À procura dos genes do Nemo

Foram publicados numa revista científica os resultados da sequenciação do genoma de qualidade do peixe-palhaço, o famoso Nemo do filme da Disney.

Fotogaleria
O peixe-palhaço vive em anémonas Tane Sinclair-Taylor
Fotogaleria
São conhecidos pela sua cor laranja e riscas brancas Tane Sinclair-Taylor
Fotogaleria
Têm o seu corpo revestido com um muco que os protege dos tentáculos venenosos das anémonas Tane Sinclair-Taylor

Provavelmente, o peixe-palhaço é um dos animais mais conhecidos do oceano. Ou não fosse ele a estrela no filme de animação da Disney À Procura de Nemo. Depois de Nemo ser capturado e levado para longe de casa, o seu pai, Marlin, vai à procura dele com a ajuda da esquecida Dory (peixe cirurgião-paleta). Uma equipa internacional de cientistas também procurou os genes do Nemo. Isto é, mapeou o genoma do peixe-palhaço com qualidade para que seja possível perceber a resposta dos peixes de recife às alterações climáticas. Os resultados da sequenciação deste genoma foram publicados na última edição da revista científica Molecular Ecology Resources.

O peixe-palhaço é inconfundível. De cor laranja e com três bandas brancas verticais, habita nas anémonas, onde se abriga dos predadores. Mas só consegue ter a sua casa ali porque tem o corpo revestido por um muco que o protege dos tentáculos venosos das anémonas. “Em troca, o peixe-palhaço defende a anémona de parasitas e predadores, sendo que esta retira nutrientes dos seus excrementos e restos de comida”, lê-se no site do Oceanário de Lisboa, um local onde se pode ver estes peixes.

Uma das grandes características dos peixes-palhaço é a mudança de sexo. Podem nascer machos, mas se a fêmea dominante do grupo morrer, um dos machos irá mudar de sexo e assume assim o lugar dessa fêmea, refere ainda o Oceanário de Lisboa.

Estes animais são importantes para estudos ecológicos e evolutivos dos peixes nos recifes de coral. Ou não fosse uma das suas casas mais conhecidas a Grande Barreira de Coral, na Austrália. O peixe-palhaço é assim estudado como modelo de processos como a mudança de sexo, a organização social, a selecção do habitat e a longevidade.

Além disso, é utilizado para se perceber os efeitos ecológicos dos distúrbios ambientais nos ecossistemas marinhos devido às alterações climáticas ou à acidificação do oceano. Por exemplo, sob o efeito de um oceano mais acidificado, o peixe-palhaço é atraído pelo odor dos seus predadores e fica mais exposto a esse perigo.

PÚBLICO -
Foto
Os peixes-palhaço são bons modelos para se estudar os efeitos dos distúbios ambientais nos ecossistemas marinhos Tane Sinclair-Taylor

Agora, com ferramentas de sequenciação de tecnologia de ponta, conseguiu-se criar um dos mapas genéticos mais completos do peixe-palhaço (neste caso, da espécie Amphiprion percula). “Este genoma dá-nos um modelo essencial para compreendermos todos os aspectos da biologia dos peixes de recife”, considera Robert Lehmann, da Universidade de Ciência e Tecnologia do Rei Abdullah (Arábia Saudita) e um dos autores do estudo, num comunicado sobre o trabalho.

“Apresentamos aqui uma montagem do genoma de referência com qualidade do icónico peixe-palhaço”, lê-se no artigo científico, que tem mesmo como título “À procura dos genes do Nemo: uma montagem de referência à escala cromossómica do genoma do peixe-palhaço Amphiprion percula”.

Um laboratório ideal

E o que tem este genoma? “Tem 26.597 genes que codificam proteínas. E, tal como o maior quebra-cabeças do mundo, levou-nos tempo e paciência para que montássemos as peças”, refere Robert Lehmann.

“O peixe-palhaço tem aproximadamente 939 milhões de nucleótidos que precisaram de ser encaixados”, acrescentou Timothy Ravasi, da mesma instituição e também autor do trabalho. Já agora, o que são os nucleótidos? São os elementos químicos de base que constituem a molécula de ADN (a adenina, timina, citosina e guanina, representadas pelas letras A, T, C e G). E os genes são conjuntos dessas letras que, além de codificar proteínas, encaixam-se aos pares – A com T e C com G.

Esta equipa já tinha anunciado que tinha realizado esta sequenciação. “É um esforço notável e representa uma montagem muito completa deste genoma”, dizia Robert Lehmann, acrescentando que o genoma do peixe-palhaço é composto por 24 cromossomas, num comunicado da sua universidade em Março deste ano.

Têm sido publicados mais trabalhos sobre o genoma do peixe-palhaço como montagens do genoma das espécies Amphiprion frenatus e Amphiprion ocellaris, mas eram mais fragmentados.

A sequenciação do genoma agora publicada tem mais qualidade. “Este é um dos genomas de peixes mais completos alguma vez produzidos”, salienta David Miller, da Universidade James Cook (Austrália) e outro dos autores da recente investigação. Como tal, Timothy Ravasi considera que este trabalho é um “recurso extremamente valioso para a comunidade científica” e que o peixe-palhaço será um “laboratório ideal para estudos genéticos e genómicos”. Os dados deste estudo estão disponíveis numa base de dados aqui para que todos possam encontrar os genes do Nemo.