Hadi ou Hadálio? Para o PT não interessa porque “Lula é Haddad”

A candidatura de Fernando Haddad assenta na enorme popularidade de Lula da Silva. Mas até o nome do candidato pode ser um obstáculo.

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O candidato do PT tem tentado aproximar-se da base popular do partido PILAR OLIVARES / Reuters

De T-shirt vermelha com o rosto de Lula da Silva estampado, Fernando Haddad teve o seu primeiro contacto directo com o eleitorado como candidato oficial do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência esta quinta-feira nos arredores de São Paulo. Os comícios reforçam a estratégia de colar ao máximo Haddad ao ex-Presidente, para beneficiar de uma possível transferência de apoio.

A certa altura, durante o passeio de Haddad em Carapicuíba, um subúrbio industrial na zona oeste de São Paulo, o locutor apresenta o candidato como “Luiz Fernando Haddad Lula da Silva”, não deixando margem para dúvidas de que o slogan do PT para as presidenciais é mesmo para levar a sério: “Lula é Haddad.”

Mas Lula está longe de ser Haddad. Ou melhor, Haddad é que tem poucas semelhanças com Lula. O ex-presidente da câmara de São Paulo é um académico urbano pouco conhecido fora da maior metrópole brasileira. Lula foi um operário metalúrgico com pouca escolaridade, que se notabilizou no movimento sindical e por onde passa continua a arrastar multidões. A atestar esse magnetismo está o acampamento permanente que desde Abril está montado perto do edifício da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula está preso.

O grande desafio da campanha “petista” é reduzir esse fosso entre as duas personalidades, ou seja, tornar Haddad mais conhecido, sabendo, porém, que nunca irá granjear o apoio que Lula continua a receber – as sondagens apresentam-no como o político mais popular do país com uma confortável distância do ultraconservador Jair Bolsonaro.

Esse processo é feito de pequenos passos. Um deles é a forma como se pronuncia o nome do candidato. Esta semana, o PT divulgou um vídeo em que várias pessoas aparecem a dizer o nome de Haddad de maneiras diferentes – há quem lhe chame Hadi, Haider e Hadálio. A mensagem subjacente da campanha é a de que não importa não saber pronunciar o nome do candidato, mas sim saber que ele foi o escolhido por Lula.

Um ilustre desconhecido

A tónica da campanha na identificação entre Lula e Haddad tem por base a elevada popularidade de Lula, por um lado, e o desconhecimento de Haddad pelos brasileiros, por outro. Sondagens em Agosto mostravam que Haddad era desconhecido para 40% do eleitorado, a percentagem mais elevada entre os favoritos para as eleições de 7 de Outubro.

Ainda antes de Lula ter ficado oficialmente fora da corrida, Haddad andava já a tentar mostrar-se pelo país. As primeiras semanas de campanha, então como candidato a vice-presidente, foram passadas no Nordeste e nos arredores industriais de São Paulo. No Nordeste, espera-se uma dura batalha pelos votos do eleitorado mais pobre entre Haddad e o candidato do Partido Democrático Trabalhista, Ciro Gomes, ex-governador do Ceará.

As sondagens mostram uma luta taco-a-taco pelo segundo lugar e a passagem à segunda volta, com quatro candidatos perto dos 10%. Assim que Haddad foi lançado como candidato presidencial, Gomes partiu de imediato para o ataque, dizendo que “o Brasil não aguenta outra Dilma”.

Em São Paulo, a missão de Haddad é distinta. O mandato como autarca tornou-o conhecido, mas também o deixou fragilizado perante o eleitorado urbano. A sua gestão à frente da câmara da maior cidade brasileira, entre 2012 e 2016, não é consensual. A subida dos preços dos transportes públicos acendeu o rastilho dos protestos que a partir de 2013 subiram de tom e tornaram-se numa rejeição ampla a toda a classe política. A sua aposta foi em planos estruturais para redesenhar os acessos ao centro da cidade, como a construção de uma ciclovia, um programa de urbanismo para revolucionar o espaço público ao longo da próxima década.

As suas políticas de maior impacto foram de “difícil percepção popular”, escreve a edição brasileira do El País, e acabou por perder a reeleição logo à primeira volta contra João Doria, do Partido da Social Democracia Brasileira.

Os analistas são unânimes em apontar um forte potencial de crescimento da candidatura de Haddad, que parte de um patamar muito baixo nos últimos meses, em que andou sempre perto dos 5% das intenções de votos. As primeiras sondagens após o afastamento definitivo de Lula mostram que a transferência de apoio já começou, mas ainda não é suficiente para que Haddad assegure uma passagem à segunda volta.

O candidato não se preocupa, nem com sondagens nem com o pouco conhecimento que o eleitorado tem dele. Num podcast da candidatura, lembrava recentemente que já passou por algo semelhante: “Em São Paulo comecei como Adalto, terminei como Haddad e ganhei a eleição.”