Afonso, José Jorge Letria, GAC, Janita Salomé, Amélia Muge, Gaiteiros de Lisboa, Canto Nono, Samuel ou o projecto Benjamim com Maria João). No fado, género do qual se aproximou nos anos 1980, trabalhou primeiro com Carlos do Carmo (produziu e fez a direcção musical do disco Um Homem No País, de 1983) e depois com Camané, cuja carreira acompanha desde o primeiro disco, também como produtor e director musical.

Quando Katia Guerreiro lhe telefonou pela primeira vez, expressou-lhe todas as suas reservas. Não por qualquer aversão pessoal ou política, diz, mas por questões puramente musicais. Mas ela não desistiu, insistiu. E telefonou-lhe umas semanas depois. “Gostei muito desse gesto”, diz José Mário Branco. “Acabei o telefonema a explicar quais eram as fases seguintes do processo e a dizer que íamos trabalhar, mas com uma condição: no primeiro momento em que qualquer um de nós achar que não está a ser bom continuar, ficamos por aqui.” O processo, idêntico ao usado no trabalho com Camané, não é fácil. “Em que é que eu sou intratável, no sentido prosaico da palavra? É que eu estou a fazer uma coisa, que é o que o cineasta faz quando filma ou o encenador quando encena, que é trabalhar em função de um resultado final. Tenho de ter o disco todo na cabeça. Na fase instrumental estou muito preocupado com as notinhas todas certas, mas quando a fase é meter vozes tenho então aí de filigranar o trabalho.” Numa folha, José Mário Branco mostra um quadro onde cruza os nomes das canções a gravar (na vertical), submetendo cada uma delas a outras colunas encimadas por vários graus de exigência: Afinação, Vogais, Atitude, Voz e respiração, Estilado, Divisão, Vazios (emocionais). E só quando todas as colunas tiverem um visto é que a canção está pronta para o disco.

O primeiro contacto entre ambos foi positivo, mas a aproximação deu-se no trabalho. “Há um lado, não directamente artístico, que funcionou muitíssimo bem. A Manuela [de Freitas] foi logo de início conquistada pela simpatia da Katia, uma pessoa muito bonita por dentro e por fora, com uma conversa muito agradável, muito sã. Eu não fui assim tão de chofre, mas sim pela atitude dela no decorrer dos ensaios: comecei a perceber que ela ia para casa trabalhar muito e no ensaio seguinte chegava aqui com um passo dado, não a 100 por cento mas quase! E foi isso que me fez ir gostando dela cada vez mais.” José Mário cita, a propósito, o Siddhartha de Hermann Hesse: “O que eu aprendi com esse livro é que os mestres não existem, quem existe são os discípulos. Os mestres são referências para um caminho, que não é feito com o mestre nem pelo mestre, é feito pelo discípulo sozinho, que vai caminhando. Este foi um caso típico desse género: ela fez o seu caminho. Onde não sabia, havia uma indicação, uma explicação, uma sugestão. É um tique que eu tenho de há muitos anos, quando dirijo alguém em estúdio: nunca dou uma indicação que não explique porquê. Para dar a possibilidade ao ‘formando’ de assimilar a sugestão ou de apresentar, se for o caso, os seus contra-argumentos.”

José Mário Branco, 76 anos feitos em Maio, viu editado este ano um disco duplo de Inéditos, com canções compostas e gravadas entre 1967 e 1999 e foi homenageado no passado dia 8 de Setembro pela Câmara Municipal do Porto.  O seu trabalho mais recente, entre os muitos que tem feito, foi a produção e direcção musical do disco agora lançado de Katia Guerreiro, Sempre. Onde, mais uma vez, pôs à prova o seu método criativo: “A guerra grande, nesta arte como noutras, é a incompatibilidade total entre expressão e exibição. Aprendi isso no teatro, com a Manuela, com o João Mota, com o [Adolfo] Gutkin: onde há expressão não pode haver exibição, onde há exibição não pode haver expressão. São incompatíveis. Foi um trabalho lento, para interiorizar o processo criativo, criticar tudo que fosse efeito. Eu trabalho muito a fazer perguntas: porque é que cantaste assim e não assado? Porque é que ali fizeste isto? O que é que estavas a sentir? É porque eles estão a contar uma história às pessoas. E se é uma história pessoal, vivida, estão com as emoções ao rubro; se não é, estão a fazer como os actores, a mobilizar memórias de coisas parecidas que viveram: o que é amar uma pessoa, o que é morrer uma pessoa, o que é odiar, matar, tudo. Vai-se buscar – Stanislavski! – o método para que tudo o que se faça seja o mais possível verdade. E o fado, na música, é a coisa mais parecida com o teatro. É uma arte de presença com um grande despojamento. O Camané tem dito esta coisa bonita aos jornalistas: ‘quando estou a cantar, esqueço-me de mim’.”