Mais de 60 colectivos organizam manifestação contra o racismo

Concentração acontece no sábado em Lisboa, Porto e Braga. Violência policial no centro da mobilização.

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O caso de Nicol Quinayas originou várias manifestações, entre elas uma no Porto em Julho LUSA/JOSÉCOELHO

Mais de 60 organizações juntaram-se para promover aquela que alguns esperam tornar-se uma das maiores manifestações contra o racismo e que acontece em simultâneo, no sábado, às 15h, em Braga (Av. Central/Chafariz), em Lisboa (Rossio/Largo S. Domingos) e no Porto (Praça da República). 

Sob o mote Contra a brutalidade policial racista, junta associações com diferentes missões e mais antigas como o Moinho da Juventude, o SOS Racismo, a Plataforma Gueto, a Solidariedade Imigrante, a União Romani Portuguesa, a União de Mulheres Alternativa e Resposta ou a Letras Nómadas a grupos mais recentes como a Afrolis, a Casa do Brasil, a Consciência Negra, o Teatro Griot ou até ao Sindicato de Trabalhadores de Call Center.

Foi motivada por vários acontecimentos e muito pelo julgamento dos 17 polícias da Esquadra de Alfragide acusados de tortura e racismo a seis jovens da Cova da Moura, e que está a decorrer no Tribunal de Sintra, explica Anabela Rodrigues, do Grupo de Teatro do Oprimido de Lisboa, uma das promotoras. 

"Estamos a assistir a um julgamento em que, pela primeira vez, uma esquadra inteira está no tribunal por causa de atitudes racistas a jovens negros, consequência do racismo institucional no nosso país. A manifestação serve para alertar a nível nacional que isto está a acontecer, é um momento histórico importante”, diz. “É um alerta para que não se repitam as situações que levaram a este julgamento. Por outro lado, há uma lei anti-racismo que foi publicada há um ano e que não tem eficácia”, comenta.

A activista espera, assim, que seja “uma das melhores e maiores concentrações de sempre" com aquele mote "feita pelos próprios colectivos”.

No documento enviado à imprensa os organizadores referem que "os vários casos de racismo que têm sido discutidos na praça pública são só a ponta do icebergue daquilo que as nossas comunidades sofrem no seu dia-a-dia, sem que se faça justiça". Lembram episódios mais recentes como as agressões e insultos racistas a Nicol Quinayas, no Porto, por um segurança da empresa 2045 na paragem da SCTP – a PSP foi acusada de não ouvir a jovem e está a ser investigada pela Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI). Ou referem casos mais antigos como o de Igor, jovem cigano que foi baleado em Beja em 2012 por um agente da PSP quando se deslocou a uma quinta para pedir trabalho na apanha da azeitona – o tribunal condenou-o a pena suspensa de um ano e três meses em 2016.

E a adesão?

Em Braga, as concentrações contra o racismo não são frequentes mas Emília Santos conhece vários casos de discriminação, até por experiência própria. Fundadora de um grupo no Facebook que luta contra a xenofobia, maus tratos e todo o tipo de agressões – onde se denunciam situações do dia-a-dia – não sabe quantas pessoas irão estar na concentração. Mas esta portuguesa filha de cabo-verdianos diz que é importante “dar a cara” e juntar-se: “Há pessoas que acham que não são racistas. O povo acha que o racismo é só não gostar da cor da pele, mas não é só isso”.

Do Porto, Maria Gil, membro do colectivo de ciganos activistas Existimos e Resistimos, junta-se por ter “consciência do que se passa em Portugal", por algo que a "atinge na pele sendo portuguesa cigana”, comenta. “A manifestação mobiliza-me por todo o exercício de racismo que já vivenciei em algumas instituições e pelas dificuldades que me são apresentadas no quotidiano como portuguesa cigana”. Para a actriz esta “não é” uma luta sua “mas de todos enquanto portugueses”.

A manifestação é importante pelo alerta, por colocar o foco no tema e por dar visibilidade ao racismo - visibilidade “que é muito recente” porque “somos educados" para a sua "negação”, acrescenta. Embora não esteja muito optimista quanto ao número de pessoas que poderão mobilizar-se este sábado, nem com o efeito que possa produzir, afirma que o facto de acontecer é importante. “Já há uma tomada de consciência, há um empoderamento das comunidades e vejo pequenas mudanças”, conclui.