Cordeiro rendeu-se à "gerigonça", mas quer PS a ir sozinho às eleições

PS-Açores começa esta sexta-feira congresso regional que vai renovar liderança de Vasco Cordeiro. Presidente dos socialistas açorianos diz que, mais do que o partido, a reunião vai discutir o futuro da região autónoma.

Vasco Cordeiro quer assento no Conselho de Ministros
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Vasco Cordeiro quer assento no Conselho de Ministros LUSA/ANTÓNIO ARAÚJO

No dia em que arranca, na Praia da Vitória (Terceira), o XVII Congresso Regional do PS-Açores que o vai confirmar para o terceiro mandato na liderança dos socialistas açorianos, Vasco Cordeiro fala ao PÚBLICO sobre política nacional, sobre o futuro das autonomias e sobre o acordo de cooperação e segurança com os Estados Unidos. “Uma relação bastante desequilibrada, com prejuízo para o nosso país”, diz o também presidente do governo açoriano.

Mas primeiro a "geringonça". Cordeiro foi um dos que, dentro do PS, verbalizaram dúvidas sobre a solução governativa. Na altura, chegou mesmo a dizer que quem ganha as eleições deve governar. “Também disse que quem ganha eleições tem também responsabilidade de encontrar soluções para governar”, ressalva. Três anos depois está convencido.

“[Foi] um trabalho que orgulha o PS, e mais: que deve orgulhar todos os portugueses”, analisa, apontando a recuperação do país que, embora tenha contado com a participação dos partidos à esquerda, considera essencialmente resultado das políticas implementadas pelo Governo PS.

Por isso, e por considerar que o “trabalho ainda não está concluído”, Vasco Cordeiro considera que o partido deve enfrentar o próximo combate eleitoral orgulhosamente só. “O PS tem todas as condições para apresentar aos portugueses o trabalho que fez, nas condições em que fez”, sublinha, dizendo ser “prematuro e precipitado” falar neste momento em acordos pós-eleitorais.

Cordeiro não tem problemas em mandar sugestões para o Largo do Rato, sede nacional do partido, em Lisboa, mas é mais cauteloso e evita entrar em considerações de estratégia que digam respeito à Rua da Alfândega, sede do PS-Madeira. Os socialistas madeirenses, diz, não precisam de assessoria política dos Açores. “Tenho total e absoluta confiança na capacidade do PS-Madeira de interpretar o mais fielmente possível o sentir do povo madeirense e de ser capaz de construir uma solução que mereça também essa apreciação e confiança”, comenta, recusando apreciações sobre a estratégia dos socialistas do Funchal para as eleições regionais do próximo ano na Madeira. Porque o seu foco está nos Açores.

No congresso, que se prolonga até domingo, com a presença de Carlos César, presidente honorário dos socialistas açorianos, e Emanuel Câmara, líder do PS-Madeira, Vasco Cordeiro quer o partido a discutir o “presente e o futuro” dos Açores.

“Será um congresso em que a partir do PS-Açores se discute o futuro dos Açores e soluções para os açorianos”, afirma, dizendo que o partido tem sabido “corresponder” aos anseios, necessidades e mesmo aos sonhos que o povo açoriano entende como seus, e que devem por isso ser concretizados. “Só assim se explica o PS ter tido manifestações de confiança tão expressivas como tem tido ao longo dos tempos”, diz o homem que chefia o executivo açoriano desde 2012, substituindo na presidência Carlos César (1996-2012), que não se recandidatou por limitação de mandatos.

Cordeiro, que em Junho foi reeleito para um terceiro mandato como presidente do PS-Açores, com 97,89% dos votos, leva à Praia da Vitória a moção de orientação global Pelos Açores com os açorianos, dividida em três grandes blocos: Afirmar os Açores, Reforçar a Coesão e Qualificar a Democracia.

Esta, insiste o dirigente socialista, não é uma moção sobre o PS. “É um documento sobre e para os Açores”, sublinha, exemplificando com as propostas em termos de afirmação da autonomia e qualificação da democracia açoriana. Do conjunto de ideias destacam-se a extinção do cargo de Representante da República – as suas competências devem ser atribuídas a órgãos regionais, criados ou a criar –, a possibilidade de partidos regionais concorrerem às eleições para o parlamento açoriano ou a presença do presidente do governo regional no conselho de ministros sempre que forem discutidos assuntos de interesse regional.

“A questão é criar um fórum de articulação privilegiado entre os dois governos”, justifica Vasco Cordeiro, dizendo que a autonomia não pode ser resumida a “um plano de fomento” ou a um veículo apenas para concretização de obras. “A autonomia deve assumir em si mesma também esta função de melhorar a democracia”, defende, explicando que, apesar de estas propostas terem de ser validadas por uma Revisão Constitucional, nada impede que o PS-Açores as “apresente” e o parlamento açoriano aprove uma proposta autonómica.

“Independentemente do tempo em que estas propostas forem aprovadas, devem apenas entrar na legislatura seguinte”, indica Vasco Cordeiro, para dizer que qualquer alteração no actual quadro constitucional não o encontrará no Palácio de Sant'Ana, sede da presidência açoriana, devido à limitação de três mandatos.

 

Confronto entre Funchal e Lisboa

O governo madeirense do social-democrata Miguel Albuquerque tem endurecido o discurso contra o que considera ser uma instrumentalização do Estado por parte de António Costa, com objectivos partidários. Vasco Cordeiro não comenta. A Madeira, diz, tem governo e partidos próprios que são responsáveis por interpretar aquilo que os madeirenses pensam.

Mas o pudor de Cordeiro em comentar o diálogo Funchal-Lisboa não o impede de recordar os tempos em que na República mandava o PSD e em Ponta Delgada o PS. “Nos Açores, em relação ao anterior Governo da Republica, nós tivemos questões de discordância, de abordagens diferentes e críticas em alguns casos. Julgo que isto é um processo natural em democracia”, afirma, dizendo que com diálogo foram ultrapassadas algumas das diferenças.

O mesmo modelo de abordagem tem de ser aplicado com Washington. Cordeiro não olha para os protagonistas que estão na Casa Branca, olha para a questão essencial. O actual Acordo de Cooperação e Defesa, “que tem nas Lajes e nos Açores a sua âncora e o seu alicerce”, é neste momento uma relação desequilibrada com prejuízo para Portugal e em especial para os Açores. “É importante colocar em cima da mesa a constatação desse desequilíbrio.”